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Dealema. 18 anos de uma locomotiva de culto

Dealema. 18 anos de uma locomotiva de culto

23/12/2014 00:00

Em 1996, o EP “Expresso do Submundo” dava um pontapé no escuro, no que aos primórdios do hip-hop nacional diz respeito. Em 2014, os Dealema atingem a maioridade com a certeza de que não existem colectivos de cinco no rap português. A banda de culto acaba de lançar uma campanha de crowdfunding para um DVD biográfico a sair em 2016, quando assinalam 20 anos de carreira. Tempo ideal para uma viagem ao passado de DJ Guze, Ex-Peão, Fuse, Maze e Mundo Segundo, desde um concerto de Gabriel o Pensador no Porto até um acidente onde uma cabina de colchões atinge Marta Ren por culpa dos cinco rapazes. Faz parte

Concerto de Gabriel o Pensador

Antes de Dealema, existia Fullashit – banda de Fuse e Ex-Peão – e Factor X – de Mundo Segundo e DJ Guze. Data histórica esta, a de 1994, a primeira vez que Gabriel o Pensador actua em Portugal e que coincide com o primeiro encontro desta rapaziada, que se conhecia mas não partilhava o mesmo nome. “Já conhecia o Mundo, já tinha estado em casa dele através de um amigo, mas foi a primeira vez que vi o Fuse. Foi a primeira vez que muita gente do Porto ligada ao movimento se viu e se conheceu. Dessas duas bandas surgiu uma vontade de ensaiar em conjunto; pouco depois, nasceram os Dealema”, conta Maze.

“H. I. Vedeta”

Depois do “Cachimbo da paz” que Gabriel o Pensador atirou a estes cinco, a coisa formou--se, ainda que no início haja sempre aquela fase de testes. “Antes disso, ainda não como Dealema, fizemos outras experiências, chegámos a cantar umas faixas em inglês e assim”, diz Maze com um ar arrependido. A primeira faixa dos Dealema foi “H. I. Vedeta”, esclarece-nos Mundo. “O nome, como podes ver, é muito apelativo”, brinca, antes de prosseguir: “O beat foi feito com uma caixa de ritmos da Alesis e um sample de teclado. Na altura era o Fuse que fazia loops em cassetes, era o artesão da fita magnética.” Tudo isto em 1995.

“Expresso do Submundo”

O laboratório de experimentação Dealema começou em 1995. Mas foi em 1996 que saiu o primeiro EP, “Expresso do Submundo”, que recentemente foi oferecido em cassete aos felizardos que tiveram oportunidade de estar nas sessões “A Maioridade dos Dealema”, uma no Porto, outra em Lisboa. Quase um artefacto com uma história curiosa por trás. “Já tínhamos feito algumas músicas, depois houve uma noite em que decidimos, ‘ vamos gravar uma maquete’. Tínhamos um Fostex de quatro pistas, um microfone da Philips de dois contos, o Guze tinha um prato da Grundig, com uma moeda de 20 escudos pousada em cima da agulha para não saltar muito”, conta Mundo. A noite acabou às seis da manhã.

Liceu de Gaia

Se os Dealema têm a escola toda, esta escola tem muito mais. Ao Liceu de Gaia deve-se um capítulo importante na história da banda e do hip-hop portuense. Foi dali que saíram as primeiras rimas, as primeiras idas atrás do pavilhão, o primeiro concerto. “O nosso primeiro concerto foi no Liceu de Gaia, coisa que se viria a repetir depois numa festa de Carnaval. Aliás, o Liceu de Gaia foi de onde saiu um sem-número de talentos do movimento, desde o breakdance ao graffiti, ao rap. Grande parte daqueles que revolucionaram o hip-hop no Porto andaram lá: o Ace dos Mind da Gap, nós, entre outros”, conta Mundo Segundo.

A história da cabina

Durante a entrevista perguntámos, como é nosso hábito, por história caricatas que marquem o percurso da banda. “Quem quer contar a história da cabina?”, pergunta Mundo. Ex-Peão chega-se à frente e explica: “Fomos gravar ‘Dealema’, o primeiro disco de 2003, no estúdio do Zé Nando Pimenta, na Meifumado, e ainda não existiam as condições que existem hoje. Então fizemos uma cabina de voz improvisada: era colchões de lado, em cima, um biombo, não havia janela, nada. De repente, ouvimos um estrondo, e aquilo tinha caído tudo em cima da Marta Ren, que estava a gravar. Fomos ver: estava ela a segurar no microfone para não o estragar.”

O EP mais dispendioso de sempre

Remavam a favor, caminhando para “A Grande Tribulação”, quando Henrique Amaro lhes propôs que fizessem o segundo EP, “Arte de Viver”, editado em 2010 – objecto que serviu para largarem a âncora e ensaiarem novas texturas e sonoridades, bem como dois clipes, os mais dispendiosos de sempre, com “Mais uma Sessão” e “Olhos de Vidro”. “Não divulgamos o valor porque depois não podemos regatear”, brinca Mundo. Um ano depois desses seis temas de “Arte de Viver” saía “A Grande Tribulação”, iam os Dealema com 15 anos de carreira. Fuse confessa que mesmo hoje, com mais três, “o peso que se sente é o da barriga, pelo menos no meu caso”.

“A Grande Tribulação”

Rio de 15 anos que desaguou no terceiro disco de originais, “A Grande Tribulação”, das coisas mais emblemáticas que o conjunto fez, Maze assim o prova. “É claramente um disco diferente. Aliás, o conceito está bem definido, o disco está fechado hermeticamente naquele ambiente sombrio e sinistro.” Em 2011 decidiram enviar uma mensagem à indústria. “É como uma afirmação nossa perante o mercado musical. Estava toda a gente a fazer música para apelar às massas e nós decidimos voltar ao fantasmagórico, aos violinos, à nossa sonoridade obscura, quase como ‘nós fazemos o que nos apetece e não queremos saber se isto vai vender’”, conclui Mundo.

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