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António Garcia. Desenho deum quotidiano aqui tão perto

António Garcia. Desenho deum quotidiano aqui tão perto

29/05/2014 00:00
Do mobiliário às capas de livros, dos maços de tabaco ao projecto de fábricas ou hotéis. 89 anos de vida e 75 dos quais dedicados ao ofício do design, um trajecto digno das insígnias de Doutor Honoris Causa, atribuídas hoje na Faculdade de Belas Artes pel

Começou a puxar do cigarro muito antes de deixar o seu cunho no ritual do fumo. Sosseguem os antitabagistas, que o vício que aqui nos traz é o do desenho, e esse está longe de provocar dano em pulmões. Maços como os do SG (1964) e do Ritz (1970) transportam a assinatura visual de António Garcia, aquele a quem chamam "o designer global", um nome tão discreto quanto incontornável na evocação do quotidiano do século XX português, agora com direito a justa homenagem.

Sob proposta da Faculdade de Belas Artes, a Universidade de Lisboa atribui hoje, numa cerimónia que arranca às 10h00, as insígnias de Doutor Honoris Causa a António Garcia, agraciando pela primeira vez o design com esta distinção, sendo também uma estreia para a faculdade a recepção de uma comemoração desta natureza, que apela a memórias gráficas como as que se espalham pelas gavetas de casa do autor.

Aos 89 anos, continua a puxar da ideia e a vertê-la para o papel com o auxílio da mão. Que o digam os posters acabados de fazer onde reinventa a palavra Portugal, qual postal turístico de um país onde a sua rotina sempre foi encontrar soluções alternativas e funcionais para derrotar dilemas, muitas vezes em contra-relógio. "Este é um trabalho de resolver problemas", sintetiza, explorando o assento de um dos seus projectos para a fotografia. Em bom tempo um dos filhos trouxe para casa a histórica cadeira "Osaka", que até há pouco não morava em sua casa. Foi concebida para o pavilhão português na Expo que teve lugar naquela cidade nipónica em 1970 e, mais uma vez, a resposta ao desafio surgiu com velocidade redobrada. O encargo chegava em vésperas da inauguração do evento e a corrida contra o tempo dificultava o envio das peças por barco. A criação "de tipo Bauhaus", de material nobre, leve e desmontável, obedeceu assim ao transporte de emergência: o avião, onde embarcou a caixa com uma dúzia de exemplares para japonês ver, e português se orgulhar. Em território nacional, a "Osaka", bem como as mesas "Cubox4", outro dos seus produtos, foram apresentadas ao público em 1971, no âmbito da primeira Exposição de Design Português, realizada na FIL.

Quinze anos antes, já a sua cadeira "Gazela" corria, dentro do espírito dos anos 50, quando os designers lusos imprimiram identidade e investiram na produção em série das cadeiras, como "a excepcional cadeira em madeira de carvalho, (...) modelo inovador de espaldar losangular de sugestão italiana preenchido por singulares tirantes filiformes (...)", como descreveu Rui Afonso Santos. Nem só de cúmplices do descanso se faz o acervo de António Garcia. Candeeiros, mesas e sofás completam o sector da decoração, na sua maioria na qualidade de protótipos e em série de pouca expressão, um dos lamentos do criador.

"Tenho pena da indústria nunca me ter batido à porta", desabafa o designer, que agora revisita cerca de 75 dedicados ao "ofício", palavra que melhor se ajusta a uma trajectória diversificada, encetada a milhas da adopção do estrangeirismo "designer". "O designer era o que desenhava, mas na verdade não há um correspondente directo em português. Talvez lhe possamos chamar "o risco", como se estivéssemos na "sala do risco"."

Um trajecto assinalado pela resolução de problemas, como já sabemos, e a diferentes escalas, a novidade introduzida neste parágrafo. Não estranhe portanto cruzar-se com um selo da sua autoria ou com a maqueta da fábrica da Canada Dry, edificada em 1956 em Vila Franca de Xira, já desactivada, mas à época senhora dos louros da terceira marca internacional americana com maior cota de mercado, logo a seguir às gigantes Coca-Cola e à Pepsi. No total, os seus produtos serviram cerca de uma centena de empresas e instituições nacionais, nas áreas do Design de Comunicação, Design de Equipamento, Design de Interiores e Design de Arquitectura, muitos deles ainda em contacto com o público. Projectou edifícios, moradias, um complexo turístico e planeou os interiores de hotéis, salas de administração e casas particulares. Em 2010, o Museu de Design e de Moda (Mude), em Lisboa, guardião do espólio do designer, recebeu a retrospectiva "António Garcia - designer - Zoom in/Zoom out". Nem de propósito, António, que ensaiou inúmeras empreitadas no capítulo da arquitectura - "e não sendo arquitecto, o trabalho era reconhecido" - deixou também a sua impressão digital em espaços como os bancos Totta (1971) e Banco Nacional Ultramarino (1990).

D"O MOSQUITO AO ATELIÊ. Nascido em Lisboa a 3 de Fevereiro de 1925, perde-se no tempo a raiz involuntária da carreira. "Fazia aqueles brinquedos para brincar na rua, como os outros miúdos", conta António, que apesar de partilhar o hábito com outros rapazes da sua idade, teria talvez mais queda para afinar os motivos de entretenimento que os pares. "Sempre tive jeito para coisas manuais". A mãe, "esperta", cedo descortinou a vocação do filho, encaminhando-o para a vertente artística e apoiando os estudos na António Arroio, no final da década de 40. Aos 13 anos já desenhava as separatas com construções de armar para o jornal "O Mosquito", e três anos mais tarde tornava-se desenhador assalariado do Ministério da Economia, empenhando-se em construções rurais para a campanha de produção agrícola e dos silos. Por esta época, firma com António Sena da Silva uma parceria de trabalho e amizade. No começo da década de 50 leva a melhor no concurso promovido pela Editora Ulisseia com o desenho das capas dos livros "O Adeus às Armas", de Hemingway e "A Casa de Jalna", de Mazo de la Roche. Encetava-se assim uma colaboração com a chancela composta por cerca de 60 títulos da colecção reservada aos autores modernos.

Na viragem para os anos 60, instala o seu ateliê num quarto andar da Avenida da Liberdade, e muito, muito mais história haveria para ler. Um caso que se converteu em objecto de culto, e de estudo. "ZEITGEIST - o espírito do tempo, António Garcia, Depois da obra, o futuro, Design e Arquitectura, 1950-1970", é o título da tese de mestrado que Sofia da Costa Pessoa desenvolveu sobre o designer. A consultar assim que possível, de preferência confortavelmente instalado numa cadeira com rubrica de autor.

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