Depois de ter sido considerado inapto por conta do seu físico débil, Manolete acabou por ser mobilizado por uma junta de revisão. Bateu-se na última batalha da Guerra Civil de Espanha pelo lado dos franquistas o que lhe valeu passar a ser mal visto por muita gente da sua geração. Atirou tudo para trás das costas e passou a só ter olhos para os touros e para uma moça chamada Lupe Sino. ‘Vida e morte na arena’ trata a biografia do toureiro espanhol em três capítulos – este é o segundo.
Cantava Rodrigo de la Cadena: «Hace lucir mantillas negras/Bajo del fuego del sol cañí/Y el señorial Manuel Rodríguez/Sigue viviendo dentro de mí». E Manuel Rodríguez estava triste. A sua cidade natal, Córdova, não o levava a sério como toureiro. Eles e todos em Espanha. Segue caminhos ínvios. Junta-se a um grupo de cómicos, Los Califas, que fazem palhaçadas nas arenas. Ele é o responsável pela parte do toureio verdadeiro, mas fica marcado. Viaja por todo o país, faz uma digressão a França. Sente-se farto. Abandona o circo. Recusa-se a destruir o sonho que vive dentro de si. Luta contra o estigma. Mas precisa de esquecer Córdova por uns tempos. Esquece.
No dia 25 de Julho de 1934 estava em Úbeda, a magnífica cidade do renascimento, na província de Jaén. Tem um estrondoso mano-a-mano com El Leon de Andalucía. Cai no goto dos espectadores. As portas começam a abrir-se-lhe. No fim de Agosto, finalmente, Córdova recebe-o como filho. Veste o Traje de Luces, ou o Traje de Capuchón, espalha a sua luz em lantejoulas. Usa cores claras. «La purísima y oro»: azul-marinho com um bordado extraordinário de ouro ao qual chamam de los corazones. Sai em ombros, já de noite, com uma orelha.
Quem o vê tourear escreve: «De capa toureia mal. A matar revela notáveis qualidades. Pratica com êxito o clássico ‘volapié’ e até a sorte de ‘matar recibiendo’». Recebe o apoio dos picadores. É um homem revoltado com as críticas de que é alvo. Não suporta que desprezem o seu toureio e, infelizmente para ele, ainda há muitos que o põem em causa. Quando o público redobra de exigência e se torna resistente, perde por vezes a frieza e corre riscos desnecessários perante os touros. Torna-se vítima de cornadas frequentes. Atira-se contra a margem do bom senso apenas para provar a sua coragem. É intrépido em excesso. Passa-se mais um ano. Surge em Madrid na praça de Tetuán de las Victorias, zona nobre da capital que abarca o Paseo de la Castellana e a Avenida de la Reina Victoria, e os bairros de Cuatro Caminos e Bellas Vistas, onde deram os primeiros passos gente da categoria de Rodolfo Gaona e Domingo Ortega e que, no ano seguinte, passaria a ser um depósito de pólvora e munições e jamais voltaria a ver toureiros. Voltam os elogios: «Grande habilidade no trastejo de muleta, estoqueador e estilo pela maneira fulminante com que matou marcando os três tempos ‘para sair limpiamente por el costillar’». Alterna com nomes firmes do toureio mexicano, Silverio Pérez e Liborio Ruiz, sem saber que será na Cidade do México que arrebatará as suas maiores apoteoses. «Manolete, torero de oro/Ero en moro del redondel/Cuando en Córdoba sollocen las campanas/Y tu recuerdo es en mi pecho un cascabel».
O Monstro Assassino
Ninguém consegue classificar com pormenor a génese da Guerra Civil de Espanha: luta de classes, uma guerra religiosa, uma luta entre ditadura e democracia republicana, entre revolução e contrarrevolução, entre fascismo e comunismo? De tudo um pouco. Manuel Azaña, o presidente, apoiado pelas fações de esquerda, é posto em causa pela Confederación Española de Derechas Autónomas, pelos monárquicos (fossem eles afonsistas ou os seus inimigos conservadores religiosos carlistas), e pelo partido fascista Falange Española de las Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista. Sanjuro morre num acidente de automóvel quando saía do exílio em Portugal e o general Francisco Franco toma o seu lugar. A guerra prolonga-se de 1936 a 1939. Manolete não escapa a ela. Nem à lenda negra que o persegue até hoje.
