Vendaval eleitoral mudou tudo


A direita ganha largamente, mas não se entende. PS pode manter-se o maior partido e mesmo reclamar a formação de governo. Voto emigrante tem peso acrescido.


Nota prévia: Como é evidente, boa parte dos 100 mil votos do ADN, um partido ligado aos adventistas, pertence à Aliança Democrática (AD). O problema é que agora não há nada a fazer. Mas antes havia, se alguém na AD tivesse levado a sério os alertas que foram escritos e ditos na comunicação social. O jornal Tal&Qual até fez manchete do assunto. E o Nascer do SOL também tratou o tema, abordado igualmente na Renascença. As advertências de Montenegro sobre o ADN foram insuficientes. A culpa é de quem coordenou a campanha no terreno. O trabalho de proximidade junto do eleitorado menos atento falhou. Viu-se por Vila Real e Viseu. Dir-se-á que não evitava a viragem à direita. É verdade. Mas impedia que, neste momento, se saiba apenas que a AD deve ser a mais votada, mas que não é líquido que seja o PSD o maior partido. As coisas só ficarão claras quando se apurarem os resultados da emigração. Foi aliás que António Costa foi proclamar ao Altis no fim da noite eleitoral e que Pedro Nuno Santos ignorou, até para se distanciar do antecessor.

 

1. Apesar do caso ADN, o dado substancial das eleições é a viragem à direita que os portugueses impuseram por via do enorme crescimento do Chega. Não atingiu os almejados 20% que Ventura queria, mas tem mais de um milhão de eleitores, multiplicando o score anterior por quatro. O desenho político do país é agora diferente. Resulta de uma ida às urnas bem participada, com mais 800 mil eleitores. Com os ventos que sopram na Europa onde as direitas crescem ao jeito dos Estados Unidos e de países como a Argentina, é inútil pensar que o Chega soçobrará mais adiante como sucedeu ao PRD. O Chega confirmou ser um fenómeno profundo que os jornalistas, o “comentariado” e os “sondadores” desprezaram. Afinal quem mais acertou na tendência global foi o Nascer do SOL na sua manchete de sexta-feira passada. Não se pode transformar os desejos ocultos em realidade porque ela impõe-se. Tem sido assim em países como a França, a Alemanha, a Hungria, a Polónia e a Itália e a Holanda. Questões como a imigração e a falta de projeto para os jovens são cruciais e não vale a pena escondê-las. Tal como a preocupação dos pensionistas. A bolha político-mediática não percebeu o que vinha aí. Ventura está para ficar.

 

2. Luís Montenegro deve ser indigitado primeiro-ministro numa situação de fragilidade inédita em Portugal. Com grande dignidade, o líder da AD e do PSD reafirmou que palavra dada é palavra honrada. Por isso, não vai procurar o apoio do Chega, se for convidado a formar governo. Montenegro ficará dependente de muitas coisas, começando por um improvável ataque interno vindo do PSD por quem defenda um acordo com o Chega. Fica também nas mãos de uma rutura da AD ou mesmo de um desentendimento com os deputados da Madeira. Raramente houve uma conjuntura tão complexa e um governo tão frágil à partida, dependendo tanto do Chega como do PS. Mas se há coisa que Montenegro tem mostrado é uma notável capacidade de resiliência serena que vai ter de manter. O Presidente Marcelo tem a missão espinhosa de decidir da indigitação do primeiro-ministro. Depois de ouvir os partidos, é mais ou menos óbvio que vai ter de ponderar muito bem. A lógica tende para o convite a Montenegro. Todavia não é, repete-se, uma evidência que o PSD seja o maior partido em termos de deputados. A AD dissolveu-se domingo. Se no fim for o PS a formação com mais assentos nada impede que o convite seja dirigido a Pedro Nuno Santos, o qual deseja tudo menos isso nesta altura, como claramente expôs na noite eleitoral, libertando de António Costa. Nesta altura, enquanto não se sabe o resultado da emigração, o PSD tem menos um deputado do que o PS (76 contra 77). Só é maioritário contando com o CDS, ou seja, em AD. Ora, há uns anos, em 2015, o constitucionalista Vital Moreira lembrou que as coligações não têm identidade política própria, que quem forma governo são os partidos e que sempre foi chamado a formar governo o líder do maior partido parlamentar. De referir que essa perspetiva foi referida nestas “Rédeas Soltas”. O líder socialista sabe isso melhor do que ninguém, mas é evidente que o cenário não lhe interessa, dado que a direita é agora largamente maioritária, apesar de não se entender entre si. Montenegro e Pedro Nuno Santos acabam por estar dependentes um do outro.

