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Néons. Há uma luz que nunca se apaga em Lisboa

Néons. Há uma luz que nunca se apaga em Lisboa

13/03/2015 00:00
Como na música dos Smiths, um casal de designers quer salvar os antigos letreiros da cidade. O objectivo é reuni-los num museu

Rita Múrias e Paulo Barata têm um nome de código para os letreiros que desaparecem das fachadas dos edifícios, mas que deixam rasto:“Costumamos chamar-lhes fantasmas”, conta Rita, de 45 anos. Por exemplo, o “dancing” que ainda se consegue ler à porta do antigo Cabaret Maxime. Do letreiro propriamente dito, nem sinal. “Andamos à procura dele”, continua Paulo, de 46 anos. “Sabemos que o letreiro do antigo Cinema Odéon também anda por aí, mas não sabemos quem é o dono.”

Quem por acaso vir estas luzes, é favor contactar o casal de designers que já foi apelidado de “caça-letreiros” e até gosta do nome. Ou quaisquer outras luzes de letreiros dignas de serem guardadas numa cave nos Anjos, onde brilham letras de várias décadas – até mesmo da altura do Estado Novo.

Por exemplo, o da Sapataria Elite. Estamos na tal cave dos Anjos e o letreiro apagado da sapataria na Rua Prior do Crato é o que dá menos nas vistas. Curiosamente, foi por culpa dele que Rita iniciou a saga da busca de néons antigos pela cidade, no ano passado.

“Andava a namorar este letreiro há que tempos e um dia, quando passei na loja, já não estava lá”, conta. Falou com o dono e foram precisas “três ou quatro semanas” de conversa para que os deixassem ficar com as letras. A mesma coisa se tem passado desde Maio do ano passado com oculistas, empresas de lanifícios, cervejarias, lojas de automóveis e até estabelecimentos de campismo e de venda de toldos.

“O que acontece muitas vezes é que, quando as lojas fecham ou são remodeladas, os letreiros vão para o lixo”, explica Paulo. Noutro dos cenários são vendidos a donos de lojas vintage que dividem as letras para as tornarem a vender e terem mais lucro. “E custam uma fortuna”, diz Rita. “Cheguei a ver uma só letra numa loja, muito bonita, dos anos 70, por 300 euros. O problema é que, quando deixarem de estar na moda, vão para o lixo.”

Salvar a memória gráfica da cidade é o que o casal de designers, fascinado por letras e tipos de letra, pretende. Tudo a custo zero – ou, pelo menos, sem comprar os letreiros aos donos das lojas. “É um pacto que fazemos com os donos, que não vamos fazer negócio com os letreiros, mas que vamos preservar a memória da loja”, explicam.

Aliás, têm entrevistado muita gente para saber as histórias que cada letreiro esconde. Como Alice, dona de uma empresa de lãs, identificada por um néon onde se lê “A. Neto”. “Como, na placa, o nome aparecia com um A., pensavam que era um homem e as cartas vinham todas endereçadas a António ou Alberto.”

Rita e Paulo já tiveram várias reuniões com a câmara de Lisboa e tudo aponta para que, em 2016, os letreiros que conseguirem até à data sejam reunidos numa exposição no MUDE – Museu do Design e da Moda. A longo prazo, o objectivo é criar um Museu do Néon em Lisboa, semelhante aos que existem em Berlim e Varsóvia, onde também haverá uma “parte teórica e uma catalogação das técnicas das várias letras”.

Até lá, é um “work in progress”. Um hobby ideal para quem gosta de caminhar largas horas por Lisboa, de cabeça no ar, à procura de letreiros antigos e tenta ficar com eles antes da concorrência dos caça-letreiros das lojas de decoração.

“Por agora temos de ser nós a contactar as pessoas e até vamos começar a deixar panfletos do projecto para os donos das lojas não deitarem os letreiros fora e saberem que estamos aqui”, adianta Paulo.
O mais difícil tem sido precisamente chegar à fala com os donos das lojas ou dos prédios. Para o letreiro do “Auto--Novos”, por exemplo, demoraram três ou quatro meses até conseguirem licença para o retirarem. Depois há outras barreiras. Como as linguísticas. “Já cheguei a explicar o projecto aos gritos, no meio de umas obras, a chineses no antigo Algés Shopping Center”, conta Rita.

Agora, as letras do antigo centro comercial repousam ao lado de outras na cave dedicada ao néon, à espera que se reúnam as condições para darem umas luzes sobre o seu passado na cidade.

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