“O tipo de sociedade que temos construído presta-se ao aumento da criminalidade”

“O tipo de sociedade que temos construído presta-se ao aumento da criminalidade”


Através da trilogia ‘Psicopatas Portugueses’, a psicóloga clínica e criminóloga faz-nos mergulhar na cabeça daqueles que tiraram vidas das formas mais hediondas possíveis. Joana Amaral Dias desvenda um pouco desse universo.


O que é realmente um psicopata? Que características possui e como se pode detetá-las?
Detetá-las nem sempre é possível, comecemos por aí… Mesmo para profissionais da saúde mental torna-se bastante ingrato porque os psicopatas são muito ardilosos e alguns são extremamente sofisticados, conseguindo driblar vários tipos de avaliação psicológica. Só mesmo num contexto de uma peritagem com baterias de testes complexas, que incluem escalas de mentiras, testes projetivos, é que muitas vezes conseguimos fazer um diagnóstico correto. Ou seja, apenas o olhar clínico, embora seja uma ferramenta muito importante, nem sempre consegue fazer o devido despiste. Claro que um olhar clínico de alguém mais experimentado, com maior experiência a trabalhar com psicopatias, é muito valoroso, mas às vezes só mesmo com instrumentos técnicos já mais específicos.

E relativamente às características dos psicopatas?
Existem vários tipos de psicopatas. Naturalmente no discurso comum tendemos a usar esse “chapéu de abas largas”, mas existem muitos tipos de psicopatias. Nem todos os psicopatas são assassinos e nem todos os assassinos são psicopatas. Mas eu diria que o maior denominador comum num psicopata é o facto de ele ter um nível baixíssimo ou mesmo nulo de empatia emocional. Portanto, é alguém que não tem qualquer sofrimento, qualquer solidariedade, não tem qualquer compaixão perante o outro. Mas, muitas vezes, e nos casos dos psicopatas mais sofisticados, têm uma elevadíssima empatia cognitiva. Ou seja, conseguem ler o outro, sobretudo as presas, as suas vítimas, com um grande grau de cuidado, com muito rigor. E percebem rapidamente o que é que o seu interlocutor quer, o que é que deseja, os seus sonhos, os seus medos. Muitas vezes, facilmente consegue colocar as suas vítimas a revelarem segredos ou aspetos mais sensíveis da sua vida, que depois, naturalmente, são usados para a grande arma do psicopata, que é manipulação, instrumentalização do outro, manietação. Portanto, são pessoas muito perigosas, são verdadeiros predadores, embora, lá está, nem todos sejam assassinos. São todos predatórios e com uma prevalência muito elevada na sociedade, porque, na população em geral, muitas vezes as pessoas pensam que os psicopatas são casos raros, mas não são. São os casos mais comuns em termos de perturbação mental, logo a seguir à depressão. E qualquer ser humano passa pelo menos por um estado depressivo na sua vida, não é? Portanto, a depressão é banalíssima. A psicopatia tem uma prevalência na população em geral de 1 em 10. Quando nós subimos a círculos de poder, seja o poder académico ou financeiro, essa prevalência aumenta muito. Chegamos a ter de 1 em 5 ou 2 em 10, mas na população em geral ela é muito comum. Portanto, todos nós conhecemos pelo menos um psicopata no nosso anel, no nosso círculo de convivência mais próximo.

E há vários níveis de psicopatia…
Há vários tipos, sim. Eu dividiria assim, grosso modo, em dois grandes géneros. Um que tem um particular prazer e deleite com a violência, e portanto é uma vertente mais sádica. E os outros que, pura e simplesmente, usam a violência se for necessária, digamos. Se ela for precisa. Um psicopata tem sempre uma visão bastante economicista da vida, utilitária. Por isso é que instrumentaliza as outras pessoas. Portanto, se a violência lhe der trabalho, ou se for perigosa, ou incómoda, esse conjunto de psicopatas não usa. Os sádicos já têm deleite. Na vertente mais sádica já lhes é mais prazeroso e então aí farão tudo o que for necessário para poderem exercer a sua violência. Para dar um exemplo que eu acho que é fácil para qualquer leitor entender… O estripador de Lisboa, que terá assassinado, não se sabe exatamente, mas pensa-se que cinco prostitutas, era psicopata da vertente sádica, tinha deleite em mutilá-las, levar troféus como seios e bocados das vaginas para casa. Um psicopata da outra vertente, da mais fria, mata se tiver que ser. Por exemplo, o Pedro Dias, que matou três pessoas em Aguiar da Beira… Mata se for necessário, mas se puder poupar-se a esse incómodo, a esse risco – a violência é sempre um risco –, poupar-se-á.

