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Groundlink. "The Office" em versão râguebi

Groundlink. "The Office" em versão râguebi

20/09/2013 00:00
Sete jogadores de topo vão jogar num clube das Caldas da Rainha, do escalão secundário, e trabalhar no escritório de uma empresa aeronáutica

"As empresas devem retribuir parte do seu lucro à sociedade. Entendo que é mais útil dar algo no desporto do que plantar árvores. Portugal é o país europeu onde a juventude faz menos desporto e existem mais doenças cardiovasculares. Se calhar, está relacionado." As palavras são de Francisco Bernardino, CEO da Groundlink e mentor de um projecto inédito em Portugal. Decidiu, através da empresa que criou em 2003, apostar no râguebi e escolheu o Caldas Rugby Clube, da I Divisão (escalão secundário da modalidade), para uma parceria. A empresa do sector aeronáutico, mais conhecida pelo recrutamento das assistentes de bordo da Ryanair, contrata jogadores para trabalhar no seu escritório em Lisboa e alinhar no clube da região Oeste. Mas aquilo que começou como uma diversão para o ex-jogador de râguebi está a tornar-se algo cada vez mais sério. Bernardino entusiasmou-se e, depois da chegada de Nuno Taful no início do ano - contratado ao campeão nacional Direito -, já assegurou mais seis atletas da Divisão de Honra provenientes do Belenenses e do Técnico.

Assim, com o início da pré-temporada, estes sete elementos são actualmente companheiros de equipa... e colegas de trabalho. O i passou 24 horas no estágio do Caldas, em Sangalhos (de 11 a 14 deste mês), para conhecer as ligações que se desenvolveram no projecto. No plantel convivem agora jogadores consagrados com jovens da formação. O nome que porventura mais chama a atenção é David Mateus, um dos "Lobos" do Mundial 2007 e ainda um habitué na selecção nacional. "Tenho 33 anos, não acho que seja a estrela da equipa. Nunca treinei num clube assim. Tem jogadores com menos experiência, mas que me surpreenderam pela positiva. Fico contente de estar aqui", explica o ponta que, de segunda a sexta, é supervisor de tráfego.

O ambiente no estágio é descontraído e os mais novos parecem encarar com naturalidade o facto de terem alguns dos seus ídolos no râguebi ali ao lado. A Divisão de Honra tinha apenas oito equipas, por isso os mais experientes já se conhecem bem. Além das habituais picardias entre os que jogaram no Técnico ou no Direito, o râguebi já não é o único motivo de pirraça, pois o convívio no escritório abre um mundo de novas brincadeiras e conversas. Às 18h, no fim de um dia de trabalho, as calças são trocadas pelo equipamento de râguebi e os sete colegas fazem o trajecto Lisboa-Caldas-Lisboa três dias por semana para treinar.

muito trabalho Este vai ser um ano de transição, com jogos na I Divisão, onde vão ter pela frente, entre outros, o Benfica e o Sporting. O objectivo do projecto, que pretende ser auto-sustentável, é subir de escalão em três anos. Poucos o dizem abertamente, mas com a qualidade que tem sido injectada nesta equipa é provável que isso suceda antes - além dos reforços, a estrutura integra agora um fisioterapeuta e um nutricionista. Mas para isso é preciso muito trabalho: de campo, não de escritório. Após o jantar, o treinador argentino Patrício Lamboglia avisa os atletas que vão correr às 8 da manhã. A primeira reacção é de espanto, acompanhado de risos, mas quando percebem que o técnico fala a sério, os jogadores acatam a ordem e, no dia seguinte, lá estão eles na porta do hotel, preparados para mais um dia de muito suor.

"O que me atraiu neste projecto é o horário flexível e o facto de poder continuar a praticar râguebi com bons jogadores com quem já tinha jogado ao longo dos anos. E obriga-me a sair da zona de conforto, que é sempre bom para nos testarmos a nós próprios", afirma Frederico Melim, um dos mais irreverentes no estágio; foi internacional nos escalões jovens e jogava no Belenenses. E como é aturar os colegas oito horas no escritório e depois treinar com eles? "Há uns que no trabalho são insuportáveis, como o caso do Bernardo Gonçalves ["é porque sou chefe dele", responde o Bernardo], mas se calhar até estamos mais unidos pelo facto de jogarmos juntos. O David não o vejo muito, está sempre na selecção, com as lesões dele, mas é um gajo porreiro", diz em tom de brincadeira o 3ª linha, que está integrado no departamento financeiro da Groundlink.

Da selecção ao telemarketing Como em muitos desportos (à excepção do futebol), mesmo no principal escalão os atletas são amadores. Por vezes têm de decidir entre trabalhar ou jogar, e muitos ficam pelo caminho. "Este projecto ajudou-me imenso. Vivi um pouco à sombra do que o râguebi foi depois do Mundial, pois houve muito dinheiro. Acabei o curso e não tentei arranjar trabalho. Se calhar fiz mal, mas foram bons tempos em que só jogava. Agora estava difícil de encontrar trabalho na minha área, o design gráfico, e andei a penar a trabalhar em sítios de que não gostava, em telemarketing", confessa David Mateus. Já Bernardo D"Eça, antigo capitão do Técnico, estava desempregado desde Dezembro. "Foi uma das razões que me levou a aceitar o trabalho [handling e logística]. Com o projecto desportivo, concilio o útil ao agradável. O râguebi é um dos poucos desportos colectivos em que há contacto físico à séria, todos têm um espírito de equipa muito bom e, passando isso do campo para o escritório, só traz coisas boas", considera. O outro Bernardo, o Gonçalves, também trabalha no handling e realça o ambiente "muito bom" na empresa: "Quando estamos a trabalhar, já temos uma certa confiança. Jogámos juntos, há um certo espírito de camaradagem e isso ajuda a desbloquear inúmeras situações."

Com um orçamento de 80 mil euros para esta época e um patrocínio de 15 mil para a formação, as atenções do râguebi vão-se virar cada vez mais para as Caldas da Rainha. Taful, antigo internacional e três vezes campeão nacional, foi dos primeiros a abraçar o projecto. É jogador e director desportivo; todos o respeitam e os mais velhos dizem ter aceitado o desafio de jogar num clube quase desconhecido por sua causa. Se ao início foi difícil convencê-los a embarcar na aventura, nas últimas semanas tudo mudou. "Hoje em dia há mais jogadores a procurarem-nos do que nós à procura deles. Tentamos apoiar muito quem está no desemprego, mais do que ir buscar alguém com a vida estável. O céu é o limite, somos humildes mas também ambiciosos. Daqui a quatro anos queremos estar estáveis na Divisão de Honra", assegura. A Groundlink pode trabalhar com aviões, mas Francisco Bernardino quer, acima de tudo, manter os pés dos seus jogadores/trabalhadores bem assentes na terra para que o projecto possa ter sucesso a longo prazo.

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