Dado primeiro como incapaz, por causa do seu físico pobre e por ser filho único de uma viúva, Manuel Laureano Rodríguez Sánchez foi mobilizado em 1937 por uma junta de revisão. Deram-lhe farda no Regimento de Artilharia Pesada número 1, em Córdova. Só podia tourear em festivais a favor do exército ou de hospitais, o que lhe valeu o apodo de franquista, com tudo o que de negativo ainda provoca. Artilheiro de segunda, entra em operações nas frentes de Vilafranca, Estremadura e Peñarroya, esta a última batalha da guerra. Corria o ano de 1938, era Novembro, e o destino do conflito estava decidido. A derrota republicana nas Terras do Ebro dera a vitória ao Exército Nacionalista. Com as forças de Franco a caminho de Barcelona, houve uma derradeira tentativa de proteger a Catalunha. O general Vicente Rojo foi o responsável pela resistência impossível. Batedores partiam à noite para fazer relatórios sobre a presença de soldados nacionalistas nos territórios vizinhos de Alcaudete, Almadén, Granada, Jaén e Puertollano. As notícias eram assustadoras. A Batalha de Peñarroya, também conhecida por Batalha de Valsequillo, marcou definitivamente o futuro da Espanha. Peñarroya-Pueblonuevo é uma cidadezinha do Valle del Guadiato, a setenta e cinco quilómetros de Córdova. Manolete podia estar do lado vencedor da guerra mas estava também do lado errado da vida.
Um ataque surpresa dos republicanos apanhou os falangistas em contra pé e Sierra Noria foi tomada ao mesmo tempo que Sierra Trapera foi sitiada. Durante dois dias as coisas ficaram equilibradas. No dia 9 de Janeiro, Franco fez avançar cinco divisões reforçadas por vinte oito batalhões vindos de Mérida. Na tarde do dia seguinte desbaratava a resistência diminuída pelas chuvas constantes e pela falta de equipamento: 6000 homens mortos ou feridos do lado do General Rojo, mais 6500 prisioneiros; 2000 mortos e 5500 feridos do lado vencedor. Manuel Rodríguez escapava incólume mas teve de se sujeitar à sua escolha. Aquele a quem chamaram o Monstro das Arenas passou a ter uma alcunha feia por entre os vencidos: Monstro Assassino.
Em 1939, a 2 de Julho, recebe alternativa em Sevilha, em La Maestranza, das mãos de Manuel Jiménez Moreno, Chicuelo. Momento inesquecível: logo no primeiro touro, duas orelhas e volta à arena. Os OLÉS! multiplicam-se. Segue para Madrid em Outubro e Marcial Lalanda confirma-lhe a categoria de matador. Há muitos que o sublinham como Matador do Regime. Manolete atira tudo para trás das costas e não tem cabeça para mais nada senão a sua carreira que sobe a pique. É o homem do povo e dos empresários, cobra cachets altíssimos. Enche praças e os anos vão passando e as corridas também. 72 em 1942; 75 em 1943; 92 em 1944. E os touros: em Valência corta duas orelhas, rabo e duas patas ao Maganto; em Madrid repete o êxito com Ratón, de Pinto Barreiros. Entretanto Antonia Bronchalo Lopesino, Lupe Sino, passa a fazer parte do seu dia a dia num romance badalado. Atriz de teatro e mais tarde de cinema, tem ligações ao Partido Comunista e à URSS por via da sua amizade com o conselheiro russo general Gorev. Conheceram-se no bar Chicote, na Granvia. A mãe e os amigos mais próximos estão contra a união. Manuel está-se nas tintas.