Língua envergonhada


As grandes empresas, aplicações e sites oferecem na sua grande maioria conteúdos dobrados para português do Brasil e não conforme a nossa utilização, sobretudo porque o público deles é muito mais vasto e abrangente.


A semana passada, um cliente para um determinado trabalho de comunicação enviou-me um áudio com algumas solicitações específicas. Quem o ouvisse e não estivesse por dentro do assunto poderia perfeitamente achar que se tratava de uma qualquer cena dos Gato Fedorento tantas eram as expressões em inglês. Pics, engagement, tease up, media book, trade-off, input, briefing e debriefing e várias outras expressões muito utilizadas em agência e que vamos ouvindo de forma cada vez mais recorrente em meios mais corporativos ou empresariais. Se percebo que nos possamos recorrer de uma ou outra palavra mais internacional, a sua utilização massiva parece-me um absurdo quando estamos a comunicar na nossa língua materna e quando a essas expressões correspondem a palavras portuguesas de fácil utilização.

Há também certos bimbos que gostam de as enxertar a eito no meio de frases, sem qualquer explicação plausível e sem o mínimo de lógica só para parecer que percebem de determinado assunto ou por acharem que assim parecem mais eruditos. Mas não são só os inglesismos que atacam a língua portuguesa de forma contundente. Com o aumento da população brasileira no nosso país, vamos vendo cada vez mais informação, na televisão ou na rua, escrita e falada com expressões de português do Brasil. Os desenhos animados que as crianças veem na internet aparecem quase todos dobrados nessa variante, o que nos coloca várias questões e desafios a que não vejo ninguém dar resposta. Num mundo cada vez mais digital, as grandes empresas, aplicações e sites oferecem na sua grande maioria conteúdos dobrados para português do Brasil e não conforme a nossa utilização, sobretudo porque o público deles é muito mais vasto e abrangente, mas também porque os tradutores a quem é requisitado o trabalho são brasileiros.

Já por aqui escrevi várias vezes, sobre a forma preocupante como nos temos desleixado com o nosso património imaterial mais importante. “Deixámos” os países africanos de língua portuguesa serem “invadidos” por escolas internacionais, não aumentando e melhorando a nossa oferta, nem promovendo o seu ensino, tornando-a elitista e pouco abrangente. Isso faz com que aos poucos se vá deixando de falar português. Os casos mais paradigmáticos, são Moçambique pela influência que África do Sul tem em toda a região, com a crescente utilização de terminologia inglesa, como “djobar” que quer dizer trabalhar e vem da palavra “job”, só para dar um exemplo, ou a Guiné Bissau pela proximidade com o Senegal, neste caso é a língua francesa a tomar conta de parte do território. Nas ilhas Bijagós já se fala mais francês do que português.

Eu sei que este não é um tema “da moda”, daqueles que a sociedade gosta agora de discutir e opinar mas era bom que começássemos a pensar em medidas para proteger, divulgar e promover a língua de todos nós sob pena de qualquer dia a vermos reduzida a uma amalgama de expressões que misturam o inglês e o português do Brasil, descaracterizando-a totalmente. Não devíamos ter vergonha da nossa língua mas sim orgulho. Faz parte da nossa cultura, das nossas tradições e do nosso passado e é fator essencial para nos afirmarmos no presente e futuro.

Língua envergonhada


As grandes empresas, aplicações e sites oferecem na sua grande maioria conteúdos dobrados para português do Brasil e não conforme a nossa utilização, sobretudo porque o público deles é muito mais vasto e abrangente.


A semana passada, um cliente para um determinado trabalho de comunicação enviou-me um áudio com algumas solicitações específicas. Quem o ouvisse e não estivesse por dentro do assunto poderia perfeitamente achar que se tratava de uma qualquer cena dos Gato Fedorento tantas eram as expressões em inglês. Pics, engagement, tease up, media book, trade-off, input, briefing e debriefing e várias outras expressões muito utilizadas em agência e que vamos ouvindo de forma cada vez mais recorrente em meios mais corporativos ou empresariais. Se percebo que nos possamos recorrer de uma ou outra palavra mais internacional, a sua utilização massiva parece-me um absurdo quando estamos a comunicar na nossa língua materna e quando a essas expressões correspondem a palavras portuguesas de fácil utilização.

Há também certos bimbos que gostam de as enxertar a eito no meio de frases, sem qualquer explicação plausível e sem o mínimo de lógica só para parecer que percebem de determinado assunto ou por acharem que assim parecem mais eruditos. Mas não são só os inglesismos que atacam a língua portuguesa de forma contundente. Com o aumento da população brasileira no nosso país, vamos vendo cada vez mais informação, na televisão ou na rua, escrita e falada com expressões de português do Brasil. Os desenhos animados que as crianças veem na internet aparecem quase todos dobrados nessa variante, o que nos coloca várias questões e desafios a que não vejo ninguém dar resposta. Num mundo cada vez mais digital, as grandes empresas, aplicações e sites oferecem na sua grande maioria conteúdos dobrados para português do Brasil e não conforme a nossa utilização, sobretudo porque o público deles é muito mais vasto e abrangente, mas também porque os tradutores a quem é requisitado o trabalho são brasileiros.

Já por aqui escrevi várias vezes, sobre a forma preocupante como nos temos desleixado com o nosso património imaterial mais importante. “Deixámos” os países africanos de língua portuguesa serem “invadidos” por escolas internacionais, não aumentando e melhorando a nossa oferta, nem promovendo o seu ensino, tornando-a elitista e pouco abrangente. Isso faz com que aos poucos se vá deixando de falar português. Os casos mais paradigmáticos, são Moçambique pela influência que África do Sul tem em toda a região, com a crescente utilização de terminologia inglesa, como “djobar” que quer dizer trabalhar e vem da palavra “job”, só para dar um exemplo, ou a Guiné Bissau pela proximidade com o Senegal, neste caso é a língua francesa a tomar conta de parte do território. Nas ilhas Bijagós já se fala mais francês do que português.

Eu sei que este não é um tema “da moda”, daqueles que a sociedade gosta agora de discutir e opinar mas era bom que começássemos a pensar em medidas para proteger, divulgar e promover a língua de todos nós sob pena de qualquer dia a vermos reduzida a uma amalgama de expressões que misturam o inglês e o português do Brasil, descaracterizando-a totalmente. Não devíamos ter vergonha da nossa língua mas sim orgulho. Faz parte da nossa cultura, das nossas tradições e do nosso passado e é fator essencial para nos afirmarmos no presente e futuro.