Partidos políticos, eterna saudade


A campanha eleitoral prossegue em forma de bocejo e quase nos faz esquecer a natureza mortal dos partidos políticos. A recente multiplicação do número de partidos com assento parlamentar compensou largamente a morte eleitoral do CDS (entretanto ressuscitado por obra e graça do PSD).


A campanha eleitoral prossegue em forma de bocejo e quase nos faz esquecer a natureza mortal dos partidos políticos. A recente multiplicação do número de partidos com assento parlamentar compensou largamente a morte eleitoral do CDS (entretanto ressuscitado por obra e graça do PSD).

As eleições de dia 18 de Maio poderão dar à morte um partido (o PAN) ou deixar em estado vegetativo outros (PCP, Bloco). Mas nenhum dos dois grandes partidos parece correr perigo de vida. Será?

A morte partidária pode surgir em eleições locais, aquelas em que nos dizem valerem as virtudes e a obra dos candidatos a autarcas (e não a matriz partidária) e onde há abundância de autarcas travestidos em independentes ou em transumância partidária. Tomemos por exemplo as eleições locais realizadas a 1 de Maio em Inglaterra (que não incluíram as restantes nações: Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Os trabalhistas, que ocupam o governo nacional com uma confortável maioria parlamentar (411 em 650 Deputados), ficaram em quarto lugar e perderam 187 eleitos em relação aos resultados de 2021. Os conservadores, na oposição em Westminster, com 121 Deputados, ficaram em terceiro lugar e perderam 674 eleitos. Os liberais democratas (criados em 1981 para acabar com o duopólio partidário) ganharam mais 163 eleitos e ficaram em segundo lugar (são o terceiro partido em Westminster, com 72 Deputados). O Reform Party de Neil Farage ganhou 677 eleitos (quase tantos como a soma dos Liberais Democratas e dos Conservadores, os segundos e terceiros mais votados a nível local) quando no Parlamento nacional só tem 5 Deputados.

A BBC calculou a projecção dos resultados destas eleições locais numa futura eleição nacional. Os Conservadores ficariam em quarto lugar com 15% dos votos, os Liberais Democratas teriam 17%, os Trabalhistas 20% e o Reform 30%. Com o sistema eleitoral maioritário, o Reform Party obteria uma esmagadora maioria dos Deputados e os Conservadores poderiam tornar-se irrelevantes, ficando o estatuto de maior partido da oposição em disputa entre os Trabalhistas e os Liberais Democratas.

Descontado o descontentamento dos ingleses com os dois partidos tradicionais (as eleições não se ganham, alguém as perde), pergunta o leitor atento: que programa apresentou o Reform Party para convencer os eleitores? Um programa radical: acabar com as pistas velocipédicas nas ruas e avenidas das diversas autarquias; eliminar as gincanas que pretendem promover a acalmia do trânsito; combater a redução do estacionamento automóvel público; acabar com o alojamento em hotéis, pago pelo contribuinte, dos requerentes de asilo; redução da despesa pública a nível local (com destaque para as políticas de diversidade e de consciencialização para as alterações climáticas).

Farage e os seus terão agora que responder, pelos actos de gestão, pela concretização, a nível local, das políticas que lhes deram a vitória. No plano nacional vão piscando o olho ao precariado, acenando com a nacionalização da rede eléctrica, da produção de electricidade, do abastecimento de água e gás natural e a extinção da Câmara dos Lordes.

Desconfio que em Portugal o descontentamento dos eleitores com os dois maiores partidos tem uma intensidade semelhante à que se manifestou em Inglaterra no dia 1 de Maio. Os neo-partidos (Bloco, Livre, PAN, Iniciativa Liberal, Chega) têm servido de paliativo a esse descontentamento mas o efeito terapêutico está a esgotar-se. As eleições autárquicas são um excelente balão de ensaio para renovar o sistema partidário. Mas as comparações acabam aqui. Ventura não é Farage e o Chega não tem capacidade (nem o seu líder vontade) de atrair candidatos que passem num único teste do algodão.

