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Tomislav Ivic. Umas férias de 15 dias no Benfica

Tomislav Ivic. Umas férias de 15 dias no Benfica

31/07/2014 00:00
Há precisamente 30 anos, o treinador jugoslavo sai da Luz com o contrato por assinar:quer ser pago em dólares e o presidente Fernando Martins só lhe dá escudos

Tomislav Ivic diz-nos muito. A nós, pessoas do futebol. É campeão nacional em cinco países: Jugoslávia (Hajduk Split-74, 75, 79), na Holanda (Ajax-77), na Bélgica (Anderlecht-81), na Grécia (Panathinaikos-86) e em Portugal (FC Porto-88). É um mister com M maiúsculo.

Nessa época do FC Porto, a da ressaca do inédito título de campeão europeu com Artur Jorge e Paulo Futre, ambos de malas aviadas para o estrangeiro (Matra Racing e Atlético Madrid, respectivamente), Ivic faz história com H maiúsculo. Mais pontos (66), mais vitórias (29), mais golos marcados (88), menos golos sofridos (15), menos empates (8) e menos derrotas (1).

É a primeira época com 20 equipas na 1.a divisão, o FC Porto de Ivic excede-se com E maiúsculo: ganha sempre em casa (19 vitórias, tantas quantas as do Benfica em toda a competição) e é campeão com inacreditáveis 15 pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica.

Além disso, Ivic levanta a Taça Intercontinental (2-1 ao Peñarol), a Supertaça Europeia (duplo 1-0 ao Ajax de Cruijff) e a Taça de Portugal (1-0 ao Vitória de Guimarães). Só lhe falta a revalidação do título europeu, impedida na segunda eliminatória, pelo Real Madrid: 1-2 em Valencia (campo neutro) e 1-2 nas Antas.

A estas duas derrotas, acrescentem-lhe só mais uma (2-1 em Alvalade, com o Sporting, cortesia de Paulinho Cascavel e Mário Jorge). Em 54 jogos, é obra. No plano individual, de enaltecer a pontaria de cinco jogadores, a ultrapassar a fasquia dos dez golos: Gomes-22, Rui Barros-19, Semedo-17, Sousa-16 e Madjer-15. Este Porto é mesmo uma máquina com M maiúsculo: Ivic aproveita a deixa de Artur Jorge e dá nisto.

Isto é Ivic em 87-88, vitorioso e conquistador, bem diferente do Ivic de 1984 no Benfica. Como assim? Há precisamente 30 anos, o treinador jugoslavo bate com a porta na Luz por desacordo financeiro com o presidente Fernando Martins. Um quer pagar em escudos, o outro quer receber em dólares. Discussão aqui, discussão ali e lá se vai o sucessor de Eriksson.

Bicampeão em título (82-83 e 83-84), o Benfica encontra substitutos para Eriksson (Roma), Strömberg (Atalanta), Chalana (Bordéus) e Filipovic (Boavista) em Ivic (Galatasaray), Vando (Braga), Nunes (V. Setúbal) e Jorge Silva (Boavista).

O jugoslavo aterra em Lisboa a 17 de Julho com a promessa de manter o registo de Eriksson. "Desde que me dêem tempo", diz. Tempo, ora aí está um problema com P maiúsculo. Quinze dias depois, Ivic sai porta fora sem remissão nem contrato assinado - e substituído logo por Toni, entretanto recolocado a adjunto, agora do húngaro Pal Csernai, vencedor da Taça de Portugal 84-85.

Naquelas duas semanas, Ivic apresenta-se aos jogadores no balneário da Luz a 18 de Junho, dirige o primeiro treino no dia 19, participa na apresentação dos reforços a 20 (além dos três acima citados, há ainda Nivaldo e Silvino-V. Guimarães, Tozé-Torreense, Pita-Vizela e Neno-Barreirense) e é figura de proa no negócio da Shell nas camisolas do Benfica, a troco de 45 mil contos por duas épocas, na tarde de 21.

Daí para a frente, trabalha com os jogadores para o primeiro particular vs. Bordéus, no âmbito da transferência de Chalana. É domingo, dia 29, e Chalana não vem a Lisboa. Nem Tigana. O Benfica ganha 2-1, golos de Shéu (30 segundos), Audrain (62") e Jorge Silva (77").

Menos de 72 horas depois, há precisamente 30 anos, Ivic sai. Assinaria pelo Avellino, em dólares, e só aceitaria o escudo como forma de pagamento no Benfica em 1992, oito anos depois, já na era Jorge de Brito. Mas nem aí as coisas lhe correm de feição. Prefere Shéu a Toni como adjunto, entra em conflito com os russos Yuran, Kulkov mais Mostovoi e pede ao presidente para reduzir o campo da Luz em largura para exercer melhor o pressing sobre os adversários. Só faz 12 jogos (7-3-2) até ser substituído em Outubro por Toni (ironia das ironias com I maiúsculo).

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