 

3. Como se vê, o voto emigrante é importante. Desde logo porque pode definir o maior partido e porque é mesmo de considerar que o Chega ganhe mais um deputado ao PS. Até pode ser Santos Silva que tanto contribuiu para inchar o Chega. Não deixava de ter o seu quê de irónico. Mas há uma questão substancial sobre esse voto. Tem a ver com a forma como é exercido, muitas vezes em condições duvidosas. Umas por não haver sequer a possibilidade de votar. Outras porque há confusão no apuramento quanto à forma como o voto é associado à identificação. Sendo recorrente, a situação mostra a clara impreparação da classe política, nomeadamente dos partidos dominantes.

 

4. Qualquer interpretação que se faça do resultado eleitoral, uma coisa é certa: todo o processo foi desencadeado por uma suspeição lançada pela Procuradora-Geral da República sobre a honorabilidade do primeiro-ministro, António Costa. E isso não está provado nem minimamente indiciado. Pelo contrário. Não é por aí, no entanto, que o resultado eleitoral é menos aceitável. Desde logo porque foi o próprio António Costa que se apressou a admitir que não tinha condições para se manter em funções. Agora, porém, nada impedirá o PS de dizer que foi espoliado, enquanto não houver uma acusação substancial, o que não parece estar para acontecer. Não pode haver poderes irresponsáveis. Lucília Gago vai-se embora pelo seu pé, mas deixa um rasto de destruição na política e na Justiça.

 

5. Há quem tenha também a tentação de atribuir ao Presidente da República a responsabilidade da situação criada pelo resultado eleitoral. É injusto! Em primeiro lugar porque em Portugal não temos a prática de mudar de primeiro-ministro sem ir a eleições primeiro, como sucede em Inglaterra ou em França. Depois porque se Marcelo tivesse aceitado a ideia de nomear Mário Centeno para chefe do governo ter-se-ia criado uma agitação política insuportável por falta de legitimidade eleitoral. Foi isso que sucedeu quando Jorge Sampaio optou por aceitar uma substituição de Barroso por Santana Lopes sem ida às urnas. No presente esse argumento não existe.

 

6. As eleições portuguesas nada afetam o contexto internacional. Somos um país com pouco peso e alinhamos com as forças defensoras dos valores ocidentais. Foi assim mesmo com a geringonça, apesar de o PCP e o Bloco serem anti-NATO e propagandistas da paz de Putin, que invade fazendo-se de vítima. No conflito entre Israel e o Hamas também alinhamos pelo diapasão geral de reclamar o que se sabe que nem judeus nem árabes querem: a existência de dois estados. Cada um quer o seu e aniquilar o outro. O contexto geral de alta tensão torna o futuro incerto e a economia uma incógnita. Na campanha eleitoral toda a envolvente internacional foi ignorada. Mas há que ter a noção de que estamos condicionados pela evolução destes conflitos e que, com a fragilidade do próximo governo, contaremos ainda menos.

 

7. Deixando a política, há dois casos recentes que levam a uma óbvia interrogação sobre a forma como se julga em Portugal. Num deles, um médico ilibado em primeira instância acabou por ser condenado na Relação de Lisboa a uma pena firme de sete anos e meio de cadeia, por supostamente não ter assistido dois jovens militares na prova zero de admissão aos Comandos. Como justificar critérios tão díspares? Tanto mais que os factos são os mesmos. E como entender que um pai que violou doze vezes a filha menor, com 14 anos, não vá preso e tenha apenas de pagar-lhe uma indemnização de 5 mil euros? Não é só no Ministério Público que se deve mexer!

