Brasil. A história do mendigo que agora é #Mendilove

Brasil. A história do mendigo que agora é #Mendilove


Givaldo Alves de Souza viu a sua vida dar um giro de 180.º, em menos de um mês. O antigo sem-abrigo foi apanhado a ter relações sexuais com uma mulher, pelo marido da mesma, que o espancou, acusando-o de violação. Entretanto, o ex-mendigo ‘virou’ celebridade, e conta já mais de 550 mil seguidores no TikTok.  


A vida, por vezes, dá voltas inesperadas, e que o diga Givaldo Alves de Souza. Aos 48 anos, o brasileiro – que até há pouco tempo vivia nas ruas da cidade de Planaltina, no Distrito Federal, Brasil – virou celebridade, conta já com mais de 550 mil seguidores na rede social TikTok, e mais de 220 mil no Instagram. Porquê? A razão poderá surpreender. É que Alves de Souza foi abordado, na noite de 9 de março, por uma mulher – Sandra Fernandes – que dirigiu o então sem-abrigo para o seu carro, onde manteve relações sexuais com o mesmo. O marido, o personal trainer Eduardo Alves de Souza, apanhou a mulher em flagrante traição, e fez chover sobre Givaldo socos, pontapés, e muitas lesões, que obrigaram mesmo ao seu internamento. O momento ganhou tração nas redes sociais com a publicação de um vídeo em que se pode ver o opersonal trainer a encontrar a mulher e o sem-abrigo no veículo, em pleno ato sexual. O antigo sem-abrigo está envolvido num inquérito policial, alegando o marido de Sandra Fernandes tratar-se de um caso de violação. A mulher, revelou um laudo médico feito por médicos do Hospital Universitário de Brasília, estava em surto psicótico quando abordou o sem-abrigo e o levou para dentro de seu próprio carro, revelando os profissionais de saúde que apresentava sinais de “transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica”. Nos relatórios, os médicos contam que Sandra deu entrada no hospital psiquiátrico com alucinações auditivas, delírios, hipertimia (alteração de humor), falso reconhecimento e comportamentos desorganizados. É neste âmbito que o seu marido alega que Givaldo Alves de Souza se aproveitou da frágil saúde mental da sua mulher para a violar.

A investigação mantém-se sob sigilo de Justiça, mas Givaldo não aparenta estar preocupado – nem afetado – pela situação. Antes pelo contrário. O brasileiro de 48 anos passou a frequentar discotecas e festas, ganhando rapidamente um grande número de seguidores nas redes sociais, deixando para trás a vida nas ruas graças à visibilidade trazida pelo mediático caso. Isto até porque a notoriedade trazida pelo caso levou a que Givaldo fosse alvo de ameaças, tanto na via pública como nos próprios abrigos públicos da cidade.

As contas do Instagram e do TikTok (cuja descrição é “Apenas mais um mendigo, só que agora famoso…”) são um espelho da mudança radical que o brasileiro tem vivido, surgindo em festas e eventos sociais nas zonas mais ‘elitescas’ do Brasil, e comendo na companhia de influencers brasileiros, em que as chorudas contas no fim do repasto fazem parte dos conteúdos partilhados. Um exemplo foi a presença, no sábado dia 2, na festa open bar do Seu Vidal, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca (Rio de Janeiro). Note-se, no entanto, que Givaldo Alves anunciou ter sido convidado para esta festa quando, na realidade, o antigo sem-abrigo comprou o ingresso para a mesma, negando a organização ter avançado com qualquer convite.

Alves não esconde o seu passado, e até faz uso dele para publicar mensagens motivacionais nas redes sociais, quase sempre acompanhadas pelo hashtag #mendigo, ou então a versão mais longa: #Mendilove. “Ontem recebi um convite para um evento… não imagina que estava tão conhecido…”, pode-se ler numa das publicações, onde surge rodeado de pessoas numa discoteca. O antigo sem-abrigo está a viver uma vida de luxo e fama, cobrando pelo menos 27 dólares (cerca de 25 euros) por fazer um vídeo personalizado, mas com esse novo estilo de vida vêm centenas de comentários de internautas que questionam a atenção dada ao antigo sem-abrigo, e que fazem questão de recordar que o mesmo se encontra sob inquérito por alegada violação. “Sei que tem muita gente indignada e achando que eu não mereço… concordo com você, também acho que não mereço, mas Deus é misericordioso… estamos juntos…”, lê-se noutra publicação, onde o brasileiro surge de charuto em mãos, e a caixa de comentários varia entre quem defende que “o único que pode julgar é Deus”, e entre quem atire: “Esse é o Brasil, aonde o cara pega uma mulher, expõe tudo que aconteceu, e o Brasil aplaude, enquanto o personal trainer perdeu o trampo dele e deve estar com altos problemas”.

Uma vez tornadas públicas as imagens do momento polémico, Givaldo Alves deu uma torrente de entrevistas, onde explicou, em detalhe, as relações sexuais que manteve com Sandra Fernandes. Estas revelações causaram grande polémica, e o brasileiro acabou por fazer um pedido de desculpas público por ter exposto a situação. “Eu [queria] pedir desculpas para aquela moça antes de eu começar a falar disso”, afirmou em entrevista ao político Ricardo Caiafa, no YouTube. “Eu acredito realmente que a importância da mulher é a causa que existimos. Eu sei pela parte que me toca que delas viemos, para elas vivemos, com elas sofremos, e depois morremos, não existe mais nada. Se for ruim com elas, vai ser muito pior sem elas. Essa infelicidade que eu tive ao descrever a situação sem mudar nada, é uma coisa muito feia. Eu me sinto envergonhado. E eu gostaria de pedir desculpas primeiramente à ela, [e depois] às meninas da minha família, à minha mãe, e à todas vocês [mulheres]”, disse.

A 25 de março, o pai de Sandra tinha apresentado uma queixa-crime na 16.ª Delegacia de Polícia (DP) contra Givaldo Alves, pelo crime de difamação. Isto após as declarações do brasileiro à Band TV, onde forneceu detalhes sobre o ato sexual.

 

Das ruas para a fama

Givaldo Alves de Souza não é, no entanto, o primeiro sem-abrigo a encontrar uma via de saída da vida nas ruas na Internet. O caso de James Bowen e do seu gato Bob ficou para sempre imortalizada no livro O Que Aprendi com Bob – Lições de Vida de um Gato de Rua, bem como no filme Um Gato de Rua Chamado Bob.

Corria o ano de 2007 quando Bowen, na altura com 28 anos de idade, vivia nas ruas de Londres, viciado em droga, obtendo rendimento unicamente das vendas da revista Cais (Big Issue, em inglês). Nessa altura, o britânico adotou o pequeno Bob, um gato dourado que passou a acompanhar o sem-abrigo na venda das revistas, chamando a atenção dos transeuntes e valendo a Bowen a alcunha do ‘vendedor do gato’. “Ele deu-me muito mais do que companhia. Com ele ao meu lado, encontrei uma direção, um propósito, coisas que eu não tinha”, escreveu o britânico nas suas redes sociais, em tempos. A relação entre Bowen e o seu gato chegou aos ouvidos de uma editora britânica, que quis imortalizar esta história num livro que viria a ser um sucesso instantâneo em 2014, vendendo milhares de cópias na primeira semana. A história é feliz e valeu a Bowen uma oportunidade de deixar as ruas londrinas.