Silêncios e algazarras


Matérias gravíssimas são silenciadas enquanto outras são empoladas.


Nota prévia: contrastando com certas algazarras político-sociais da paróquia nacional, há estranhos silêncios que são fruto de uma sintonia entre governantes, financeiros e reguladores à volta de algo que devia ser exposto claramente. Vem isto a propósito da Associação Mutualista Montepio Geral, cuja assembleia de representantes, pela calada da noite de 28 de dezembro 2022, tomou decisões que envolvem poupanças de 600 mil associados, sem que haja notícia do facto, nem mesmo no sítio da organização. Dessa reunião resultou o assumir de 1.325 milhões de euros de prejuízos, por redução do capital do banco e da seguradora Lusitânia, o que, segundo fontes internas, pode corresponder a 40% dos compromissos com os associados. Para os dirigentes, a situação está sob controle, mas há quem assegure que o património da Associação só cobre metade das responsabilidades face aos associados. Assim sendo, há quem recorde que a Santa Casa da Misericórdia poderia nesta altura ter perdido 100 milhões de euros se tivesse entrado com 200 milhões para o capital do Banco Montepio, coisa que foi fundamentalmente travada pela intervenção pública de Bagão Félix e de Anacoreta Correia. Em boa hora!

1. Fez ontem um ano que António Costa conseguiu para o PS uma inesperada maioria absoluta. Numa penada livrou-se da dependência dos partidos à sua esquerda e livrou a política de Rui Rio e de Rodrigues dos Santos. O que não conseguiu desde então é governar minimamente o país. Construiu o pior Governo de que há memória desde Vasco Gonçalves, um louco perigoso. Um ano depois da vitória, a credibilidade de Costa esfuma-se no meio de uma multiplicação de casos que misturam endogamia, compadrios, corrupção, incompetência e imobilismo. Curiosamente, o desgaste de Costa e do PS resultou sobretudo da ação dos média mais do que das oposições. Mesmo assim, o Governo ainda não está podre ao ponto de cair. Mas lá que está a ficar muito maduro, está!

2. Desde há três anos que se chamou, regularmente, aqui, a atenção para o atraso na preparação das Jornadas Mundiais da Juventude. De repente não se fala de outra coisa. As jornadas devem trazer mais de um milhão de pessoas e vão tornar Lisboa no altar do mundo por uns dias, conferindo ao país uma enorme visibilidade. Importa refletir sobre ela em vários planos. Por um lado, o evento religioso. Sendo um Estado laico, Portugal é um país de católicos e uma referência na evangelização de parte da Humanidade. Acolher as jornadas é mais uma das muitas consagrações da nação. Mesmo um não crente deve ver nisso motivo de orgulho. O evento acarreta responsabilidade e uma gigantesca logística. Aí, manifestamente, as coisas têm de ser afinadas. A Igreja há muito que está a mobilizar voluntários para apoiarem os peregrinos que virão de todo o mundo e ficarão normalmente uma semana. Já do lado do Estado não se vê grande coisa. Nada se sabe quanto às articulações entre todas as centenas de valências que o evento pressupõe e que vão do apoio na saúde, aos transportes, à funcionalidade dos aeroportos e da ferrovia, passando pelo acolhimento. Tudo sem descurar a segurança interna nas suas várias vertentes, desde logo a antiterrorista. Tão pouco se sabe se o Governo e as forças sociais estão disponíveis para fazer um pacto que evite o caos, por via de greves estrategicamente convocadas por altura do evento. Está em causa a imagem de Portugal, que fica manchada pela patente descoordenação e pelas notícias recentes sobre custos, parte dos quais se destinam a obras que perdurarão e que, portanto, deveriam ser bons investimentos e não gastos descontrolados. É já óbvio que o altar/palco gigante e fixo vai tornar-se numa inutilidade. Dificilmente faz sentido a sua monumentalidade para utilizações polivalentes futuras. É um ponto a repensar e não apenas por uma questão de custo. Tem sobretudo a ver com a sua improvável reutilização noutras oportunidades. De certeza que para a Web Summit não vai servir, visto que se realiza em novembro e em recinto fechado. Também nunca fez sentido descentralizar as jornadas para a Alameda da Fonte Luminosa ou o Parque Eduardo VII. A concentração no futuro Parque Tejo é o que faz sentido. À boa maneira portuguesa, a organização foi-se arrastando e crescendo. Agora é tudo a mata-cavalos e por adjudicação direta. Fala-se em milhões de retorno. São bitaites e não estudos. De resto, olhar para este evento numa perspetiva de custo/benefício é desvirtuar a sua essência religiosa e espiritual. As jornadas não são um festival de música com cerveja a rodos. Lateralmente, a sua localização é uma oportunidade para requalificar, descontaminar e arborizar uma vasta zona de 100 hectares que possibilita a Loures (que não é Lisboa, senhores regionalistas do Norte) ter finalmente uma merecida frente para o Tejo. As jornadas são, portanto, uma oportunidade urbanística e ambiental. No ponto em que estamos, há que avançar, minorando erros detetados e controlando derrapagens. O mais lamentável nisto é ver tanta gente a sacudir a água do capote. Não vale a pena citar nomes porque são rigorosamente todos os que há três anos explodiram de alegria. Menos mal têm estado os autarcas presidentes de Lisboa e de Loures, eleitos já depois da decisão. Agora é tempo de erguer estruturas e designar quem coordene no terreno em termos funcionais e logísticos, sem necessariamente ter de ser um almirante, como cada vez mais populares defendem em qualquer café ou esquina. E que Deus dê paciência e saúde ao Papa Francisco para vir mesmo até cá.

