Cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados


Observo que neste período pós-pandémico nos encontramos cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados e muitos colegas saem diariamente do SNS para o setor privado ou emigram, à procura de melhores remunerações e condições de trabalho. 


O Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal garante o direito dos cidadãos a cuidados de saúde universais, independentemente do estatuto social, situação económica ou localização geográfica. Apesar do esforço maciço e supremo dos profissionais de saúde do SNS, incluindo médicos, no combate à pandemia, no processo de vacinação e na recuperação da atividade não-covid, as condições de trabalho deterioraram-se ainda mais.

Em comparação com o período pré-pandémico, a prestação de cuidados de saúde à população falhou ainda mais. Nos cuidados de saúde primários (CSP), os cidadãos sem médico de família aumentaram para 1,7M (17% da população). A urgência dos serviços de Obstetrícia e Ginecologia têm sido encerradas nos últimos doze meses, sendo as utentes reencaminhadas para outras unidades do SNS e afastadas da sua área de residência. A urgência pediátrica também teve de ser reorganizada devido à carência de médicos. Entre outras falhas em consultas e atrasos nas cirurgias, com aumento dos tempos de espera na cirurgia.

Como médica a trabalhar exclusivamente no SNS observo que neste período pós-pandémico nos encontramos cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados e muitos colegas saem diariamente do SNS para o setor privado ou emigram, à procura de melhores remunerações e condições de trabalho. E é com muita tristeza que observo essa situação de abandono, quer dos médicos mais velhos e experientes, que lideram equipas, quer dos jovens que não veem qualquer esperança num projeto profissional para poderem prestar um ato médico de qualidade aos utentes e doentes. Anualmente, os médicos do SNS fazem cerca de 8 milhões de horas extraordinárias, com uma média de 300 horas por médico, o dobro do valor previsto na Lei. Os médicos, além de verem doentes, precisam de participar em atividades de formação e investigação, e precisam acima de tudo de poderem conciliar a profissão com a vida pessoal, familiar e com a parentalidade, tão prejudicada
no dia-a-dia.

Infelizmente, as negociações dos sindicatos médicos com o Ministério da Saúde (MS) duram há 14 meses, estamos prestes a terminar a data do protocolo negocial, a 30 de junho, mas não há propostas concretas por parte do MS para fixar médicos no SNS. Se o Dr. Manuel Pizarro olhasse de forma séria e com boa-fé para as propostas que a FNAM lhe tem enviado, teríamos hoje grelhas salariais justas e condições de trabalho dignas, já não haveria necessidade de recorrer a excesso de horas extra para assegurar serviços de urgência, pois teríamos mais médicos no SNS, quer a nível dos CSP quer a nível hospitalar. Por fim, poderíamos garantir acesso e prestar melhores cuidados de saúde à população.

 

Presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e Assistente Hospitalar Graduada / IPO do Porto

Cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados


Observo que neste período pós-pandémico nos encontramos cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados e muitos colegas saem diariamente do SNS para o setor privado ou emigram, à procura de melhores remunerações e condições de trabalho. 


O Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal garante o direito dos cidadãos a cuidados de saúde universais, independentemente do estatuto social, situação económica ou localização geográfica. Apesar do esforço maciço e supremo dos profissionais de saúde do SNS, incluindo médicos, no combate à pandemia, no processo de vacinação e na recuperação da atividade não-covid, as condições de trabalho deterioraram-se ainda mais.

Em comparação com o período pré-pandémico, a prestação de cuidados de saúde à população falhou ainda mais. Nos cuidados de saúde primários (CSP), os cidadãos sem médico de família aumentaram para 1,7M (17% da população). A urgência dos serviços de Obstetrícia e Ginecologia têm sido encerradas nos últimos doze meses, sendo as utentes reencaminhadas para outras unidades do SNS e afastadas da sua área de residência. A urgência pediátrica também teve de ser reorganizada devido à carência de médicos. Entre outras falhas em consultas e atrasos nas cirurgias, com aumento dos tempos de espera na cirurgia.

Como médica a trabalhar exclusivamente no SNS observo que neste período pós-pandémico nos encontramos cada vez mais desmotivados, desanimados, esgotados e muitos colegas saem diariamente do SNS para o setor privado ou emigram, à procura de melhores remunerações e condições de trabalho. E é com muita tristeza que observo essa situação de abandono, quer dos médicos mais velhos e experientes, que lideram equipas, quer dos jovens que não veem qualquer esperança num projeto profissional para poderem prestar um ato médico de qualidade aos utentes e doentes. Anualmente, os médicos do SNS fazem cerca de 8 milhões de horas extraordinárias, com uma média de 300 horas por médico, o dobro do valor previsto na Lei. Os médicos, além de verem doentes, precisam de participar em atividades de formação e investigação, e precisam acima de tudo de poderem conciliar a profissão com a vida pessoal, familiar e com a parentalidade, tão prejudicada
no dia-a-dia.

Infelizmente, as negociações dos sindicatos médicos com o Ministério da Saúde (MS) duram há 14 meses, estamos prestes a terminar a data do protocolo negocial, a 30 de junho, mas não há propostas concretas por parte do MS para fixar médicos no SNS. Se o Dr. Manuel Pizarro olhasse de forma séria e com boa-fé para as propostas que a FNAM lhe tem enviado, teríamos hoje grelhas salariais justas e condições de trabalho dignas, já não haveria necessidade de recorrer a excesso de horas extra para assegurar serviços de urgência, pois teríamos mais médicos no SNS, quer a nível dos CSP quer a nível hospitalar. Por fim, poderíamos garantir acesso e prestar melhores cuidados de saúde à população.

 

Presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e Assistente Hospitalar Graduada / IPO do Porto