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Keegan Kuhn. "Em média são precisos 2500 litros de água para produzir um hambúrguer"

Keegan Kuhn. "Em média são precisos 2500 litros de água para produzir um hambúrguer"

10/01/2015 00:00
Apenas um dos dados que um dos realizadores de "Cowspiracy" nos apresenta. O documentário pode ser visto hoje, às 11h, no @cinema, em Lisboa

O ti Joaquim, aquele velhote que tinha um terreno em frente à casa de família na terra da mãe, provavelmente nunca verá "Cowspiracy". O que desconhece é que a criação de porcos que tem precisa de um hectare e meio para se alimentar correctamente, e que essa quantidade de terra que percorre daria para produzir 5400 quilos de vegetais, capaz de alimentar uma parte do bilião de pessoas que vivem com fome no mundo. Não se deixe confundir pela aritmética e por padrões de medição. "Cowspiracy" é um documentário que está na boca do mundo por ter trazido à baila questões pouco mediáticas. O que os dois co-realizadores parecem provar - e atenção porque "este filme é baseado em factos, não em opiniões", diz-nos - é que a pecuária é a grande responsável pela desflorestação à escala global, pela emissão de gases do efeito de estufa, pelo aquecimento global, em suma, pelo fim do planeta como o conhecemos. Apesar de toda a controvérsia gerada, Keegan Kuhn, um dos obreiros de "Cowspiracy", respondeu-nos sem rodeios às perguntas que enviámos por email. Juntamente com Kip Andersen - o outro realizador - vão estar em videoconferência no @cinema, no Saldanha Residence, para debater o filme que hoje às 11h00 vai poder ser visto.

Como se deu o início do projecto?

Tinha acabado de filmar o meu primeiro documentário e ouvi que o Kip Andersen se estava a preparar para criar um filme sobre pecuária, isso soou-me muito bem. Decidimos unir esforços e começámos a trabalhar arduamente no filme, em menos de um ano estava concluído

Recorda-se do episódio que fez com que se apercebesse desta realidade que encontraram em "Cowspiracy"?

Apesar de sermos uma dupla, os episódios que nos marcaram não foram os mesmos. A visão do Kip mudou quando viu o filme "Uma Verdade Inconveniente", de Al Gore. No meu caso foi diferente, foi uma banda de hardcore punk chamada Earth Crisis que me despertou este sentimento e me fez abrir os olhos para a destruição que estamos a causar ao planeta.

Disse em tempos que achava estar melhor informado nesta temática até ter começado a filmar. Isso embaraçou-o?

Mais do que embaraço, senti medo. Sabia que a situação ambiental que estávamos a atravessar não era boa, mas não fazia ideia quão terrível e real era. A informação sobre quão prejudicial a pecuária é para o mundo tem sido escondida e era preciso escavar para a encontrar, até agora.

E que mais encontrou que desconhecia?

Sabia que a criação de animais para alimentação tinha um impacto nas alterações climatéricas, mas depararmo-nos com um estudo que sugeria que a pecuária pode ser responsável pela emissão de 51% de todos os gases do efeito estufa era algo que não julgava possível. Também desconhecia a destruição que a criação de animais à solta, sem cativeiro, podia causar, tal como a alimentação exclusiva de ervas pela parte dos animais. Há estudos que nos demonstram que criar vacas nestas condições podem causar mais gases do efeito estufa do que grande parte das herdades industriais.

Mas em que medida estou a errar se tiver porcos na minha quinta que mato para alimentar a minha família?

O maior problema com a criação de animais é a quantidade de terra necessária e o rácio de conversão alimentar. Um porco precisa de um hectare e meio de terra para se alimentar correctamente, além de comida adicional que tem de lhe ser dada regularmente. Ou mais de 610 quilogramas de alimento para criar 113 quilogramas de carne. Em alternativa, podes criar 5400 quilogramas de vegetais nessa mesma quantidade de terra. Com quase um bilião de pessoas que passam fome no mundo, diariamente, é um incrível desperdício alimentar animais de quinta quando podíamos estar a alimentar humanos.

Suponhamos que tenho um hambúrguer à minha frente. Ao comê-lo que mal estou a fazer ao mundo?

Os números variam de lugar para lugar, mas, em média, são precisos 2500 litros de água para produzir um hambúrguer. Criar gado é a principal causa para a destruição da floresta, 91% da desflorestação e degradação da Amazónia brasileira deve-se à limpeza das floresta para criar gado ou as culturas de alimentos com que este se alimenta. Uma grande parte desses alimentos é levada para a Europa para alimentar animais. Portanto ao comer esse hambúrguer estás a contribuir para a desflorestação em todo o mundo.