3. Na política partidária o Chega soma e segue. Depois de sondagens que o trazem para patamares que lhe permitem sonhar com 20% em futuras legislativas, Ventura foi reeleito à moda Ceausescu em mais uma convenção. O caudilho é ele e mais ninguém. Quanto ao discurso mantém-se o mesmo. Diz aos gritos aquilo com que todos concordam: é preciso combater a corrupção, a criminalidade violenta, evitar a imigração desorganizada, evitar o parasitismo social, melhorar as condições dos mais pobres, não martirizar as classes médias e vigiar os grandes capitalistas. Tudo isto melhorando a saúde pública, a eficácia da justiça e combatendo a distribuição de tachos no Estado. Não falta nada no cardápio de Ventura. É genericamente igual ao do Bloco. O populismo sempre foi simples: promete-se tudo a todos, até chegar ao poder. Já faltou mais. 

4. É triste ver o ponto de degradação em que estão as nossas Forças Armadas. Os blindados Leopard estão na sua maioria avariados ou limitados operacionalmente. Passamos pela vergonha mundial de não mandarmos um único para a Ucrânia. Na TVI, José Eduardo Moniz lembrou-nos há dias que alguns dos nossos navios de guerra não têm canhões (!!!). Isto, há mais de 5 anos. O yacht do português Abramovich deve estar mais bem armado do que alguns dos nossos NRP! A propósito sabe-se que os ucranianos já fizeram saber que não querem os Kamov avariados que lhes queríamos oferecer. Cangalhos não lhes faltam! 

5. É gravíssimo o caso do Hospital Militar de Belém que está fechado e onde se investiram para nada quatro milhões de euros durante a pandemia. Era, entretanto, oportuno saber quanto se gastou e por onde andam os ventiladores que, na altura, Portugal importou a correr da China, parte dos quais não funcionavam ou tinham instruções em mandarim. Alguém sabe?

6. Segundo os pilotos, o ministro Galamba, que tutela o setor, abandonou inopinadamente uma reunião ao fim de cinco minutos. Um verdadeiro diabrete este socrático João que inevitavelmente nos faz lembrar um certo traquinas das anedotas.

7. O historiador João Pedro Marques lançou um livro que reúne algumas das suas crónicas. Vale a pena ler esta coletânea de combate aos apologistas e praticantes do politicamente correto, que infernizam a vida e a lógica da sociedade, lançando verdadeiras fatwas, ao jeito do islamismo radical. Descobrimentos e Outras Ideias Incorretas é um manual do bom senso e da verdade histórica. Muito útil para discussões com extremistas acéfalos.

