5 de novembro de 1965. Duas focas e três ursos instalados no Largo da Alfândega?! Cáspite!


Quem passava pelo Ministério das Finanças e entrava no largo, esfregava os olhos e não queria acreditar. Homessa! Então agora andavam bichos à solta pelas praças da capital?!


Homessa! Homessa! Ninguém queria acreditar. Quem passava pelo Largo da Alfândega esfregava os olhos, convencido de que algo de estranho lhe abalava os sentidos. Cáspite! Duas focas e três ursos?! Que diacho!

Apenas o homenzinho bêbado de cotovelos atarraxados ao balcão de mármore da taberna fronteira, ao emborcar, de golada, mais um traçadinho, não percebia tanta agitação. Afinal, fartava-se de ver elefantes cor-de-rosa e não era por isso que provocava alaridos daqueles.

Os bichos estavam lá: era um facto. Indesmentível! Irrecusável!

Duas focas e três ursos! Autênticos! Nada de peluches ou coisa do género.

Intrépido, o repórter dirigiu-se ao local com o lápis atrás da orelha e o bloco de notas no bolso de trás das calças. Que virá a ser isto? O leitor tem de saber. Está no seu direito. É essa a função do jornalista.

Os bichos estavam confortavelmente instalados no parque de estacionamento vizinho ao Ministério das Finanças, que hoje está escondido nas profundezas de Lisboa, mas na altura era a céu aberto, rodeado de palmeiras, o que, ainda por cima, dava às focas e aos ursos um muito caprichoso e pouco fiável ar tropical. Ah! E também havia um cão. Um cão de guarda. Desatava a ladrar e a mostrar os caninos de cada vez que alguém se aproximava dos camaradas animais. Os ursos esticavam as beiçolas, vaidosos, e deixavam-se instalar na modorra lisboeta…

“Se espreitarmos para lá da cancela, podemos ver as silhuetas jovens de três ou quatro raparigas inglesas”, notava, lúbrico, o repórter. “Eis quanto basta para iluminar o feio largo!”

Ora bem, umas moçoilas vindas lá da Grã-Bretanha iluminavam o Largo da Alfândega. Pois muito bem, pois muito bem. Ninguém põe em causa o gosto do escriba nem a beldade das cachopas. Mas inglesas em Lisboa não é coisa rara, ainda por cima neste último ano da segunda década do séc. XXI. Já quanto a focas e ursos… não é fácil vê-los no meio de todos os mamíferos que têm invadido a capital.“

Há duas camionetas com aspeto de transportarem cavalos. Com matrículas inglesas e holandesas”. O mistério adensa-se. Cavalos?! Também cavalos?! “Fazemos o sorriso mais amplo do receituário português – ‘Good morning!’” Um mangas, este profissional da imprensa. Respondem-lhe em castelhano, o que o desilude. “Turistas?”, questiona, bem intencionado. “No! Pertenecemos a un circo”. O castelhano transforma-se em portunhol num abrir e fechar de olhos.

O circo desceu à cidade. “Los animales son de amigos nosos. Cuidado! Los osos son peligrosos!” A inglesa desenrasca-se como pode. O repórter cofiaria o bigode, malandro, no caso de usar o acessório piloso: “Um sorriso inglês, cheio de Oxford Circus na hora de fecharem as lojas…”

A catraia explica-se como pode. Que são da trupe do Carlo’s, que estão à espera de ordem para viajarem para Espanha, que já tinham atuado no Coliseu e estavam muito chateados com as autoridades portuguesas porque não arranjaram lugar onde guardar os ursos, obrigando a bicharada a estar ali, num parque de estacionamento, vítima da curiosidade dos passantes. E um aviso: “Oiga! No saque usted ninguna foto!!!”

O repórter intrépido faz ouvidos de mercador. E admite-o nas páginas do seu jornal: “Escolhemos um ângulo e o clique do disparador garantiu-nos que o Largo da Alfândega mereceu a eternidade deste momento”.

Se a inglesa barafustou ou não, desconhece-se. “Os ursos continuam a dormir a sesta: impossível entrevistá-los. Ficamos com a recordação de uns olhos brumosos do norte”, conclui o plumitivo. Quanto às focas, nem uma palavra.

