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A história de Henrique Neto. De operário comunista a pedreiro socialista e agora candidato Presidencial

A história de Henrique Neto. De operário comunista a pedreiro socialista e agora candidato Presidencial

24/03/2015 00:00
Henrique Neto desejava “ardentemente” que aparecesse “um candidato de fora do sistema” a concorrer a Belém. Acabou por ser ele próprio

O lobo solitário que hoje apresenta a sua candidatura à Presidência da República nasceu nos anos 30, num país longínquo onde não havia adolescentes. Essa categoria não existia quando aos 14 anos se começava a trabalhar. Foi o que aconteceu com Henrique Neto numa fábrica da Marinha Grande, a mesma cidade onde muitos anos mais tarde se transformaria num empresário de sucesso, o que também quer dizer muito rico. Aos 14 Henrique Neto era aprendiz de serralheiro numa fábrica de moldes. Depois chegou a director da fábrica e mais tarde a proprietário.

Henrique Neto nasceu em Lisboa, no Beco do Carrasco, onde havia uma fábrica de vidro. O pai era vidreiro, depois foi polícia. Henrique fez o 1.o e o 2.o ano da Escola Industrial Fonseca Benevides, em Lisboa, e depois foi para a Marinha Grande fazer o 3.o, o 4.o e o 5.o da Escola Industrial. “Hoje penso muito que nunca ninguém da minha família pensou que eu pudesse ir para o liceu! Na altura não dei por isso, mas agora penso muito nisso! Na altura deram-me a escolher entre o Curso Comercial na Calçada do Combro e o Industrial na Fonseca Benevides. O liceu era impensável, era para os meninos ricos. Está a ver a volta que o país levou? Isto dá-me uma grande satisfação e uma grande alegria!”, disse numa entrevista no fim de Janeiro ao i. Faz sempre questão de dizer que não é doutor. Ou, como prefere dizer: “Não faço questão! Não tirei curso nenhum, não sou!”

Em 1975 fundou a Iberomoldes, que se transformaria num grupo industrial com mais de mil trabalhadores. Em 2009 vendeu tudo ao sócio. Hoje vive no centro de Lisboa, ao Chiado, numa casa perfeita, com vista, quadros e livros por todos os lados.

O meio operário onde cresceu convocou-o imediatamente para a aproximação ao Partido Comunista. Porque vai Henrique Neto para o PCP ? Respondeu assim em Janeiro ao i: “Quem lutava contra o regime era o PCP! Os outros falavam, o PCP agia! As pessoas da oposição gostavam de falar, mas depois executar fosse o que fosse ‘tá quieto. Os únicos que realmente executavam eram os do PCP.” Aos 14 anos, já militante do MUD juvenil, ficou encarregado de guardar em casa uma máquina de escrever e um stencil [uma espécie de fotocopiadora rudimentar que se usou até aos anos 80] para imprimir manifestos.

“Na altura o MUD juvenil pôs-me em casa, para horror da minha mãe, uma máquina de escrever e um stencil.” Colaborou na campanha de Humberto Delgado em 1958, fez parte das listas da oposição democrática em 1969, do congresso de Aveiro em 1973. Militante do PCP a partir de 1967, sai do partido numa madrugada revolucionária em que se discutiam os SUV [Soldados Unidos Vencerão, um grupo militar radical].

“Fui do PCP entre 1967 e 1975 e saí numa madrugada, às cinco da manhã… Eu estava no MDP mas era do PCP… quando se discutiram os SUV. Achei que aquilo era de doidos, porque podia dar uma guerra civil. Dar armas aos soldados, sem oficiais sem nada, achei aquilo uma coisa de loucos! De maneira que disse: ‘Comigo não.’ E aí desiludi-me mesmo”, contou ao i há dois meses.
É Jorge Sampaio que o vai buscar para o Partido Socialista. Desde 1975 que Henrique Neto estava afastado da militância política, embora se mantivesse uma figura de referência na Marinha Grande – de esquerda.

Quando Jorge Sampaio o convidou para aderir ao PS, Henrique Neto disse “está bem”. “Não havia razão nenhuma para não o apoiar, gostava dele. Cheguei a vir várias vezes a Lisboa, ao Florida, onde eles [Sampaio e os amigos próximos, a maioria ex-MES] iam almoçar. Participei disso, tinha uma relação com ele. Estive parado sem fazer grande coisa, a não ser uma ou outra reunião, até que António Guterres me pediu se podia ser porta-voz para a indústria. Eu disse-lhe que sim.”

Com Guterres na oposição, Henrique Neto chega à primeira linha da política, com um sólido currículo de empresário de sucesso – e de esquerda, num lugar operário e com uma implantação forte do PCP. Com a vitória do PS nas legislativas de 1995 e a ascensão de Guterres ao poder, Henrique Neto torna-se deputado. “Ficou sempre a ideia de que eu queria ser ministro, mas eu, por acaso, tinha feito um acordo com ele [António Guterres] de que nunca seria ministro. Não era só não querer, era não poder, tinha problemas nas empresas.” O facto de Henrique Neto não ter sido ministro sempre foi a justificação encontrada no aparelho socialista para o corte do empresário com António Guterres. “Se eu lhe mostrasse a carta que enviei a Guterres no ano 2000! Já lá vão 15 anos! Eu disse-lhe que nós não nos iríamos aproximar da Europa. Um dos debates que estavam em curso era o ferrovia versus rodovia. Disse a Guterres, e disse-o no parlamento, que o que iria vencer daí a 20 anos era a ferrovia. Por razões energéticas, ambientais… Nós não devíamos fazer o que os outros europeus tinham feito há 30 anos, que fizeram auto-estradas por toda a Europa no pós-guerra. As auto-estradas não são económicas nem para mercadorias nem para pessoas.”