Silêncios e algazarras


Matérias gravíssimas são silenciadas enquanto outras são empoladas.


Nota prévia: contrastando com certas algazarras político-sociais da paróquia nacional, há estranhos silêncios que são fruto de uma sintonia entre governantes, financeiros e reguladores à volta de algo que devia ser exposto claramente. Vem isto a propósito da Associação Mutualista Montepio Geral, cuja assembleia de representantes, pela calada da noite de 28 de dezembro 2022, tomou decisões que envolvem poupanças de 600 mil associados, sem que haja notícia do facto, nem mesmo no sítio da organização. Dessa reunião resultou o assumir de 1.325 milhões de euros de prejuízos, por redução do capital do banco e da seguradora Lusitânia, o que, segundo fontes internas, pode corresponder a 40% dos compromissos com os associados. Para os dirigentes, a situação está sob controle, mas há quem assegure que o património da Associação só cobre metade das responsabilidades face aos associados. Assim sendo, há quem recorde que a Santa Casa da Misericórdia poderia nesta altura ter perdido 100 milhões de euros se tivesse entrado com 200 milhões para o capital do Banco Montepio, coisa que foi fundamentalmente travada pela intervenção pública de Bagão Félix e de Anacoreta Correia. Em boa hora!

1. Fez ontem um ano que António Costa conseguiu para o PS uma inesperada maioria absoluta. Numa penada livrou-se da dependência dos partidos à sua esquerda e livrou a política de Rui Rio e de Rodrigues dos Santos. O que não conseguiu desde então é governar minimamente o país. Construiu o pior Governo de que há memória desde Vasco Gonçalves, um louco perigoso. Um ano depois da vitória, a credibilidade de Costa esfuma-se no meio de uma multiplicação de casos que misturam endogamia, compadrios, corrupção, incompetência e imobilismo. Curiosamente, o desgaste de Costa e do PS resultou sobretudo da ação dos média mais do que das oposições. Mesmo assim, o Governo ainda não está podre ao ponto de cair. Mas lá que está a ficar muito maduro, está!

2. Desde há três anos que se chamou, regularmente, aqui, a atenção para o atraso na preparação das Jornadas Mundiais da Juventude. De repente não se fala de outra coisa. As jornadas devem trazer mais de um milhão de pessoas e vão tornar Lisboa no altar do mundo por uns dias, conferindo ao país uma enorme visibilidade. Importa refletir sobre ela em vários planos. Por um lado, o evento religioso. Sendo um Estado laico, Portugal é um país de católicos e uma referência na evangelização de parte da Humanidade. Acolher as jornadas é mais uma das muitas consagrações da nação. Mesmo um não crente deve ver nisso motivo de orgulho. O evento acarreta responsabilidade e uma gigantesca logística. Aí, manifestamente, as coisas têm de ser afinadas. A Igreja há muito que está a mobilizar voluntários para apoiarem os peregrinos que virão de todo o mundo e ficarão normalmente uma semana. Já do lado do Estado não se vê grande coisa. Nada se sabe quanto às articulações entre todas as centenas de valências que o evento pressupõe e que vão do apoio na saúde, aos transportes, à funcionalidade dos aeroportos e da ferrovia, passando pelo acolhimento. Tudo sem descurar a segurança interna nas suas várias vertentes, desde logo a antiterrorista. Tão pouco se sabe se o Governo e as forças sociais estão disponíveis para fazer um pacto que evite o caos, por via de greves estrategicamente convocadas por altura do evento. Está em causa a imagem de Portugal, que fica manchada pela patente descoordenação e pelas notícias recentes sobre custos, parte dos quais se destinam a obras que perdurarão e que, portanto, deveriam ser bons investimentos e não gastos descontrolados. É já óbvio que o altar/palco gigante e fixo vai tornar-se numa inutilidade. Dificilmente faz sentido a sua monumentalidade para utilizações polivalentes futuras. É um ponto a repensar e não apenas por uma questão de custo. Tem sobretudo a ver com a sua improvável reutilização noutras oportunidades. De certeza que para a Web Summit não vai servir, visto que se realiza em novembro e em recinto fechado. Também nunca fez sentido descentralizar as jornadas para a Alameda da Fonte Luminosa ou o Parque Eduardo VII. A concentração no futuro Parque Tejo é o que faz sentido. À boa maneira portuguesa, a organização foi-se arrastando e crescendo. Agora é tudo a mata-cavalos e por adjudicação direta. Fala-se em milhões de retorno. São bitaites e não estudos. De resto, olhar para este evento numa perspetiva de custo/benefício é desvirtuar a sua essência religiosa e espiritual. As jornadas não são um festival de música com cerveja a rodos. Lateralmente, a sua localização é uma oportunidade para requalificar, descontaminar e arborizar uma vasta zona de 100 hectares que possibilita a Loures (que não é Lisboa, senhores regionalistas do Norte) ter finalmente uma merecida frente para o Tejo. As jornadas são, portanto, uma oportunidade urbanística e ambiental. No ponto em que estamos, há que avançar, minorando erros detetados e controlando derrapagens. O mais lamentável nisto é ver tanta gente a sacudir a água do capote. Não vale a pena citar nomes porque são rigorosamente todos os que há três anos explodiram de alegria. Menos mal têm estado os autarcas presidentes de Lisboa e de Loures, eleitos já depois da decisão. Agora é tempo de erguer estruturas e designar quem coordene no terreno em termos funcionais e logísticos, sem necessariamente ter de ser um almirante, como cada vez mais populares defendem em qualquer café ou esquina. E que Deus dê paciência e saúde ao Papa Francisco para vir mesmo até cá.