5 de novembro de 1965. Duas focas e três ursos instalados no Largo da Alfândega?! Cáspite!


Quem passava pelo Ministério das Finanças e entrava no largo, esfregava os olhos e não queria acreditar. Homessa! Então agora andavam bichos à solta pelas praças da capital?!


Homessa! Homessa! Ninguém queria acreditar. Quem passava pelo Largo da Alfândega esfregava os olhos, convencido de que algo de estranho lhe abalava os sentidos. Cáspite! Duas focas e três ursos?! Que diacho!

Apenas o homenzinho bêbado de cotovelos atarraxados ao balcão de mármore da taberna fronteira, ao emborcar, de golada, mais um traçadinho, não percebia tanta agitação. Afinal, fartava-se de ver elefantes cor-de-rosa e não era por isso que provocava alaridos daqueles.

Os bichos estavam lá: era um facto. Indesmentível! Irrecusável!

Duas focas e três ursos! Autênticos! Nada de peluches ou coisa do género.

Intrépido, o repórter dirigiu-se ao local com o lápis atrás da orelha e o bloco de notas no bolso de trás das calças. Que virá a ser isto? O leitor tem de saber. Está no seu direito. É essa a função do jornalista.

Os bichos estavam confortavelmente instalados no parque de estacionamento vizinho ao Ministério das Finanças, que hoje está escondido nas profundezas de Lisboa, mas na altura era a céu aberto, rodeado de palmeiras, o que, ainda por cima, dava às focas e aos ursos um muito caprichoso e pouco fiável ar tropical. Ah! E também havia um cão. Um cão de guarda. Desatava a ladrar e a mostrar os caninos de cada vez que alguém se aproximava dos camaradas animais. Os ursos esticavam as beiçolas, vaidosos, e deixavam-se instalar na modorra lisboeta…

“Se espreitarmos para lá da cancela, podemos ver as silhuetas jovens de três ou quatro raparigas inglesas”, notava, lúbrico, o repórter. “Eis quanto basta para iluminar o feio largo!”

Ora bem, umas moçoilas vindas lá da Grã-Bretanha iluminavam o Largo da Alfândega. Pois muito bem, pois muito bem. Ninguém põe em causa o gosto do escriba nem a beldade das cachopas. Mas inglesas em Lisboa não é coisa rara, ainda por cima neste último ano da segunda década do séc. XXI. Já quanto a focas e ursos… não é fácil vê-los no meio de todos os mamíferos que têm invadido a capital.“

Há duas camionetas com aspeto de transportarem cavalos. Com matrículas inglesas e holandesas”. O mistério adensa-se. Cavalos?! Também cavalos?! “Fazemos o sorriso mais amplo do receituário português – ‘Good morning!’” Um mangas, este profissional da imprensa. Respondem-lhe em castelhano, o que o desilude. “Turistas?”, questiona, bem intencionado. “No! Pertenecemos a un circo”. O castelhano transforma-se em portunhol num abrir e fechar de olhos.

O circo desceu à cidade. “Los animales son de amigos nosos. Cuidado! Los osos son peligrosos!” A inglesa desenrasca-se como pode. O repórter cofiaria o bigode, malandro, no caso de usar o acessório piloso: “Um sorriso inglês, cheio de Oxford Circus na hora de fecharem as lojas…”

A catraia explica-se como pode. Que são da trupe do Carlo’s, que estão à espera de ordem para viajarem para Espanha, que já tinham atuado no Coliseu e estavam muito chateados com as autoridades portuguesas porque não arranjaram lugar onde guardar os ursos, obrigando a bicharada a estar ali, num parque de estacionamento, vítima da curiosidade dos passantes. E um aviso: “Oiga! No saque usted ninguna foto!!!”

O repórter intrépido faz ouvidos de mercador. E admite-o nas páginas do seu jornal: “Escolhemos um ângulo e o clique do disparador garantiu-nos que o Largo da Alfândega mereceu a eternidade deste momento”.

Se a inglesa barafustou ou não, desconhece-se. “Os ursos continuam a dormir a sesta: impossível entrevistá-los. Ficamos com a recordação de uns olhos brumosos do norte”, conclui o plumitivo. Quanto às focas, nem uma palavra.