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PCP. De derrota em derrota, rumo à vitória

PCP. De derrota em derrota, rumo à vitória

10/02/2015 00:00

O PCP foi o único partido organizado durante a resistência à ditadura. Isso marcou-lhe a “alma”. O partido sobreviveu à queda do muro e às sucessivas vagas de dissidentes e o que para muitos pareceu espantoso, conseguiu uma renovação geracional. O seu líder, Jerónimo de Sousa, encarna a alma do PCP operário e espontâneo – que Cunhal liderou mas não foi

Camarada é uma palavra usada pelos jornalistas, pelos comunistas e na tropa. Era assim que os revolucionários soviéticos se chamavam uns aos outros e basta ir, no século XXI, a qualquer actividade do Partido Comunista Português, em Lisboa, no Alentejo ou na cintura industrial – hoje muito longe do espírito de Leninegrado e Estalinegrado – para ficar maravilhado com uma marca dominante da “alma comunista”: uma fraternidade ritual quase maçónica.

Ao contrário dos militantes dos partidos de direita, os comunistas tratam-se por tu (o que acontece também em grande parte dos socialistas e entre os bloquistas). Mas a fraternidade comunista é um “statement”, uma proclamação, uma coisa incomparável em outro contexto. Um cidadão comum não comunista pode ter uma amostra disso se for à Festa do Avante! – aí terá o privilégio de ser tratado com a afeição ritual que um comunista dedica a outro. Nas barracas de comida, os militantes destacados para a venda não fazem distinções nem pedem o cartão a ninguém.

O conforto desta pertença a uma fraternidade – independentemente da adesão ideológica – foi retratado magnificamente pelo escritor Mário de Carvalho (ele próprio militante comunista durante anos a fio) no romance “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. O personagem principal, na meia idade e com uma vida desesperada, decide de um momento para o outro inscrever-se no Partido Comunista Português.  Mas uma inscrição no Partido Comunista não é um vou-ali-e-já-venho: o resto do romance é um rol magnífico de peripécias entre o homem desejoso de pertencer a uma fraternidade e os dirigentes das organizações que reportam ao Comité Central que duvidam das intenções do solitário candidato a militante. E Mário de Carvalho retrata no romance outra marca da “alma comunista” que o tempo foi diminuindo mas que ainda está longe de estar extinta: uma desconfiança permanente contra o mundo exterior. Este traço tem razões de ser: na realidade, o Partido Comunista Português era a única estrutura verdadeiramente organizada na resistência à ditadura. E a militância no PCP antes do 25 de Abril implicava risco de vida, risco de prisão pela PIDE, risco de denúncia. A vida na clandestinidade – os nomes falsos, as famílias falsas, uma existência paralela sempre em fuga – marca a história do partido e teria forçosamente que ser um traço identitário dos comunistas.

O PCP resistiu à morte anunciada pelas sucessivas vagas de dissidentes: do “grupo dos Seis” em 1988 – Vital Moreira, Zita Seabra, entre outros – à Renovação Comunista muitos anos mais tarde, onde pontifica Carlos Brito, ex-líder parlamentar do PCP. Sem ser o KKE – o partido comunista grego bastante mais radical do que o nosso – o Partido Comunista manteve-se fiel aos seus princípios internacionais. Bernardino Soares é um dos mais talentosos quadros comunistas, foi líder parlamentar, é hoje presidente da Câmara de Loures. Mas a alma internacionalista do PCP será sempre a alma internacionalista do PCP. “Tenho dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia”, disse uma vez Bernardino Soares para choque de meio país. O PCP não mudará nunca em determinadas matérias, mas procedeu a uma renovação geracional que era considerada impossível há 20 anos. Bernardino é um exemplo dessa renovação, como João Ferreira, João Oliveira, Rita Rato. O PCP não morreu com os velhos resistentes.

Como o PCP se transformou no mais institucional e previsível dos partidos – muita gente de direita acha isto – já ninguém acredita que coma criancinhas ao pequeno-almoço. Mas em 1974-1975 não foi assim: um “comuna” era um perigo para os socialistas, a direita e a extrema-esquerda.

Poderia o PCP sobreviver ao afastamento de Álvaro Cunhal, aquele que com a sua aura de resistente mitificado liderou “o partido” anos a fio? A resposta era inicialmente duvidosa. Nunca se perceberá porque é que Carlos Carvalhas, um economista intelectual, falhou – mas percebe-se porque é que Jerónimo de Sousa, o “ortodoxo” a quem muitos auguravam uma liderança desastrada, vence. Jerónimo encarna a alma do PCP operário, aquele que Álvaro Cunhal liderou mas nunca foi. Pela sua absoluta normalidade e extraordinária afabilidade espontânea – Jerónimo consegue suceder a Cunhal, e sobreviver à morte de Cunhal, suavemente. Ameaçado pelo Bloco de Esquerda em 2009 – que empurra o PCP para quarta força política no Parlamento – os comunistas sobrevivem, de derrota em derrota “Rumo à Vitória” (título de um dos muitos livros de Álvaro Cunhal). Hoje são novamente o terceiro partido.