3. Na política partidária o Chega soma e segue. Depois de sondagens que o trazem para patamares que lhe permitem sonhar com 20% em futuras legislativas, Ventura foi reeleito à moda Ceausescu em mais uma convenção. O caudilho é ele e mais ninguém. Quanto ao discurso mantém-se o mesmo. Diz aos gritos aquilo com que todos concordam: é preciso combater a corrupção, a criminalidade violenta, evitar a imigração desorganizada, evitar o parasitismo social, melhorar as condições dos mais pobres, não martirizar as classes médias e vigiar os grandes capitalistas. Tudo isto melhorando a saúde pública, a eficácia da justiça e combatendo a distribuição de tachos no Estado. Não falta nada no cardápio de Ventura. É genericamente igual ao do Bloco. O populismo sempre foi simples: promete-se tudo a todos, até chegar ao poder. Já faltou mais. 

4. É triste ver o ponto de degradação em que estão as nossas Forças Armadas. Os blindados Leopard estão na sua maioria avariados ou limitados operacionalmente. Passamos pela vergonha mundial de não mandarmos um único para a Ucrânia. Na TVI, José Eduardo Moniz lembrou-nos há dias que alguns dos nossos navios de guerra não têm canhões (!!!). Isto, há mais de 5 anos. O yacht do português Abramovich deve estar mais bem armado do que alguns dos nossos NRP! A propósito sabe-se que os ucranianos já fizeram saber que não querem os Kamov avariados que lhes queríamos oferecer. Cangalhos não lhes faltam! 

5. É gravíssimo o caso do Hospital Militar de Belém que está fechado e onde se investiram para nada quatro milhões de euros durante a pandemia. Era, entretanto, oportuno saber quanto se gastou e por onde andam os ventiladores que, na altura, Portugal importou a correr da China, parte dos quais não funcionavam ou tinham instruções em mandarim. Alguém sabe?

6. Segundo os pilotos, o ministro Galamba, que tutela o setor, abandonou inopinadamente uma reunião ao fim de cinco minutos. Um verdadeiro diabrete este socrático João que inevitavelmente nos faz lembrar um certo traquinas das anedotas.

7. O historiador João Pedro Marques lançou um livro que reúne algumas das suas crónicas. Vale a pena ler esta coletânea de combate aos apologistas e praticantes do politicamente correto, que infernizam a vida e a lógica da sociedade, lançando verdadeiras fatwas, ao jeito do islamismo radical. Descobrimentos e Outras Ideias Incorretas é um manual do bom senso e da verdade histórica. Muito útil para discussões com extremistas acéfalos.