O sofrimento não se vê apenas, sente-se


Pergunto-me muitas vezes se as pessoas que conhecemos na Ucrânia ainda estão vivas, como estarão neste momento e será que vão sobreviver? Até quando?


Sempre achei que, quando a guerra na Ucrânia fizesse 365 dias, iria fazer uma reflexão por escrito, que iria tomar a iniciativa de escrever, mas não o fiz. Não consegui. Porque fazê-lo implica sempre uma espécie de catarse. Implica recordar emoções que geram sofrimento. Faço-o apenas agora, porque fui desafiada a fazê-lo e porque defendo que não nos devemos tomar pelo cansaço psicológico que a guerra nos impõe.

Há 12 meses que a guerra é tema diário das nossas vidas, na vida de todos. Seja de quem vê televisão, seja de quem trabalha em televisão. É o tema da guerra que domina grande parte das nossas horas de trabalho, de análise e de debate em estúdio. Há muito tempo que, inconsciente, deixei de ver as imagens e os sons dos últimos ataques, da destruição, do sofrimento. Dedico grande parte do meu dia a ler sobre a guerra, mas não a ver guerra. Mas só no preciso dia em que a invasão completou um ano é que me apercebi que o faço, que evito ver. Nesse dia, dei por mim a assistir às peças televisivas, que resumiam os momentos mais simbólicos dos últimos 12 meses e voltei a chorar. As lágrimas caiam-me, sem que as pudesse controlar.

Tenho certo que não é preciso ir à guerra para perceber, compreender o sofrimento do outro. Mas quando se está na guerra o sofrimento não se vê apenas, sente-se. E pouco ou nada podemos fazer, sentimo-nos impotentes e questionamo-nos como é que, depois de uma reportagem, nos vamos embora, sem nada fazermos para melhorar a vida daquelas pessoas e como vamos lidar com uma dúvida constante sobre se as pessoas que conhecemos vão estar vivas nos momentos que se seguem, nos próximos dias ou nas próximas semanas. Pergunto-me muitas vezes se as pessoas que conhecemos na Ucrânia ainda estão vivas, como estarão neste momento e será que vão sobreviver? Até quando?

E se hoje, aqui estou a escrever, é porque defendo que, a nós, jornalistas, cabe-nos não silenciar o sofrimento que presenciamos. Essa será sempre a nossa maior luta.

Perguntam-me muitas vezes o que sentimos quando eu e o Nuno Machado Mendes estávamos a ser atacados, alvos da artilharia pesada da Rússia, muito perto da fronteira de Kherson, na altura tomada pelas forças de Moscovo. Percebo a pergunta, porque visto à distância, parece ter sido o momento mais difícil das longas semanas que estive na Ucrânia. Mas não foi. Naquela dia, estávamos em reportagem numa localidade que já tinha sido atacada e que voltou a ser, no preciso dia em que lá estávamos. Os destroços da artilharia pesada caíram a poucos metros de distância. Eu e o Nuno temos hoje, em nossas casas, uma pedaço daquilo que nos podia ter matado, ou tirado uma perna ou um braço. Nada de grave nos aconteceu, nem à mulher que nesse dia nos dava uma entrevista, quando começou o ataque.

Tenho a certeza que eu e o Nuno Machado Mendes nunca mais na vida nos iremos esquecer desse dia, nunca nos esqueceremos dessa reportagem e sempre nos iremos lembrar da Nathalia, a mulher que generosamente nos deu a entrevista e que durante o ataque esteve sempre a nosso lado a rezar.

Mas este não foi o pior momento. O pior é ver o sofrimento e fragilidade do ser humano perante um ataque que não percebemos. Pior é lidar com a injustiça de ver pessoas, sem culpa, a morrer ao nosso lado.

 

Jornalista TVI/CNN

O sofrimento não se vê apenas, sente-se


Pergunto-me muitas vezes se as pessoas que conhecemos na Ucrânia ainda estão vivas, como estarão neste momento e será que vão sobreviver? Até quando?


Sempre achei que, quando a guerra na Ucrânia fizesse 365 dias, iria fazer uma reflexão por escrito, que iria tomar a iniciativa de escrever, mas não o fiz. Não consegui. Porque fazê-lo implica sempre uma espécie de catarse. Implica recordar emoções que geram sofrimento. Faço-o apenas agora, porque fui desafiada a fazê-lo e porque defendo que não nos devemos tomar pelo cansaço psicológico que a guerra nos impõe.

Há 12 meses que a guerra é tema diário das nossas vidas, na vida de todos. Seja de quem vê televisão, seja de quem trabalha em televisão. É o tema da guerra que domina grande parte das nossas horas de trabalho, de análise e de debate em estúdio. Há muito tempo que, inconsciente, deixei de ver as imagens e os sons dos últimos ataques, da destruição, do sofrimento. Dedico grande parte do meu dia a ler sobre a guerra, mas não a ver guerra. Mas só no preciso dia em que a invasão completou um ano é que me apercebi que o faço, que evito ver. Nesse dia, dei por mim a assistir às peças televisivas, que resumiam os momentos mais simbólicos dos últimos 12 meses e voltei a chorar. As lágrimas caiam-me, sem que as pudesse controlar.

Tenho certo que não é preciso ir à guerra para perceber, compreender o sofrimento do outro. Mas quando se está na guerra o sofrimento não se vê apenas, sente-se. E pouco ou nada podemos fazer, sentimo-nos impotentes e questionamo-nos como é que, depois de uma reportagem, nos vamos embora, sem nada fazermos para melhorar a vida daquelas pessoas e como vamos lidar com uma dúvida constante sobre se as pessoas que conhecemos vão estar vivas nos momentos que se seguem, nos próximos dias ou nas próximas semanas. Pergunto-me muitas vezes se as pessoas que conhecemos na Ucrânia ainda estão vivas, como estarão neste momento e será que vão sobreviver? Até quando?

E se hoje, aqui estou a escrever, é porque defendo que, a nós, jornalistas, cabe-nos não silenciar o sofrimento que presenciamos. Essa será sempre a nossa maior luta.

Perguntam-me muitas vezes o que sentimos quando eu e o Nuno Machado Mendes estávamos a ser atacados, alvos da artilharia pesada da Rússia, muito perto da fronteira de Kherson, na altura tomada pelas forças de Moscovo. Percebo a pergunta, porque visto à distância, parece ter sido o momento mais difícil das longas semanas que estive na Ucrânia. Mas não foi. Naquela dia, estávamos em reportagem numa localidade que já tinha sido atacada e que voltou a ser, no preciso dia em que lá estávamos. Os destroços da artilharia pesada caíram a poucos metros de distância. Eu e o Nuno temos hoje, em nossas casas, uma pedaço daquilo que nos podia ter matado, ou tirado uma perna ou um braço. Nada de grave nos aconteceu, nem à mulher que nesse dia nos dava uma entrevista, quando começou o ataque.

Tenho a certeza que eu e o Nuno Machado Mendes nunca mais na vida nos iremos esquecer desse dia, nunca nos esqueceremos dessa reportagem e sempre nos iremos lembrar da Nathalia, a mulher que generosamente nos deu a entrevista e que durante o ataque esteve sempre a nosso lado a rezar.

Mas este não foi o pior momento. O pior é ver o sofrimento e fragilidade do ser humano perante um ataque que não percebemos. Pior é lidar com a injustiça de ver pessoas, sem culpa, a morrer ao nosso lado.

 

Jornalista TVI/CNN