Isso significa que existem traços diferentes no perfil destes autores de crimes violentos…
É que os crimes violentos também podem ser cometidos por psicóticos. São as pessoas que são perturbadas, que são doentes. Na verdade, em tribunal, aquilo que o juiz quer sempre saber, ao fim e ao cabo, quando lhes é pedido peritagens (e eu faço muitas), é se este é mau ou louco. No fundo, a pergunta que fica sempre é se era psicótico ou psicopata. Se é imputável ou inimputável… Porque um psicótico, alguém que esteja, por exemplo, num delírio esquizofrénico e veja o demónio nos olhos da avó, que se sinta comandado por vozes, é alguém que, de facto, perdeu o contacto com a realidade, não consegue distinguir aquilo que é real da fantasia, e no limite pode ser inimputável. Os psicóticos cometem crimes, muitas vezes, violentos, embora não sejam violentos intrinsecamente. Além disso, qualquer pessoa, no limite, pode assassinar outra. No contexto de violência doméstica, muitas vezes, quem comete os crimes nem é psicótico nem psicopata, tem apenas um quadro de ciúmes grave, alcoolismo, ou por muitas outras razões.

Começou a série ‘Psicopatas Portugueses’ em 2019. De onde é que surgiu a ideia de explorar este universo?
Eu sempre trabalhei na área forense, na área criminal e também como analista televisiva. E, a certa altura, veio-me parar à mão um ou outro livro escrito por jornalistas portugueses sobre casos de crime português… O que eu achei nesses livros é que faltava, efetivamente, a vertente de quem mata. Esses livros tinham uma vertente do acesso à documentação, dos autos de autópsia, tribunal, etc., mas não tinham a parte explicativa do que é que tinha acontecido nessas histórias. O que é que efetivamente tinha levado aquelas pessoas a matar. Se eram psicóticos ou psicopatas, se tinha sido um crime de ocasião, por aí fora… E, portanto, achei que realmente era uma lacuna a colmatar, que o crime real é algo que interessa muito ao público.

Portugal tem a fama de país de brandes costumes. Por aquilo que tem investigado, é uma fama merecida? Justifica-se?
Não. Uma coisa são os rácios dos crimes e as estatísticas, outra coisa é o tipo de crime que é cometido. Os brandes costumes foi, aliás, um slogan do Salazarismo que quis convencer os portugueses que a sua identidade era mansa e branda, mole, do que propriamente a realidade. Basta lembrar que o século XIX português foi um dos séculos mais sangrentos da história europeia. O século XIX português, entre guerras civis e outros desastres, foi particularmente sanguinário. Agora, independentemente do que são as estatísticas do crime, nós temos grandes criminosos que figuram nos anais da criminologia internacional. Temos aqui um criminoso português, que é o João Barbosa, que foi considerado pelo Edgar Hoover, que dirigiu o FBI durante mais de 40 anos, como o maior criminoso que ele alguma vez tinha visto. Portanto, eu considero que certamente o Edgar Hoover sabia do que falava ao fim de tanto tempo à frente do FBI. Ou temos, por exemplo, a Luísa de Jesus, que estima-se que matou mais de 30 e tal bebés com menos de dois anos, e que nós não encontramos nada que se compare (isso no século XVIII) noutros países do mundo. Temos casos, de facto, muito impressionantes, com requintes de malvadez e com aspetos malignos, que dificilmente encontramos igual. E isso, enfim, se calhar também é um retrato do nosso povo e também é um retrato do nosso país.

E dos casos mais recentes que encontrou dos psicopatas portugueses, qual foi o que acha que tem contornos mais fascinantes e horríveis?
Um dos mais fascinantes, desse ponto de vista, é o da bebé Jéssica. Podes varrer toda a criminologia internacional e dificilmente encontras um que seja assim tão bárbaro. Nós estamos a falar de um conjunto de pelo menos três adultos, com a complacência de um quarto adulto, que é a mãe, que durante cinco dias espancou, abusou, torturou uma bebé de três anos, até à morte. Estamos a falar, segundo a autópsia e o relatório que foi feito pelo perito em tribunal, de uma bebé que era pegada pelos pés e arremessavam a sua cabeça contra a parede como se fosse uma raquete. Ela tinha múltiplas lesões, centenas de lesões, sobretudo muito centradas na cabeça. O perito da autópsia disse que parece que tinham jogado à bola com a cabeça da menina, uma coisa absolutamente terrível! Falamos do inferno sobre a terra, de algo completamente diabólico, não se conhece de facto paralelo. Houve pormenores que a comunicação social não revelou, ou não lhes deu grande importância, mas que são altamente reveladores de um nível de sadismo perpetrado em matilha.

