João Gil. ‘Lanço as chamas para o ar!’

João Gil. ‘Lanço as chamas para o ar!’


Não é apenas um novo álbum aquele a que João Gil chamou ‘Só se Salva o Amor’ – é uma intervenção diferente de um músico que sempre se assumiu muito mais como compositor do que como cantor. Talvez tenha começado a ver o mundo de outra forma._Talvez tenha chegado a altura de escrever o que…


Leio as frases, entendo o seu ritmo. Estou frente a frente com um homem que luta contra si próprio e contra a diversidade dos seus sentimentos. Só se Salva o Amor não é apenas o novo disco do João Gil. É o momento em que se questiona e procura responder-se. Como se se resolvesse. Amizade à parte, que não a escondo, vejo-o à procura de algo no fundo de si mesmo. É preciso sentir, sentir sempre, a vida não corre como um ribeiro, é muito mais uma extensão da fúria do mar. As letras não são todas dele. ‘Ao Deus Dará’ tem a assinatura de Paulo Ribeiro; ‘Não Era a Vida que_Eu Queria’ é de Maria do Rosário Pedreira. Depois é o homem e o seu espelho. Ou o homem através do espelho. Só ele o pode dizer. Mas fomos à procura das palavras e do que significam as palavras.

«És a nossa Brigitte Bardot

Por seres tão bonita não se acreditou

Com certeza que é Veneza

Que Aveiro não chega p’ra tanta beleza

A nossa Manchester faz muita lã

Num sítio pequeno como a Covilhã

Alguém diga afinal

Onde fica Portugal?»

Afinal já descobriste onde fica Portugal?

Já descobri sim senhor, Portugal fica algures entre o passado na espada de D. Afonso Henriques, na epopeia marítima, na colonização e na expansão territorial, nos feitos desportivos e fadistas, e a omnipresença do Mar, o Sol e Praias, a mistura de raças que nos trouxe até aqui, o desejo de partir e o prazer de chegar sempre ao cais do desembarque, para além de, claro, alguma ambição de ser forte. Portugal está dentro de nós, em cada um e poucas vezes em todos ao mesmo tempo.

«Vais dizer que só há uma

Esta terra e mais nenhuma

Queima fitas, bebe um fino

Quebra o ciclo do Destino.

Vivemos num país triste? Ou é a tristeza que está em nós?

Talvez se explique pela contemplação de tanto mar que nos banha. Talvez pela quantidade de gente que vemos emigrar, a Ditadura agravou e entranhou aquilo que já vinha de trás, uma certa sonsice e tristeza fingida de quem tenta vender alguma coisa. É uma tristeza mais cantada e fingida. Os Portugueses são alegres mas escondem-no.

«Vai meu Irmão

sai desse buraco

vem pra junto de nós

Sai meu irmão

sai dessa escuridão

sai desse dia não

E quem te fez assim tão mal?

e porque vais assim tão só?»

É falta de crença em nós próprios?

Talvez alguma falta de auto estima. Os portugueses já perceberam que todo o Mundo quer vir cá, comer da nossa comida, andar à toa e descobrir um País longe da penumbra do céu nublado, beber copos até à exaustão e em segurança, os milhões de pessoas que nos visitam descobrem e levam de volta a nossa verdadeira génese, um povo meigo e hiper simpático, sempre disponível para ajudar sem qualquer imposição de Língua. Somos nós que fazemos o primeiro esforço de facilitação.

«Sou do tempo a preto e branco

E para ser muito franco

Do machado ao pensamento

Da mordaça sentimento

E quando o sol nasceu

Raiou no infinito

Foi a luz que amanheceu

No dia mais bonito».

Ainda continuas a acreditar no dia mais bonito?

O dia mais bonito iniciou os primeiros passos da Democracia e a partir daí é sempre a melhorar. O regime democrático é um edifício em permanente construção e permite que em Liberdade se façam as mudanças para que as pessoas vivam melhor. A pobreza persiste e esse é o grande problema por resolver.

«Já lá vai a má memória

Já lá vai a escuridão

Foi assim a nossa história

Até dizermos não».

Lembras-te de como o viveste?

