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Sá Carneiro. O que resta do legado social-democrata do fundador no actual PSD?

Sá Carneiro. O que resta do legado social-democrata do fundador no actual PSD?

03/12/2013 00:00
Em 2013, o fundador e líder histórico do PSD, Francisco Sá Carneiro, tem sido citado para nortear a actuação do executivo de Pedro Passos Coelho e a orientação ideológica do maior partido da coligação

Desaparecido há 33 anos, Francisco Sá Carneiro é um dos nomes mais evocados na vida política portuguesa. Mas estará o legado do fundador e líder histórico social-democrata ainda no ADN do seu partido? "O PSD de Sá Carneiro está vivo", garantiu Pedro Passos Coelho no dia da tomada de posse do governo. "Comparar os ideais sociais-democratas que estiveram na origem do partido com a filosofia neoliberal que o PSD actualmente professa é uma diferença de 180 graus", contrapõe António Capucho, um próximo de Sá Carneiro que não poupa críticas ao caminho traçado nos últimos anos pelo PSD.

A questão da herança de Sá Carneiro e da sua doutrina não é de resposta única - entre os sociais-democratas alega-se também que nunca o partido esteve tão perto do líder histórico como agora. Hugo Soares, deputado e líder da JSD, defende que os "valores que fizeram a social-democracia de Sá Carneiro são os valores do PSD de hoje. Não há vários PSD".

Na oposição, ou dentro do próprio partido, há quem diga que sim, que há vários PSD"s e que o actual está longe do original. Só ao longo deste ano, o fundador e líder histórico do PSD tem sido evocado pelo partido, pelo governo e pela oposição para justificar medidas de austeridade, para contornar crises políticas na coligação e ainda como termo de comparação ao actual primeiro-ministro Pedro Passos Coelho - muitas vezes acusado de se estar a distanciar cada vez mais dos ideais sociais-democratas professados pelo líder histórico. Mário Soares acusou-o mesmo de estar a "trair o pensamento de Sá Carneiro".

Para António Capucho os caminhos percorridos actualmente pelo partido "não têm nada a ver com a génese do PSD". Para o histórico social-democrata a liderança até tem agora "algum pudor" em falar sobre Sá Carneiro, acusando quem o faz de "usurpar a memória" do fundador.

O líder da juventude do PSD não pensa da mesma maneira: "A transformação que o país exige é muito similar com a transformação que Sá Carneiro ambicionava fazer quando foi eleito primeiro-ministro". Também para Carlos Carreiras, social-democrata que preside à Câmara de Cascais, um dos pontos de ligação "forte" entre a actuação do governo e do legado de Sá Carneiro "é a necessidade de fazer reformas no país". Para o autarca os valores defendidos por Sá Carneiro mantêm-se "muito presentes" no partido e no governo, embora o executivo liderado por Pedro Passos Coelho tenha sido chamado a "fazer o mais difícil". "Fica difícil identificar um programa social-democrata porque estamos muito condicionados", aponta Carreiras.

Outras diferenças A actuação do governo é uma das maiores divergências com os ideais de Sá Carneiro, diz, por seu lado, Capucho. "Não se pode deixar de lado a austeridade, mas a dose é excessiva e tem como consequência a destruição da economia, não permitindo o combate ao desemprego". Também a organização interna do próprio partido mudou: "As pessoas trabalhavam de forma amadora - tinham outras profissões -, desinteressada e não andavam à procura de lugares. Agora assistimos a uma oligarquia que se quer perpetuar no poder" reforça o ex-autarca, que afirma ainda ser possível regenerar o partido, já que há "muitas bases, com gente muito válida, que querem voltar às origens e não se revêem na actual estratégia". E que, acrescenta, estão interessadas numa liderança encabeçada por Rui Rio, que segundo Capucho, "iria restaurar os princípios básicos da social-democracia". Com Rita Tavares

Sá Carneiro nas palavras dos outros

Antigo líder do PSD é permanentemente evocado. Para atacar o governo, para defender o governo ou para justificar (não) saídas do governo, eis Sá Carneiro no discurso político em 2013

Mário Soares - “O que é que era o Sá Carneiro? Não era por este governo. Não era anti-social-democrata. Não era ultraconservador. Era um homem de esquerda que quis entrar na internacional socialista, isto significa que eles estão a trair o ideal de Sá Carneiro”  
30 de Maio de 2013

Paulo Portas - “Quando não era sequer militante do partido a que presido retive de um líder político absolutamente invulgar, Francisco Sá Carneiro, uma grelha de avaliação para superar questões dilemáticas: Primeiro, Portugal; depois o partido; por fim a circunstância pessoal de cada um de nós.”
[a justificar o recuo da saída “irrevogável” do governo]12 de Julho de 2013

Pacheco Pereira - “A ideia de que para alguém do PSD, para um social-democrata, lhe caem os parentes na lama por estar aqui [na conferência “Libertar Portugal da austeridade”, na Aula Magna], só tem sentido para quem esqueceu, contrariando o que sempre explicitamente -  insisto, explicitamente -  Sá Carneiro disse: que os sociais-democratas em Portugal não são a direita. Os parentes caem na lama é por outras coisas, é por outras companhias, é por outras cumplicidades, é por se renegar o sentido programático”.  
30 de Maio de 2013

José Pedro Aguiar-Branco - “Dizia um político que eu muito admirei que, julgo também muitos aqui admiram, Francisco Sá Carneiro, que o Estado social é necessário que exista nas democracias modernas, é um Estado que deve estar preparado para ir ao encontro das necessidades mais exigentes das sociedades modernas, mas o Estado social que absorva a sociedade por completo ou que tenda a absorver a sociedade por completo é um Estado totalitário.”
6 de Novembro de 2013

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