Vendaval eleitoral mudou tudo


A direita ganha largamente, mas não se entende. PS pode manter-se o maior partido e mesmo reclamar a formação de governo. Voto emigrante tem peso acrescido.


Nota prévia: Como é evidente, boa parte dos 100 mil votos do ADN, um partido ligado aos adventistas, pertence à Aliança Democrática (AD). O problema é que agora não há nada a fazer. Mas antes havia, se alguém na AD tivesse levado a sério os alertas que foram escritos e ditos na comunicação social. O jornal Tal&Qual até fez manchete do assunto. E o Nascer do SOL também tratou o tema, abordado igualmente na Renascença. As advertências de Montenegro sobre o ADN foram insuficientes. A culpa é de quem coordenou a campanha no terreno. O trabalho de proximidade junto do eleitorado menos atento falhou. Viu-se por Vila Real e Viseu. Dir-se-á que não evitava a viragem à direita. É verdade. Mas impedia que, neste momento, se saiba apenas que a AD deve ser a mais votada, mas que não é líquido que seja o PSD o maior partido. As coisas só ficarão claras quando se apurarem os resultados da emigração. Foi aliás que António Costa foi proclamar ao Altis no fim da noite eleitoral e que Pedro Nuno Santos ignorou, até para se distanciar do antecessor.

 

1. Apesar do caso ADN, o dado substancial das eleições é a viragem à direita que os portugueses impuseram por via do enorme crescimento do Chega. Não atingiu os almejados 20% que Ventura queria, mas tem mais de um milhão de eleitores, multiplicando o score anterior por quatro. O desenho político do país é agora diferente. Resulta de uma ida às urnas bem participada, com mais 800 mil eleitores. Com os ventos que sopram na Europa onde as direitas crescem ao jeito dos Estados Unidos e de países como a Argentina, é inútil pensar que o Chega soçobrará mais adiante como sucedeu ao PRD. O Chega confirmou ser um fenómeno profundo que os jornalistas, o “comentariado” e os “sondadores” desprezaram. Afinal quem mais acertou na tendência global foi o Nascer do SOL na sua manchete de sexta-feira passada. Não se pode transformar os desejos ocultos em realidade porque ela impõe-se. Tem sido assim em países como a França, a Alemanha, a Hungria, a Polónia e a Itália e a Holanda. Questões como a imigração e a falta de projeto para os jovens são cruciais e não vale a pena escondê-las. Tal como a preocupação dos pensionistas. A bolha político-mediática não percebeu o que vinha aí. Ventura está para ficar.

 

2. Luís Montenegro deve ser indigitado primeiro-ministro numa situação de fragilidade inédita em Portugal. Com grande dignidade, o líder da AD e do PSD reafirmou que palavra dada é palavra honrada. Por isso, não vai procurar o apoio do Chega, se for convidado a formar governo. Montenegro ficará dependente de muitas coisas, começando por um improvável ataque interno vindo do PSD por quem defenda um acordo com o Chega. Fica também nas mãos de uma rutura da AD ou mesmo de um desentendimento com os deputados da Madeira. Raramente houve uma conjuntura tão complexa e um governo tão frágil à partida, dependendo tanto do Chega como do PS. Mas se há coisa que Montenegro tem mostrado é uma notável capacidade de resiliência serena que vai ter de manter. O Presidente Marcelo tem a missão espinhosa de decidir da indigitação do primeiro-ministro. Depois de ouvir os partidos, é mais ou menos óbvio que vai ter de ponderar muito bem. A lógica tende para o convite a Montenegro. Todavia não é, repete-se, uma evidência que o PSD seja o maior partido em termos de deputados. A AD dissolveu-se domingo. Se no fim for o PS a formação com mais assentos nada impede que o convite seja dirigido a Pedro Nuno Santos, o qual deseja tudo menos isso nesta altura, como claramente expôs na noite eleitoral, libertando de António Costa. Nesta altura, enquanto não se sabe o resultado da emigração, o PSD tem menos um deputado do que o PS (76 contra 77). Só é maioritário contando com o CDS, ou seja, em AD. Ora, há uns anos, em 2015, o constitucionalista Vital Moreira lembrou que as coligações não têm identidade política própria, que quem forma governo são os partidos e que sempre foi chamado a formar governo o líder do maior partido parlamentar. De referir que essa perspetiva foi referida nestas “Rédeas Soltas”. O líder socialista sabe isso melhor do que ninguém, mas é evidente que o cenário não lhe interessa, dado que a direita é agora largamente maioritária, apesar de não se entender entre si. Montenegro e Pedro Nuno Santos acabam por estar dependentes um do outro.