Sim , foi inesquecível. Cheguei ao Chiado ainda muito cedo e andei a correr por todo o lado a fazer número para que os militares sentissem que o Povo estava com eles. As pessoas não paravam de chegar e tornou-se invencível. As ruas ficaram pequenas e a Liberdade tomou conta de nós.

«E em tempos de incerteza

São difíceis na pobreza

Mas temos uma certeza

Liberdade não é tristeza».

Mas os tempos da pobreza e da incerteza continuam aí, não achas?

Sim, a Pobreza e as assimetrias sociais, os salários baixos, o mérito não premiado, a Demagogia e o Populismo, A Xenofobia e o Racismo, continuam por aí e em força.

«Ondas do Mar

Não façam chorar

Devolvam esse corpo

Ainda a respirar

E quem te fez assim tão mal?

e porque vais assim tão só?

Fecha a janela

Do vento que gela

Não deixes entrar

O silêncio de cortar»

Mais a cores ou ainda a preto e branco?

Definitivamente a cores e cada vez mais garridas.

“Vivo rodeado
 de música por
 todos os lados”

«Ando de bolsos vazios

a matar a solidão.

Minha terra são baldios:

não tenho tecto nem chão.

Se passo, ninguém me vê,

que a miséria é transparente;

e um pobre, não sei porquê,

incomoda muita gente.

Não era a vida que eu queria.

Como outros, também sonhei.

Nos braços da fantasia,

fui imperador fui rei

a miséria não tem cura

se mais ninguém ajudar.

É toda matéria escura,

como a noite sem luar.

Não era a vida que eu queria.»

Tiveste a vida que querias?

Acho que sim, feliz por ter nascido numa família incrível, ser Beirão e ter a sorte de viver rodeado de Música por todos os lados e de ter o bambúrrio de sorte na Mulher e Filhos tão especiais.

«No jornal ou na revista

Está sempre bem à vista

Seja o mais narcisista

Paternalista ou mais moralista

Antigamente é que era bom

Estava sempre tudo bem

Andava tudo direitinho

Autoridade e respeitinho

Para muitos a gramática

Não é Bíblia ou estática

Para outros tolerância

Da absoluta redundância

À cervical do cardeal

À besta do bestial

À cena que é viral

Ao imposto sazonal

Mas por favor

Não digas que está tudo mal

Faz um esforço

Alguma coisa há-de estar bem

Fala por ti

Fala por ti»

Ainda sonhas com quê?

Ainda sonho com voos nocturnos pelos telhados e varandas de Lisboa em movimentos de natação em estilo de bruços. Acho que tenho de ser visto…

O João é um homem de sonhos. Sempre foi. Povoou de sonhos as suas músicas, durante muito tempo (talvez demasiado tempo) cantadas por outros. Abriu as asas e nadou em vês de voar. Mas nadou na água azul do céu em tantos momentos que recordamos da sua já tão longa carreira. Uma vez, noutra entrevista, confessou-me: «O rapazinho da Covilhã ainda existe aqui dentro». Nestas mesmas páginas falámos muito. E repito-me, sempre que necessário: para mim, ele será sempre o camisola dez. O camisola dez que puxa pela humildade da sua pessoa para ser o eterno rapazinho que veio da Covilhã ao encontro da cidade, à procura do mundo e de uma vida de liberdade que, de repente, encheu de cravos vermelhos e alegres este país sempre tão teimosamente triste. Agora, no seu novo álbum, encontramos a tristeza e a saudade de mão dada com a esperança e uma certa revolta contra a vida-vidinha que nos tolhe, a nós, os habitante do país que o mar não quer, como dizia Ruy Belo, esse poeta injustamente esquecido.

«Hoje vi um homem só

A pregar palavras no deserto

Tão incerto

O silêncio não desfaz o nó

Acenava à multidão

E as coisas que dizia

Parecia que toda a gente

Lhe dava razão

Falava de paz

Em tempos de guerra

Ninguém quer ouvir

Esgrimir vingança

Dança ( tão ) cega e casas a ruir».

Onde fica o teu abrigo?

O meu Abrigo é a minha família, os meus amigos e o povo a que pertenço. Sinto-me bem entre nós. Devo-lhe tudo.