Partidos políticos, eterna saudade


A campanha eleitoral prossegue em forma de bocejo e quase nos faz esquecer a natureza mortal dos partidos políticos. A recente multiplicação do número de partidos com assento parlamentar compensou largamente a morte eleitoral do CDS (entretanto ressuscitado por obra e graça do PSD).


A campanha eleitoral prossegue em forma de bocejo e quase nos faz esquecer a natureza mortal dos partidos políticos. A recente multiplicação do número de partidos com assento parlamentar compensou largamente a morte eleitoral do CDS (entretanto ressuscitado por obra e graça do PSD).

As eleições de dia 18 de Maio poderão dar à morte um partido (o PAN) ou deixar em estado vegetativo outros (PCP, Bloco). Mas nenhum dos dois grandes partidos parece correr perigo de vida. Será?

A morte partidária pode surgir em eleições locais, aquelas em que nos dizem valerem as virtudes e a obra dos candidatos a autarcas (e não a matriz partidária) e onde há abundância de autarcas travestidos em independentes ou em transumância partidária. Tomemos por exemplo as eleições locais realizadas a 1 de Maio em Inglaterra (que não incluíram as restantes nações: Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte). Os trabalhistas, que ocupam o governo nacional com uma confortável maioria parlamentar (411 em 650 Deputados), ficaram em quarto lugar e perderam 187 eleitos em relação aos resultados de 2021. Os conservadores, na oposição em Westminster, com 121 Deputados, ficaram em terceiro lugar e perderam 674 eleitos. Os liberais democratas (criados em 1981 para acabar com o duopólio partidário) ganharam mais 163 eleitos e ficaram em segundo lugar (são o terceiro partido em Westminster, com 72 Deputados). O Reform Party de Neil Farage ganhou 677 eleitos (quase tantos como a soma dos Liberais Democratas e dos Conservadores, os segundos e terceiros mais votados a nível local) quando no Parlamento nacional só tem 5 Deputados.

A BBC calculou a projecção dos resultados destas eleições locais numa futura eleição nacional. Os Conservadores ficariam em quarto lugar com 15% dos votos, os Liberais Democratas teriam 17%, os Trabalhistas 20% e o Reform 30%. Com o sistema eleitoral maioritário, o Reform Party obteria uma esmagadora maioria dos Deputados e os Conservadores poderiam tornar-se irrelevantes, ficando o estatuto de maior partido da oposição em disputa entre os Trabalhistas e os Liberais Democratas.

Descontado o descontentamento dos ingleses com os dois partidos tradicionais (as eleições não se ganham, alguém as perde), pergunta o leitor atento: que programa apresentou o Reform Party para convencer os eleitores? Um programa radical: acabar com as pistas velocipédicas nas ruas e avenidas das diversas autarquias; eliminar as gincanas que pretendem promover a acalmia do trânsito; combater a redução do estacionamento automóvel público; acabar com o alojamento em hotéis, pago pelo contribuinte, dos requerentes de asilo; redução da despesa pública a nível local (com destaque para as políticas de diversidade e de consciencialização para as alterações climáticas).

Farage e os seus terão agora que responder, pelos actos de gestão, pela concretização, a nível local, das políticas que lhes deram a vitória. No plano nacional vão piscando o olho ao precariado, acenando com a nacionalização da rede eléctrica, da produção de electricidade, do abastecimento de água e gás natural e a extinção da Câmara dos Lordes.

Desconfio que em Portugal o descontentamento dos eleitores com os dois maiores partidos tem uma intensidade semelhante à que se manifestou em Inglaterra no dia 1 de Maio. Os neo-partidos (Bloco, Livre, PAN, Iniciativa Liberal, Chega) têm servido de paliativo a esse descontentamento mas o efeito terapêutico está a esgotar-se. As eleições autárquicas são um excelente balão de ensaio para renovar o sistema partidário. Mas as comparações acabam aqui. Ventura não é Farage e o Chega não tem capacidade (nem o seu líder vontade) de atrair candidatos que passem num único teste do algodão.