 

Fundador

É um nome desconhecido, mas talvez existam razões históricas para isso. José Carlos Rates era sindicalista, participou no I Congresso Sindicalista e Cooperativista em 1909 e no congresso de criação da União Operária Nacional em 1914. Foi preso e deportado. Ao contrário de uma grande parte dos sindicalistas da época, nunca manifestou tendências anarquistas. Depois da revolução de Outubro de 1917, que marca o arranque do poder dos sovietes, adere ao bolchevismo.
Em 1921, funda o Partido Comunista Português e em 1922 é escolhido para secretário-geral do partido. É o primeiro secretário-geral do PCP, mas acaba por ser expulso por “desvio ideológico”  relativamente aos mandamentos da Internacional Comunista, no segundo congresso do PCP em 1926. Numa mudança radical, acaba por se juntar ao partido único salazarista, a União Nacional. O seu sucessor será Bento Gonçalves, que será muito crítico do primeiro secretário-geral.

Momento

A 2 de Fevereiro de 1986, o PCP reúne em congresso extraordinário – o XI – para decidir o que fazer na segunda volta das presidenciais, que punham frente a frente Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral. No conclave, organizado em apenas cinco dias, um renitente PCPapela aos “patriotas” que votem na candidatura de Soares, arqui-inimigo do partido. O apelo de Álvaro Cunhal fica para história – “Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra”. Soares acabaria por vencer as presidenciais desse ano à tangente, com 51, 2% dos votos.

Uma história

A 25 de Novembro de 1975, dia do golpe militar que visava acabar com a influência da esquerda radical, Álvaro Cunhal manda os militares comunistas ficarem parados e não oferecerem resistência. A extrema-esquerda avança, mas os militantes do PCP ficam parados, depois de receberem mensagens de Álvaro Cunhal. Há várias teses: Cunhal pode ter percebido que a guerra contra as forças que queriam travar “a revolução” estava perdida. Mas, ao contrário do que muitos pensam, os comunistas são travados pelo secretário-geral, depois de um sem-fim de reuniões que meteram o Presidente da República Costa Gomes.

Tragédia

Os mortos da ditadura, entre os quais muitos comunistas (que mais se expunham no combate ao Antigo Regime) são a maior tragédia escrita nas páginas da história do partido. Muitas das mortes contaram-se no Tarrafal, o “campo da morte lenta” como também ficou conhecida a prisão, em Cabo Verde, dos contestatários do regime. Foi lá que morreu Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP e Alfredo Caldeira, outro dirigente comunista. Muitos comunistas morreram a tiro ou na sequência de torturas da polícia do regime. O artista plástico José Dias Coelho, comunista assassinado na rua a tiro pela PIDE, deu origem à música de Zeca Afonso: “A morte saiu à rua num dia assim/Naquele Lugar sem nome para qualquer fim”.

Lugar

O Barreiro – e toda a cintura industrial de Lisboa – ficará sempre associado ao PCP. Em 1975 fazia parte daquilo que a direita e os socialistas chamavam “a comuna de Lisboa”. No Barreiro, os ódios entre socialistas e comunistas ainda podem ser hoje visíveis. Foi uma luta sem tréguas em 1975. Com uma população operária – a CUF de Alfredo da Silva dominava a paisagem – o Barreiro é um símbolo do Partido Comunista. É a cidade que recebe os alentejanos pobres que deixam os campos para vir trabalhar perto de Lisboa – e que forjaram a militância no Alentejo. Ainda hoje o Barreiro é uma cidade de “alma comunista”, mesmo que o PS já tenha vencido as autárquicas.

Família

Carlos Brito e Zita Seabra foram casados durante muitos anos. Têm duas filhas. Foram os dois comunistas durante anos a fio e depois divorciaram-se. Carlos Brito foi líder parlamentar do PCP  durante 15 anos, e é nesse cargo que assiste à expulsão da ex-mulher. Zita Seabra rompe com o PCP em 1988 assinando o manifesto do grupo dos Seis. Mas muitos anos depois também Carlos Brito rompe com o PCP: é hoje um destacado membro do movimento Renovação Comunista.

Objecto

Álvaro Cunhal era um homem distante, misterioso e com uma aura inacreditável. Os comunistas viam-no como uma espécie de deus – embora todos aqueles que lhe foram próximos gostem de salientar a espantosa normalidade do histórico secretário-geral do PCP. Mas não era, de facto, normal: Álvaro Cunhal criou o seu próprio mito, ninguém sabia onde morava, com quem era casado, nada, zero. Numa entrevista televisiva histórica, Álvaro Cunhal fala pela primeira vez na sua filha e nos seus netos. Tinha sido um momento raro. Mas um objecto que ficará ligado para sempre à imagem de Álvaro Cunhal é a sua famosa “pochette”: uma carteira de mão, muito utilizada por alguns homens nos anos 70, que hoje equivaleria a uma espécie de clutch. Álvaro Cunhal nunca largava a “pochette”.

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