«Esquecer é morrer

Ao entardecer de viver

Gritar e denunciar

É não alinhar

Não é apenas salvar a memória

Não difamatória

É ter uma história,

Uma história contraditória

É uma vitória

Uma vitória

A nossa vitória

Fugir para a linha da frente

Para a frente de combate».

Onde defrontaste a tua maior escuridão?

Quando perdi os meus Pais e o meu Irmão Zé.

Conseguiste sair dela?

É uma aprendizagem difícil ter de lidar com a ausência mas sabemos que os nossos ente queridos persistem em nós e estão sempre presentes._

“Andei ao Deus dará no meu tempo de estudante”

«Tenho andado ao Deus – dará

Mais para lá do que pra cá

sem saber às quantas ando

Vivo em casa dos meus pais

O dinheiro não dá para mais

Por aqui me vou ficando

À mesa de cabeceira

Rezo à Santa Padroeira

Mas não sinto a devoção

É uma questão de crença

O que faz toda diferença

É o povo em comunhão ».

_

Qual foi o tempo em que andaste ao Deus dará?

Só andei ao Deus dará enquanto estudante, um desastre.

Falas de um antigamente em que era tudo bom. Na realidade, antigamente havia algo de bom?

A nossa história é feita de tudo e aprendemos muito com todas as coisas que nos aconteceram e que fizemos acontecer a outros povos. O presente é mais colorido e tentaremos fazer cada vez melhor.

«Eu nunca perdi a esperança

Pois quem luta sempre alcança

Eu que sou um resistente

Sei que vai acontecer

O amor há-de vencer

É a salvação da gente

Sei que vai acontecer

O amor há-de vencer

É a salvação da gente».

Que fazes tu contra o que está mal?

Dou o meu melhor.

«Não há mercúriocromo

Ou desinfectante

Não há tolerância nem distância

Para as feridas da infância

Não há cura nem esquecimento

É desmembramento

Num corpo de si ausente

Em fúria persistente

E raiva calada

De ançaime amordaçada

Que maçada!

Fugir para a linha da frente

Para a frente de combate».

Não tens medo de andar a pregar no deserto?

Não há que ter medo de colidir com a opinião vigente e divergir quando é necessário, se necessário.

Que sentes que a tua memória precisa de conservar?

A memória das vozes e dos sons da memória. Assim se faz música.

Qual a maior das tuas vitórias?

Ser Pai, Amar e ser amado.

«Não é o tempo

Nem é apenas

É apenas um momento

Nem a tolerância cria a distância

Não há nada que apague

Nem massagem que afague

Nem nada que pague!

Fugir para a frente,

Saiam da frente

Saiam da frente

Não me façam frente

Fugir para a linha da frente

Para a frente de combate».

Tens feridas da infância? Quais?

Não tenho feridas de infância mas sei quem as teve e o quanto é difícil sair vencedor.

_

«Nasci longe muito longe

Entre muitos meus irmãos

Vieram todos no mesmo barco

Com o medo entre as mãos

A boneca da minha irmão

Não fez de Cindy brincadeira

Não teve tempo de infância

Prematura morte matreira

E as aves que pousam no meu ombro

Não têm medo de mim

Voam por cima das águas

À procura do seu fim

Nasci pobre como ela

Entre muitos, meus irmãos

Ela tinha doze anos

É agora uma estrela».

Este será o disco em que mais te expões?

Este é o álbum em que exponho mais aquilo que vejo à nossa volta.

E o de maior intervenção?

Lanço as chamas para o ar, coisas que estão a acontecer por todo o lado, e como esponjas que somos, deitamos cá pra fora o que vamos absorvendo- a dor dos outros, a dança das facas, a vingança cega, o ódio, as nossas pequenas vitórias, o dia mais bonito e a nossa sempre frágil Democracia. Nada é garantido.

«Esquecer é morrer

Ao entardecer de viver

Gritar e denunciar

É não alinhar

Não é apenas salvar a memória

Não difamatória

É ter uma história,

Uma história contraditória

É uma vitória

Uma vitória

A nossa vitória

Fugir para a linha da frente

Para a frente de combate».

São palavras de combate e também de intervenção. As palavras que o_João precisava de atirar para o ar de forma a que algo mude quando corre o risco de estagnar. Expõe-se, não se encolhe, vai à luta. Que ninguém lhe faça frente!