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Caixa Negra. Violeta, Justin Bieber e outros desastres. Chamem os GNR

Caixa Negra. Violeta, Justin Bieber e outros desastres. Chamem os GNR

24/03/2015 00:00
Álbum novo, acabado de editar, e a irreverência de sempre. Trinta anos de história de três “homens livres” de volta ao estúdio

Toli César Machado mantém-se no grupo desde que os GNR_nasceram, no Porto, em 1981. No mesmo ano Rui Reininho entrou como vocalista. No ano a seguir, Jorge Romão. São mais de três décadas com uma marca reconhecida por todos. Sem fim à vista.

 

Ainda há surpresas?

Jorge Romão – Claro que sim. Por exemplo, gravarmos as canções próximas das misturas. Fiquei surpreendido. Ainda continua a dar luta, senão deixava de fazer discos.

Rui Reininho – Às vezes é uma surpresa. Anteriormente havia uma fase em que as surpresas eram desagradáveis. Gostava mais das maquetes que da gravação final.

Toli César Machado – Há essa tendência, meter mais isto, ou aquilo.

RR – Isso já fomos aprendendo, não fica melhor por ficar meses e meses no estúdio a incluir coisas.

JR – Este disco até fomos rapando coisas, fomos percebendo.

Mas divertem-se, então …

RR – Cumplicidade. Têm coisas chatas, as gravações, mas correu bem. Gravámos no nosso estúdio…

JR – Não se ligou o complicómetro. O caminho foi para ali…

RR – Para mim é não ter constipações duramente um mês, e pronto, está garantido. Como fazíamos antes, quando se marca para uma data. Nessa altura temos que estar predispostos, temos de pegar na maleta, ir para outros sítios, e às vezes ficar desconfortáveis. No nosso estúdio não. É marcado da noite para o dia e do dia para a noite. O princípio é sempre de prazer e nunca de frete.

JR – Fez-se bem a leitura na pré-produção, dos tempos, da estrutura.

Porque não trabalham com grandes editoras?

TCM – Como o mercado está não faz sentido. Já trabalhámos, mas não compensa. Ficas agarrado a um contrato e a pagar.

JR – As editoras agora negoceiam com os novos artistas, direitos de autor, cachets, concertos… é andar a tocar ao vivo para financiar a editora.

RR – Pode fazer sentido para uma banda que quer arrancar. Para nós não fará muito.

Este álbum chama-se “Caixa Negra”, aliás o título de uma das músicas. Alguma razão?

RR – Foi o nome mais consensual. Teve a ver com o formato de caixa, com o design. Como foi muito controlado por nós, não apareceram sugestões de fora que não estivessem em sintonia connosco. Como dizem os franceses, “what you see is what you get”. Não há aqui grandes manobras.

Este álbum é claramente GNR.

RR – Era para ser Timberlake…

Um álbum com marca GNR, de continuidade?

TCM_– O facto de termos ido só nós os três para estúdio era importante. Um pouco o regresso ao passado.

JR – Os GNR antigos.

RR – Era a ideia que nós tínhamos, não sei se vai passar para fora. Mas a ideia era essa.

Há aqui uma mensagem, uma ideia nas letras, ou nem por isso?

RR – Sim, não, e às vezes. Às vezes há uma tentativa de passar o mantra. Gosto de dizer coisas que fazem sentido para mim, que repetidas várias vezes se tornam verdade. E não é necessariamente uma mentira. Nem me posso queixar muito. Há pessoas que dizem que as letras são abstractas, que não fazem sentido, mas o que eu ouço muitas vezes, ouço na rua, são bocados de músicas. Ao fim destes anos todos passa um tipo por mim e diz “faz-
-me impressão o trabalho…” É engraçado. Faz-me sorrir e para mim chega. Melhor que uma medalha…

Hoje “crise” é palavra quase obrigatória nas conversas, e a forma como todos têm vivido estes últimos anos. Também vos afecta?

RR – Fomos afectados, e continuamos a ser. Não só nós, mas toda a comunidade musical. Há gente a passar muito mal. Não é vergonha nenhuma dizer que nós sobrevivemos.