‘Psicopatas Portugueses’ é também um trabalho de Psicologia Forense e procura revelar o quanto o assassínio é complexo. Porque é que muita gente se fascina por documentários e programas sobre estas pessoas?
Eu acho normal, porque com a introdução do Estado-nação e com a própria evolução do conceito de democracia, a violência passou a ser monopólio do Estado… Só o Estado pode agredir, só o Estado pode condenar à morte, quando há, evidentemente, esse tipo de sanções previstas nos respetivos quadros legais. Portanto, nós estamos longe da lei de talião: olho por olho, dente por dente. E até há relativamente pouco tempo nas sociedades, ao fim e ao cabo até à revolução industrial, a violência era permitida para resolver os problemas, os duelos de esgrima, os homens que eram traídos, dirimir conflitos de propriedade, etc. Portanto, quando essa violência passa a ser monopólio do Estado, é natural que a violência que é perpetrada pelo cidadão comum e não pelo Estado, à civil, digamos assim, passe a ser a raridade, a excentricidade, e daí cativar, captar a atenção da população. Eu acho isso normal, sinceramente, e produto justamente da evolução societária.

Sobre a origem dessa “maldade”, os traumas e maus tratos da infância podem dar origem a adultos violentos?
Sem dúvida! Não se conhece nenhum psicopata, nem ninguém propenso à violência, que não tenha passado por problemas graves na sua infância, traumas, agressões, abusos sexuais, abusos psicológicos… Não estou a desresponsabilizar, nem a justificar ninguém, mas é uma realidade… Do ponto de vista clínico, do ponto de vista da investigação académica, não encontras um único caso que tenha tido uma vivência harmoniosa. Também não quer dizer que todas as pessoas que passam por situações traumáticas advenham indivíduos violentos. Isto não é verdade. A resiliência humana é absolutamente extraordinária e a verdade é que há pessoas que vêm de meios altamente desfavorecidos, não estou a falar socioeconomicamente, mas do ponto de vista emocional e efetivo, e que se organizam como adultos e são capazes de vidas familiares, emocionais, prósperas e balançadas. Mas a verdade é que é assim, tu encontras casos de grande abuso e grande violência entre os psicopatas.

É possível então sentirmos empatia por algumas destas pessoas ao ouvirmos as suas histórias de vida…
Claro… E isso é o trabalho clínico que é difícil de fazer. Porque quando nós estamos em contexto clínico a trabalhar com psicopatas, com assassinos, com sádicos, essa pessoa, do ponto de vista do Direito, tem direito à sua defesa, a ser ouvida, escutada, entendida, por aí fora. Foi assim que comecei a minha carreira, no Ministério da Saúde… Fiz muitas consultas com polícia à porta, a pessoas que estavam detidas, que vinham à consulta por ordem do tribunal e obviamente que é um bocadinho trabalhar no fio da navalha… Não podemos desculpabilizar nem justificar os atos dessas pessoas – um psicólogo não faz isso, naturalmente –, mas precisamos de as entender. E precisamos de ajudar, sobretudo, a que elas se entendam.

Os crimes violentos têm aumentado em Portugal? Parece que ouvimos cada vez mais histórias hediondas na televisão…
Também há a velha dicotomia de: só ouvimos mais porque há mais notícias, ou só ouvimos mais porque existem mais crimes. Nós sabemos que independentemente disso, alguma criminalidade geral baixou ou manteve-se, mas alguns crimes violentos aumentaram de acordo com o RASI, relatório da Administração Interna.

