Covid-19. Ordem defende vacinação dos mais velhos primeiro

Covid-19. Ordem defende vacinação dos mais velhos primeiro


Proposta enviada ao Ministério da Saúde propõe que sejam tidos em conta os ganhos da vacinação por grupo etário. Task-force não está a equacionar alterações.


Com a primeira fase da vacinação da covid-19 em curso, a Ordem dos Médicos defende alterações na priorização da vacinação por forma a chamar primeiro os mais idosos para serem vacinados, em vez da convocatória assente em doenças com maior fator de risco. Num ofício enviado ao Ministério da Saúde, a que o i teve acesso, a ordem considera que os objetivos principais do plano nacional de vacinação devem ser a prevenção da mortalidade e a prevenção da sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde. Como objetivos secundários, a prevenção da morbilidade, a preservação da atividade assistencial não covid, a minimização do risco de perturbação das atividades essenciais e da disrupção social e o contributo para uma “resolução progressiva do profundo impacto social e económico da pandemia”. Na prática, a Ordem defende que depois do arranque da vacinação dos profissionais de saúde e, já esta segunda-feira, da do início da vacinação nos lares, tanto de utentes como de profissionais, a chamada de doentes de risco que está apontada para fevereiro deveria ser escalonada por grupos etários e não ser assente numa triagem por patologias de risco acrescido, o que admite que poderá colocar dificuldades de operacionalização.

Ao i, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, considera que a atual metodologia vai levar a uma sobrecarga dos médicos dos hospitais e centros de saúde na triagem dos doentes prioritários, podendo criar desigualdades no acesso em função dos registos clínicos e plataformas informáticas usadas nas diferentes instituições ou mesmo doentes que não tenham processos informatizados ou exames feitos recentemente, como provas respiratórias – necessárias para avaliar por exemplo o grau de doença respiratória. Uma barreira que o escalonamento por idades poderia obviar, argumenta. “Os doentes seguidos nos hospitais ou mesmo no privado e setor social podem não ter essa informação no centro de saúde, além de que temos 800 mil portugueses sem médico de família. Fazendo-se o escalonamento por grupos etários, fossem primeiro as pessoas com mais de 85 anos, 80 anos, muitas terão as patologias definidas e cria-se um critério etário mais abrangente, como foi adoptado no Reino Unido e Estados Unidos, tendo em conta que a idade é o principal fator de risco. O objetivo foi fazer uma proposta construtiva, em que se iria diminuindo a idade à medida que as vacinas vão estando mais disponíveis. Sabemos que uma parte significativa da população não tem a informação centralizada”.

 

Quantas vacinas para prevenir uma morte?

No ofício, a Ordem dos Médicos defende que os critérios de operacionalização dos grupos populacionais com fatores de risco (que o plano de vacinação prevê que na primeira fase incluam pessoas com 50 anos ou mais com pelo menos insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal e doença respiratória crónica com suporte ventilatório) deveriam ser alterados para critérios assentes nos grupos etários, “de acordo com as vacinas disponíveis” e o conceito de “número necessário para vacinar” (NNV) para prevenir uma morte. Ou seja, quantas pessoas é necessário vacinar para prevenir uma morte, resume Filipe Froes. Com base na taxa de letalidade da covid-19, que ao longo da pandemia atingiu os níveis mais elevados nas pessoas mais velhas – sendo de 13,6% acima dos 80 anos – o médico salienta que estes números significam que por cada sete idosos com 80 ou mais anos vacinados, partindo do pressuposto de que de outra forma continuam suscetíveis à infeção, seria potencialmente possível prevenir uma morte. Ao passo que na faixa etária dos 50 anos, onde a letalidade da covid-19 tem rondado os 0,3%, pode ser necessário vacinar quase 300 pessoas para prevenir um óbito. “O que defendemos é que deve haver uma fundamentação e um escalonamento mais fino da vacinação e em função das vacinas disponíveis, priorizar os grupos populacionais onde poderão ter maior efeito na redução da mortalidade e morbilidade”, defende o pneumologista, que considera também necessários mais dados sobre o percurso clínico dos doentes por faixa etária, nomeadamente para perceber se estes doentes mais idosos têm sido maioritariamente internados em enfermaria ou em cuidados intensivos.

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