Nikita Simonyan. O filho pródigo do Ararat ainda chora pelo pai…

Nikita Simonyan. O filho pródigo do Ararat ainda chora pelo pai…


Filho de emigrantes clandestinos fugidos ao genocídio arménio levado a cabo pelos otomanos, tem 93 anos e chamam-lhe Avô do Futebol Soviético.


EREVAN – “Oh Nikita is the other side of any given line in time/Counting ten tin soldiers in a row…”, cantava o Elton John naquela grandessíssima xaropada que não contribuiu grande coisa para a sua carreira embora lhe tivesse enchido (ainda mais) os bolsos. Bem, este Nikita não tem nada que ver com a mocinha do Elton, mas os seus pais contaram muitos soldados e não de lata quando conseguiram escapar ao genocídio arménio perpetrado pelos otomanos no tempo do império. Tem 93 anos e, no último Mundial, pudemos vê-lo em pleno relvado do estádio de Sochi a ser homenageado pela sua fantástica carreira de jogador e de treinador.

Em 1958, Nikita Simonyan estava na Suécia a representar a selecção da URSS. Por via da lesão de Igor Netto, foi capitão de equipa contra a Inglaterra (marcou um golo) e contra o Brasil. Ele, que iniciara a vida de futebolista na Geórgia, no Dínamo de Sukhumi, nascera em Armavir, perto de Krasnodar, cidade onde os seus pais se instalaram, fugidos de uma Arménia massacrada. Estava destinado a voltar a casa. E voltou.

“O meu pai era um grande patriota e ainda choro por ele”, disse na altura da homenagem. “Para mim foi uma honra imensa treinar o Ararat. Uma forma de agradecer à minha terra”.

Esse país misterioso que foi a União Soviética, união de povos sob a bandeira de um homem a caminho da perfeição, escondeu regionalismos que ainda hoje temos dificuldade em entender. A origem dos arménios perde-se na noite dos tempos. E a sua resistência trava-se na lenda.

O milagre Simonyan chegou a Erevan em 1973. Completara uma década de sucessos como treinador do Spartak de Moscovo. Estava preparado para o desafio.

Uma espécie de milagre brotou no Cáucaso, nas maargens do rio Hrazdan. Ararat é uma palavra mágica para os arménios. A montanha sagrada. O Ararat é o clube do povo. Simonyan conduziu os arménios ao topo do futebol soviético. No seu primeiro ano de trabalho, a festa espalhou-se pela cidade, fez rebentar pelas costuras o grande largo que agora leva o nome de Praça da República, arrastou uma multidão até ao jardim de Tsitsernakberd onde se ergueu o monumento que recorda o genocídio. O Ararat espantou o país dos sovietes. Foi campeão da URSS e venceu a taça depois de um jogo elétrico frente ao Dínamo de Kiev. Na época seguinte disputou a Liga dos Campeões e, nos quartos-de-final, venceu o Bayern de Munique em Erevan por 1-0 (derrota na Alemanha, 0-2). Nunca ninguém vira nada assim na Arménia. Nem voltou a ver.

Talvez fosse Simonyan e os seus onze soldadinhos de chumbo numa luta contra o esquecimento, contra a indiferença, contra a pequenez. Nikita Pavlovich reencontrou-se com o seu sangue. Chamam-lhe Avô do Futebol Soviético. E o filho de um emigrante clandestino fugido à morte, ainda chora pelo pai.