 

3. Como se vê, o voto emigrante é importante. Desde logo porque pode definir o maior partido e porque é mesmo de considerar que o Chega ganhe mais um deputado ao PS. Até pode ser Santos Silva que tanto contribuiu para inchar o Chega. Não deixava de ter o seu quê de irónico. Mas há uma questão substancial sobre esse voto. Tem a ver com a forma como é exercido, muitas vezes em condições duvidosas. Umas por não haver sequer a possibilidade de votar. Outras porque há confusão no apuramento quanto à forma como o voto é associado à identificação. Sendo recorrente, a situação mostra a clara impreparação da classe política, nomeadamente dos partidos dominantes.

 

4. Qualquer interpretação que se faça do resultado eleitoral, uma coisa é certa: todo o processo foi desencadeado por uma suspeição lançada pela Procuradora-Geral da República sobre a honorabilidade do primeiro-ministro, António Costa. E isso não está provado nem minimamente indiciado. Pelo contrário. Não é por aí, no entanto, que o resultado eleitoral é menos aceitável. Desde logo porque foi o próprio António Costa que se apressou a admitir que não tinha condições para se manter em funções. Agora, porém, nada impedirá o PS de dizer que foi espoliado, enquanto não houver uma acusação substancial, o que não parece estar para acontecer. Não pode haver poderes irresponsáveis. Lucília Gago vai-se embora pelo seu pé, mas deixa um rasto de destruição na política e na Justiça.

 

5. Há quem tenha também a tentação de atribuir ao Presidente da República a responsabilidade da situação criada pelo resultado eleitoral. É injusto! Em primeiro lugar porque em Portugal não temos a prática de mudar de primeiro-ministro sem ir a eleições primeiro, como sucede em Inglaterra ou em França. Depois porque se Marcelo tivesse aceitado a ideia de nomear Mário Centeno para chefe do governo ter-se-ia criado uma agitação política insuportável por falta de legitimidade eleitoral. Foi isso que sucedeu quando Jorge Sampaio optou por aceitar uma substituição de Barroso por Santana Lopes sem ida às urnas. No presente esse argumento não existe.

 

6. As eleições portuguesas nada afetam o contexto internacional. Somos um país com pouco peso e alinhamos com as forças defensoras dos valores ocidentais. Foi assim mesmo com a geringonça, apesar de o PCP e o Bloco serem anti-NATO e propagandistas da paz de Putin, que invade fazendo-se de vítima. No conflito entre Israel e o Hamas também alinhamos pelo diapasão geral de reclamar o que se sabe que nem judeus nem árabes querem: a existência de dois estados. Cada um quer o seu e aniquilar o outro. O contexto geral de alta tensão torna o futuro incerto e a economia uma incógnita. Na campanha eleitoral toda a envolvente internacional foi ignorada. Mas há que ter a noção de que estamos condicionados pela evolução destes conflitos e que, com a fragilidade do próximo governo, contaremos ainda menos.

 

7. Deixando a política, há dois casos recentes que levam a uma óbvia interrogação sobre a forma como se julga em Portugal. Num deles, um médico ilibado em primeira instância acabou por ser condenado na Relação de Lisboa a uma pena firme de sete anos e meio de cadeia, por supostamente não ter assistido dois jovens militares na prova zero de admissão aos Comandos. Como justificar critérios tão díspares? Tanto mais que os factos são os mesmos. E como entender que um pai que violou doze vezes a filha menor, com 14 anos, não vá preso e tenha apenas de pagar-lhe uma indemnização de 5 mil euros? Não é só no Ministério Público que se deve mexer!