A verdade é que o tipo de sociedade que nós temos construído e que continuamos a tecer presta-se ao aumento da criminalidade. Quando se diminuem laços sociais, quando a coesão social se torna mais rarefeita, menos robusta, por aí fora, isso é um pasto para a própria violência, para aumentar determinado tipo de criminalidade e de atos de acting out... Não me espanta. Um exemplo básico que posso dar, que acho que toda a gente compreende, é a diminuição brutal da sociabilidade através do uso imoderado de telemóveis. Finalmente se começa um bocadinho a abrir a pestana e a perceber que pelo menos as crianças e os adolescentes têm que ver essa utilização restrita e monitorizada… Mas esse uso imódico dos aparelhos digitais obviamente prejudica gravemente aquilo que é a conexão entre as pessoas, entre os humanos. Portanto, daí a depois haver menos capacidade de relacionamento, menor empatia, etc., é um fósforo.

Sobre a reabilitação… Uma pessoa “má” pode ser reabilitada?
Nem todas. A verdade é que os casos mais graves de psicopatia são totalmente resistentes a qualquer forma quer de psicofarmacologia, portanto medicação, quer a qualquer forma de psicoterapia. Totalmente, 100% resistentes. Portanto, até será, do ponto de vista da economia do Estado e das políticas de saúde pública, um perdulário fazer a aposta na reabilitação de determinados quadros. Em Portugal não existe, provavelmente, reabilitação nem reinserção, pois os recursos destinados ao ambiente prisional são muito escassos, mas nos países que estão mais avançados, países do norte da Europa, onde se pratica, nomeadamente, a justiça reparativa e outras formas um bocadinho mais complexas de justiça, consegue-se separar o trigo do joio, e entende-se, efetivamente, que determinados investimentos em determinados quadros patológicos são em vão e são dinheiro deitado ao lixo. Era necessário que em Portugal se implementassem essas políticas, nomeadamente, naqueles quadros que são efetivamente reabilitáveis, que existisse aí uma reinserção, de facto, bem construída. Estamos a falar de indivíduos mais jovens, de quadros mais ligeiros, etc. E depois, naqueles quadros que são particularmente malignos, as penas deviam ser mais duras. Do ponto de vista estritamente científico, é isso que se aponta. A ciência serve para informar a política.

Acredito que tenha acompanhado o caso da grávida da Murtosa…
Sem dúvida. Em primeiro lugar, eu percebo, perfeitamente, que Portugal tenha ficado suspenso com este caso, porque nós estamos a falar de uma mulher grávida. Uma mulher grávida representa o Universo. Uma das primeiras estátuas que se conhece da humanidade, encontrada há 40 mil anos na Alemanha, que é a Vénus de Hohle Fels, é justamente uma mulher grávida. E também percebo, perfeitamente, que tenha consternado o país o facto de não ter havido uma condenação. É terrível!

Como este, temos tido outros casos em que o mistério não se consegue resolver… Isso deve-se a falhas na investigação ou acha que realmente pode haver crimes perfeitos?
Há um bocado falava-lhe do estripador de Lisboa… Nunca foi encontrado. Colocaram-se várias hipóteses, vieram peritos internacionais a Lisboa fazer várias diligências e tentar comandar o processo, e nunca foi descoberto quem era o estripador. Estamos a falar de um tipo, nesse caso, desorganizado. Alguém que deixava imensas pistas, todo o tipo de vestígios. Neste caso da grávida da Murtosa, até à data, infelizmente, efetivamente não sabemos quem é que a assassinou. Inclusive para os seus próprios filhos é uma situação muito difícil, não haver desfecho, não haver o epílogo de uma história tão tenebrosa. Significa que as próprias pessoas terão muita dificuldade em fazer o luto. Mas a verdade é que não se conseguiu provar em tribunal que Fernando Valente fosse o homicida. As provas eram circunstanciais, é assim que a justiça trabalha e nós entendemos que assim seja, com certeza, por mais chocante que isto possa parecer. Mas eu estou com o povo português, estou com a família da Mónica, partilho perfeitamente da sua angústia, da sua profunda angústia e revolta. E claro que muitas vezes há erros na investigação, outras vezes há recursos que são insuficientes, há também um tipo de assassino mais organizado, ao contrário do estripador de Lisboa… Há assassinos que são mais meticulosos, mais sistemáticos, e conseguem limpar as provas.

Portanto, pode ser um conjunto de fatores. Normalmente, um grande acidente não ocorre por um grande erro, normalmente um grande acidente ocorre por um conjunto vasto de pequenos erros. E, muitas vezes, quando efetivamente o detetive não consegue apurar quem é o criminoso, é um conjunto de pequenos erros que foram cometidos ao longo do processo. É o que aconteceu, provavelmente, neste caso.