Mas nesta altura a visão é optimista?

TCM – Nós já tivemos uma crise destas em 83. Tivemos para aí dois concertos num ano. Não é bom para ninguém, mas às vezes é nessas alturas que se consegue fazer uma triagem.

Para terminarmos com a política, são do Porto e moram no Porto. Notou-se alguma diferença na vossa área com Rui Moreira na presidência da câmara?

TCM – Acho que este é o presidente da Câmara de que o Porto merecia.

RR – Mal entrou fomos logo tocar…

TCM_– Não é apenas por isso…

RR ­– Mas é um sintoma. Não são pessoas ressentidas, mesquinhas…

JR – A devolução do Rivoli à cidade é sintomática.

TCM – O Rivoli só tinha o La Feria…

Se pudessem faziam discos, concertos ou as duas coisas?

TCM – Fazia as duas coisas, mas gosto mais de tocar ao vivo. Mas é importante fazer os discos, até para se fazer os concertos.

RR – Tocar ao vivo não é fácil porque há muitos obstáculos. As pessoas pedem solidariedade umas às outras nos seus empregos, mas o movimento de concertos não é nada solidário com os portugueses.

Porque diz isso?

RR – Basta ver os cartazes dos festivais e ver em que lugar é que os portugueses estão. E quanto ganham, em que situação é que vão. Não é nada favorável. Não vejo que haja mais de uma ou duas bandas que consigam sobreviver com os mega concertos. As pessoas gastam muito dinheiro, os investidores investem muito no produto estrangeiro… sai muito dinheiro lá para fora. Não é minha intenção estar a ser mesquinho, quase estalinista, e dizer que o dinheiro não devia sair de Portugal, mas vir cá um Justin Bieber e levar 8 milhões de euros é muito dinheiro, não é?

Vocês foram dos poucos grupos a encher estádios…

RR – Hoje parece-me difícil um grupo encher um estádio.

TCM_– Não fomos dos poucos, fomos o único mesmo. Para dizer a verdade…

Em Alvalade e nas Antas...

JR – Na altura fazia sentido, hoje em dia não era possível.

RR – Hoje o que leva a esses espectáculos de massas são fenómenos tipo Violetta.

TCM_– Fomos como a Violetta…

Quando é preciso tomar uma decisão, alguém tem a última palavra nas gravações? Ou a democracia funciona entre vocês?

JR – É um consenso.

RR – Para o bem e para o mal. Quando há desconforto não dizemos pelas costas.

TCM_– O princípio é sentirmo-nos bem.

São amigos ou colegas?

TCM_– Somos amigos.

São um grupo fora do grupo?

TCM_– Isso se calhar não.

RR – Viajamos juntos.

JR – Só vamos à missa juntos.

Tem ideia de como é que as pessoas os vêem? Da percepção que têm de vocês?

RR – Há muitos comentários. Sinto manifestações de simpatia muito espontâneas e outras desagradáveis. Há pessoas com parti pris porque nunca me calei muito, gosto de dizer o que me apetece.

As manifestações desagradáveis usualmente têm uma justificação?

R Têm. As coisas mais estúpidas. Clubísticas, um grupo que nos está a insultar só porque não sou da equipa deles. Não deixo de gostar de ninguém por causa de razões clubísticas. E bairristas. O bairrismo tem um toque que acho fantástico, mas tem coisas estúpidas. A xenofobia é um bairrismo levado ao extremo. Há pessoas a quem a liberdade perturba. Somos homens livres na forma de vivermos e actuarmos e algumas pessoas são invejosas e querem impor a sua maneira de pensar.

JR – Comigo não. Pouco saio de casa.

Se pudessem escolher os vossos locais preferidos para tocar, locais ou festivais, quais seriam?

RR – Há boas surpresas no interior do país.

TCM_– Gosto de tocar no Interior. As pessoas dão mais valor do que propriamente no Porto ou em Lisboa. Têm menos acesso. Quando agora tocámos em Vinhais foi um concerto fantástico.

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