Foi crítico de Guterres, muito crítico de Sócrates, e apoiou a candidatura de António José Seguro à liderança do PS em 2011. Aliás, já tinha defendido que Seguro deveria substituir Sócrates antes de o governo cair e ser candidato às eleições seguintes. Evidentemente, também apoiou Seguro nas recentes eleições internas no PS. Escreveu na altura que Seguro é “uma pessoa séria, devotada a reformar a política portuguesa, começando de forma exemplar por contrariar o PS dos interesses, da corrupção e do carreirismo em direcção a um PS que possa ser capaz de governar Portugal com equilíbrio, transparência e honradez”. O que para Henrique Neto é “aquilo que não tem acontecido até agora”.

Na entrevista que deu ao i no fim de Janeiro admitiu que Seguro teve dificuldades em lidar com o passado socrático. “O anterior secretário-geral do PS, António José Seguro, não lidou bem e eu disse-lhe isso algumas vezes. Não era preciso ser mago nem vidente para perceber que o PS, depois de ter perdido as últimas eleições, ia ter um problema. Era o problema da herança de José Sócrates. Sempre achei que o Partido Socialista tinha de – não digo condenar na praça pública o engenheiro Sócrates –, mas tinha pelo menos de se afastar das políticas e dizer o que tinha corrido menos bem. Não foi feito. E António José Seguro foi vítima disso. Não era possível apaziguar o grupo de apoiantes de José Sócrates, eram quase religiosos. Era preciso isolá-los e explicar porquê – Seguro não o fez e foi vítima disso.” Para Henrique Neto, “António Costa tem tido uma atitude talvez mais pragmática, mas também não resolve. Tenta gerir a situação. Ela já era difícil de gerir em situações normais, mas, com José Sócrates na prisão, o PS vai ter de lidar com isso tudo este ano em que há eleições”.

O homem que quando Sócrates foi preso observou que “há anos que esperava que isso acontecesse” acredita que a prisão do ex-primeiro-ministro pode influenciar o resultado eleitoral do PS. Henrique Neto estava à espera que Sócrates fosse preso porque “os indícios eram mais que muitos”, como disse em Novembro em declarações ao i, lamentando que os socialistas “fechem os olhos” e tenham uma “reacção irracional” ao caso Sócrates. “As reacções de alguns socialistas são irracionais. Há muitos que não querem conhecer o que se passou. Fecham os olhos porque estão moral e eticamente metidos nestas desgraças”, afirmou ao i.

Em Janeiro Henrique Neto manifestava-se convencido de que António Costa vai ganhar as próximas eleições, mas admitia que “o perigo para Costa vem de dois lados: do próprio Sócrates, que vai continuar a querer transformar aquilo num caso político, que não é. António Costa tem toda a razão em dizer que é um caso de justiça. O outro perigo é que a sociedade portuguesa está muito cansada do modelo em que temos vivido. Há tendência para surgirem novos grupos, novos partidos. A abstenção é muito elevada. Tudo isso são perigos para uma maioria clara e mesmo para uma vitória. Mas eu estou convencido que, dadas todas as circunstâncias, António Costa vai ganhar as eleições. Os portugueses estão tão aflitos do ponto de vista económico que penso que vão acreditar que têm de mudar, para ver se muda alguma coisa. Se muda ou não, é outra matéria. Mas o sentimento geral é que as pessoas querem uma mudança”.

No entanto, Henrique Neto ainda não estava decidido a votar no partido em que milita. À pergunta se votaria PS nas legislativas respondeu: “Provavelmente não, mas ainda não sei. Ainda é muito cedo”.
Num painel do “Expresso”, Henrique Neto já tinha sido apontado para candidato presidencial pelo empresário Pinto de Sousa. Interrogado sobre se estaria disponível para avançar para Belém, Henrique Neto respondeu: “Nunca digo desta água não beberei. Mas é inviável. Para já, não há condições financeiras. Nós dizemos que a democracia é o sistema do common man, mas os partidos estão organizados para não deixar lá entrar novos common men. E os que lá estão já não são common men. E depois, os próprios portugueses... O que faz com que mais de 45% dos portugueses achem que António Vitorino pode ser Presidente? O Guterres ainda posso perceber, foi primeiro-ministro. Agora o Vitorino? É um tipo com piada, realmente... Mas porque é que será bom Presidente da República? Ainda não percebi. Para não falar do Santana Lopes!”

Nenhum dos nomes “presidenciáveis” que têm surgido na comunicação agradava a Henrique Neto: “São pessoas do sistema. Desejo ardentemente que surja um candidato de fora do sistema, que seja credível e tenha condições para ser eleito.” Para cumprir esse “desejo ardente”, o homem fora do sistema acabaria por ser ele próprio.

 

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