Sporting-Benfica. Era uma vez na América por dois punhados de dólares

Sporting-Benfica. Era uma vez na América por dois punhados de dólares


O dinheiro levou o dérbi para os Estados Unidos em julho de 1972. Empate no primeiro jogo (2-2), vitória dos encarnados no segundo (3-0).


Um Benfica-Sporting é um daqueles jogos que ninguém gosta de perder, seja lá por que motivo for, seja lá em que lugar for. Em julho de 1972, a comunidade portuguesa queria ver um Benfica-Sporting e o inesquecível Manuel Barbosa, o maior empresário ligado ao futebol na altura, convenceu os dois clubes com uma bela soma em dinheiro para que jogassem no Schaefer Stadium, Foxboro, arredores de Nova Iorque. E o dinheiro manda muito. Mesmo com vários jogadores (principalmente do Benfica) arrasados fisicamente depois de terem jogado, até à semana anterior, a Minicopa, no Brasil, no dia 17 de julho disputou-se o primeiro dérbi em solo americano.

Se de um lado estavam Damas, Pedro Gomes, José Carlos, Hilário, Peres e Yazalde, por exemplo, do outro estavam José Henrique, Humberto Coelho, Jaime Graça, Toni, Nené, Eusébio, Jordão e Artur Jorge. Tudo para que o jogo fosse de excelência e só não o foi por causa de um árbitro chamado Angelo Bratsis que resolveu assumir um protagonismo que, decididamente, não lhe cabia. Estava um calor de rachar catedrais, 43 à sombra, a relva era artificial, o que só atrapalhava, e o resultado final foi de 2-2, com o Sporting a abrir o marcador logo ao minuto sexto por Marinho. Empertigaram-se os encarnados. Eusébio ia disparando de longe e provocando “ohs!” admirativos na multidão. Damas viu Nené surgir-lhe isolado e deitou-o ao chão para que não fosse golo. Acabou por ser, de Eusébio, no penálti correspondente.

Aleija-se o keeper leonino, entra Botelho, quer fazer uma facécia e joga descalço, só em meias, durante uns minutos, até que o árbitro o põe na ordem. Eusébio fez o 2-1 a meio do segundo tempo, mas Bratsis lá entendeu que um jogo assim amigável, só para agradar à populaça, deveria terminar empatado e tratou de ver um penálti sobre Nando. Discutiram os encarnados, mas de nada lhes serviu. Peres empatou e o objetivo cumpriu-se: 40 mil espetadores, 6500 contos de receita. Manuel Barbosa não podia estar mais satisfeito. Até porque a peleja se repetiria daí a dias.

A taça Durante o tempo que mediou entre os dois jogos, a discussão sobre os valores de bilheteira voltou à mesa das negociações. O assunto resolveu-se, mas o segundo encontro chegou a estar ameaçado. Além dos dólares, que eram bastantes, estava em disputa uma taça de alto lá com ela, bonita e valiosa.

Dia 23 não se repetiu o sucesso anterior. Os espetadores ficaram-se pelos 14 mil, e a verba embolsada pelos 1900 contos. O jogo em si foi equilibrado e teve um desfecho desequilibrado: 3-0 para o Benfica. Os encarnados começaram a partida com Eusébio, Nené e Artur Jorge na frente e foram sempre mais rápidos e acutilantes do que os seus rivais. Mas só no segundo tempo, com a entrada de Jordão para o lugar de Artur Jorge, é que conseguiram transformar em golo os lances de maior perigo, até então desperdiçados.

A 20 minutos do fim mantinha-se o 0-0. Eis que Jordão resolve entrar com a bola dominada na grande área do Sporting. No seu estilo ziguezagueante, força a passagem entre Pedro Gomes e Laranjeira, embrulham-se os três numa confusão estranha de pernas e braços, o angolano surge no chão e o árbitro americano Jim Powell apita o penálti. Eusébio não deu qualquer hipóteses a Botelho, substituto de Damas que, com uma rotura na zona da virilha, já tinha regressado mais cedo a Lisboa.

A resistência leonina desmoronou-se. Houve tempo e espaço para mais dois golos, um de Jordão, de longe, num pontapé potente e colocado, outro de Nené, naquele seu jeito de “já que aqui estou aproveito e marco um golo”, este à beirinha do fim. Taça entregue aos encarnados. Um prémio de vitória de 12 contos para cada um deles. Tinha sido o dinheiro que movera as rodas dentadas deste duplo dérbi em terras americanas e os protagonistas bem mereciam o seu quinhão. Viagem para Lisboa no dia seguinte, com todos os jogadores, águias e leões, a embarcarem no mesmo avião, algo que valeu comentários jocosos à chegada, já que as direções dos dois clubes andavam de candeias às avessas. Vale que os jogadores, camaradas, se estavam nas tintas para guerrinhas de alecrim e manjerona. Tinham cumprido o dever do seu ofício e muitos entravam de férias. Para os que haviam passado mês e meio no Brasil, no Torneio dos 150 da Independência organizado pela CBF, atingindo a final contra o Brasil (0-1), as praias do Algarve chamavam como cantos de sereia.