Não são raros os casos de pessoas que abdicaram da carne depois de verem "Cowspiracy". Quando começaram a produzir o filme pensaram nessa possibilidade?

É triste que as pessoas não consigam ter decisões informadas sobre a comida que ingerem. É um orgulho perceber que existe quem tome medidas positivas na sua vida depois de ter visto o filme. No entanto, não é esse o seu papel, "Cowspiracy" apenas oferece informação que não estava disponível até aqui. Depois disso, cada pessoa decide o que achar melhor.

Acredita que isso possa acontecer?

Pode parecer difícil de acreditar, mas a verdade é que a população mundial está perto dos 9 biliões de pessoas, os hábitos mudam-se e nós já mostrámos que somos capazes de mudar. Durante grande parte da existência humana houve escravatura, porém, a certa altura decidimos que já era tempo de dizer não. E nessa época, os donos dos escravos também consideram impossível que isso acontecesse.

Existe alguma possibilidade de se ser carnívoro sem destruir o mundo?

A única maneira que os humanos têm para comer carne e não prejudicar o mundo é levar um estilo de vida tradicional ao jeito caçadores-recolectores, mas o planeta só consegue suster, no máximo, um bilião de caçadores-recolectores porque é necessária mais terra do que para a pecuária.

Grande parte do documentário baseia-se em entrevistas que fizeram a trabalhadores de ONG ambientais. Porque optaram por construí-lo desta forma?

Queríamos perceber se, dada a oportunidade, as maiores organizações ambientais levantariam a questão que faz da pecuária a maior causa de degradação do planeta, mas, infelizmente nenhuma delas o fez. Grande parte das organizações que surgem no filme desenvolvem um trabalho interessante mas precisam de ser responsabilizadas por não informarem os seus seguidores do que anda, realmente, a matar este planeta.

Encontrou, nessas organizações, uma espécie de silêncio de condenação?

As grandes organizações ambientais não conseguem resolver adequadamente os problemas da pecuária, bem como alguns outros assuntos ambientais. Então fazem-nos acreditar que tudo o que temos que fazer para salvar o planeta é conduzir menos, poupar água quando lavamos os dentes, desligar as luzes quando saímos do quarto e reciclar mais. Todas essas coisas são importantes, mas seria como limpar as janelas de uma casa em chamas e que espera que o fogo se apague. Nenhuma outra indústria tem o impacto ambiental combinado que a criação de animais para alimentação.

Sentiu medo nas palavras das pessoas que entrevistaram?

Algum, sobretudo alguma surpresa por levantarmos aquelas questões. Estou preocupado com a minha segurança e liberdade por ter feito este filme, mas não podemos permitir que o medo nos impeça de dizer o que tem que ser dito.

Sabe se ocorrem algumas mudanças na indústria desde que o filme estreou?

Mal a indústria soube do filme fez sair uma série de artigos a atacá-lo, mas não se fez nenhuma grande mudança, nem me parece que vá acontecer. Penso que a única e verdadeira alteração só vai suceder quando as pessoas pararem de cooperar com esta indústria.

Qual foi o acontecimento mais estranho que decorreu enquanto gravavam "Cowspiracy"?

Sobretudo perceber que as organizações ambientais não estavam alerta sobre o problema que levantamos. É o seu trabalho informar o mundo, foi bizarro sermos nós a informá-los.

Se tivesse que fazer um filme sobre as vantagens da carne ou de algo do género, seria capaz?

Com os anos de pesquisa e estudo que tenho do assunto diria que não encontrei nenhum benefício em comer carne. Todas as razões que as pessoas apontam falham por não se olhar para todo o quadro. Podem alegar "esta terra pode apenas apoiar animais, não a agricultura", mas esquecem-se que esses animais precisam de beber água e que essa água pode ser utilizada para produzir alimentos. Podem dizer "caçar ajuda a controlar as populações", mas esquecem-se que se pararem de matar predadores o ecossistema reequilibra-se por conta própria. Poderia ficar aqui horas a fazer frases deste género.

Desde quando é vegan?

Sou vegan há 18 anos. Algumas pessoas tentaram utilizar isso contra o documentário mas a minha visão sobre comer animais é irrelevante. Este filme é baseado em factos, não em opiniões.

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