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Atropelamentos em Lisboa. Pare, escute e fuja da passadeira

Atropelamentos em Lisboa. Pare, escute e fuja da passadeira

11/10/2013 00:00
Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa está em consulta pública até ao fim deste mês e contou quase seis mil atropelamentos desde 2004

Olhar para a esquerda e a direita, e só depois atravessar. E sempre na passadeira. O conselho é velho, mas não deixa de ser sábio, sobretudo para um lisboeta à beira de uma zebra pintada nas ruas de Benfica - a freguesia onde mais peões foram atropelados em passadeiras sem semáforo na capital. Estas e outras razões justificam que, em Lisboa, "forçosamente se deve concluir que a passadeira parece ser um local perigoso", diz o Plano de Acessibilidade Pedonal que a câmara pretende implementar na cidade até 2017.

As contas apresentadas no documento ajudam a perceber porquê: entre 2004 e 2011, quatro em cada dez pessoas (39,6%) atropeladas na capital estavam a caminhar numa passadeira. Nesses oito anos, um total de 5909 peões foram atropelados nas ruas de Lisboa - quase metade estava a menos de 500 metros de distância de uma escola. A maior fatia dos acidentes (2341) aconteceu numa passadeira não regulada por um semáforo.

Nesta batalha de números em que menor é sinónimo de melhor, o bairro de Benfica sai a perder: é a freguesia com mais ruas (três) entre as 12 sinalizadas pelo relatório com maior índice de sinistralidade em zebras. A Estrada de Benfica, a Rua da Venezuela e a Estrada dos Arneiros completam o trio nesta freguesia, fruto do número de atropelamentos que registaram, primeiro de 2004 a 2007 e, depois, entre 2010 e 2011. As restantes ruas pertencem às freguesias do Oriente, Olaias, Alvalade, Arroios, Graça, Penha de França, Santa Maria Maior e Alcântara (ver infografia).

Consoante o local onde ocorreram, o plano distribuiu os incidentes pelas 24 freguesias de Lisboa. Numa corrida disputada entre 2004 e 2011, as Avenidas Novas acabaram por liderar a lista, com 345 casos, perseguidas por Alvalade (305), Benfica (250), Santa Maria Maior (247) e Estrela (220).

verde não chega Mesmo não sendo o tipo de incidente rodoviário mais frequente, as passadeiras parecem ser um chamariz que nem o sinal verde para os peões - e o consequente vermelho para os condutores - parece apagar. "O peso relativo dos atropelamentos em passadeira quando estava aberto o verde para o peão é superior ao dos ocorridos quando estava aberto o vermelho", conclui-se no plano pedonal da capital.

A Praça Duque de Saldanha é a zona crítica onde mais pessoas foram atropeladas quando o sinal mostrava verde para os peões. A Praça D. Pedro V, no Rossio, o Largo Luís de Camões e "as ruas no coração da Baixa/Chiado" foram os locais onde mais se registaram atropelamentos com o sinal vermelho. Neste caso, porém, os números não o provam, dado que o documento não menciona quaisquer dados, salvaguardando apenas que se "deve [ter] algum cuidado com as estatísticas, porque nem sempre é possível verificar sem margem para dúvida qual era, de facto, o sinal aberto".

Desde 2004 que ocorrem em média 738 casos de atropelamento por ano na capital, segundo o plano elaborado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e actualmente em processo de consulta pública até 31 de Outubro. O relatório, baseado em dados recolhidos pela PSP e Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, sublinha, porém, que "o número de atropelamentos na cidade de Lisboa tem vindo, de uma forma geral, a diminuir" desde 1998. Mas este século já deu quatro excepções à tendência. Em 2002, 2006, 2009 e 2011 houve aumentos suaves e "pontuais" no número de casos, que "só os dados de 2012 permitirão tirar a limpo".

E o ano passado, segundo dados apurados pelo i, a contagem ficou nos 616 atropelamentos em todo o concelho de Lisboa - número, portanto, inferior à média relativa só ao território da capital. Desde 2006, aliás, que o número se tem mantido abaixo do milhar de atropelamentos.

calçada sem solução Do alcatrão para os passeios de Lisboa, os problemas continuam, em parte devido à "falta [de] compromisso político". O documento chega mesmo a apontar que "a CML não dá o exemplo", pegando depois na calçada portuguesa como uma das amostras dessa crítica.

Hoje aplicada em zonas onde "não é de todo adequada", como ruas inclinadas, os 14 técnicos da equipa coordenadora do relatório condenaram a "perda de qualidade acentuada pela generalização do uso da calçada"e a ausência de "mão-de-obra especializada" quando se aplica estas pedras de vidraço nas ruas. Não é difícil comprová-lo: tanto no Rossio como no Parque das Nações é comum ver os passeios revestidos com o branco da pedra da calçada. O problema está no predomínio da versão "sem qualidade" da pedra. Um exemplo é a opção pelo polimento acelerado do calcário, que o torna escorregadio.

Soluções nem vê-las, pelo menos nas páginas que o plano dedica à pedra da calçada. Os técnicos explicam que "não está ao alcance" da autarquia mudar "no curto prazo" a "perda de qualidades da calçada de vidraço", já depois de lamentarem que este "não é" um fenómeno passageiro. "A CML não dispõe nem de meios nem de tempo para proceder a uma substituição instantânea ou integral" da calçada portuguesa "sem qualidade". O relatório não chega a mencionar quaisquer zonas ou troços mais problemáticos.

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