Maternidades. A duas semanas de faltarem médicos não se sabe como vão funcionar as urgências

Maternidades. A duas semanas de faltarem médicos não se sabe como vão funcionar as urgências


Proposta para fechar rotativamente as urgências obstétricas de quatro hospitais de Lisboa fez soar alarmes e até Marcelo pede explicações. Presidente da ARS diz ao i que a decisão não está fechada. É para começar em julho. Ordem lamenta planeamento “em cima do joelho”.


O problema: as urgências de obstetrícia de quatro hospitais de Lisboa (Maternidade Alfredo da Costa, Santa Maria, São Francisco Xavier e Amadora-Sintra) não têm obstetras, neonatologistas e anestesistas para assegurar as escalas normais nos próximos três meses. A solução: durante julho, agosto e setembro, seria implementado um esquema de rotatividade, em que três hospitais mantêm a urgência aberta e o quarto encerra, permitindo organizar as escalas sem haver falhas. O CODU, que encaminha doentes urgentes que chamam por exemplo o 112, deixaria nesse dia de encaminhar casos obstétricos, por exemplo grávidas em trabalho de parto, para o hospital com a urgência encerrada. Doentes que chegassem pelo próprio pé seriam encaminhadas para os hospitais de serviço.

O cenário em cima da mesa, e que foi objeto de uma reunião na quarta-feira com os diretores de serviço, foi ontem noticiado pelo “Público” e fez soar os alarmes. Os médicos estão contra e lamentam a falta de planeamento. O Bloco de Esquerda chamou de urgência ao Parlamento a ministra da Saúde. “É necessário perceber há quanto tempo se sabe que tal situação poderia ocorrer e que medidas foram adotadas pelo ministério para a evitar. Uma situação de tal carência não acontece de um dia para o outro”. Sem se saber ao certo o que vai acontecer, até o Presidente da República pediu explicações e clareza: “Essa explicação é muito importante para serenar os espíritos das pessoas numa comunidade tão vasta, numa área tão ampla”, disse.

Plano só fica fechado na próxima semana Luís Pisco, presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, garantiu ontem ao i que o plano para o verão começou a ser estudado no último ano, mas assume que não está fechado, o que deverá acontecer no início da próxima semana. O responsável explica que, perante a falta de médicos para assegurar as escalas, o objetivo é conseguir que em determinados dias os hospitais possam ter equipas reduzidas. Mesmo fechando-se admissões nas urgências de obstetrícia, Pisco esclarece que a urgência estará a funcionar. “Imagine que por qualquer razão uma senhora entra em trabalho de parto na urgência. Terá lá na mesma a criança. Haverá sempre uma equipa, mas reduzida. A urgência estará fechada por um período de 24 horas mas todos os partos programados serão atendidos.” Todos os detalhes e articulação entre hospitais e CODU têm ainda de ser afinados, diz Luís Pisco. “O que pretendemos é fechar programadamente as urgências de modo a não haver falhas não programadas”.

Para a Ordem dos Médicos, a solução que está em cima da mesa é “inaceitável e coloca em causa a segurança clínica das grávidas”, disse ao i Miguel Guimarães. Para o bastonário, o resultado desta medida será o congestionamento dos hospitais que tiverem a urgência aberta, o que pode levar a “complicações graves”, avisa. “É um remendo e não resolve nada. Santa Maria recebe 70 a 80 mulheres na urgência, faz sete ou oito partos. Se no dia em que fecha a MAC receber 150, não há espaço. Vai haver um efeito em cascata. Grávidas em corredores, aumenta-se a taxa de cesarianas para desenrascar, é preciso anestesistas, não há os mesmos meios para vigilância tanto no trabalho de parto como depois, não se está a contemplar o reforço de enfermeiros. Estas coisas têm de ser planeadas com tempo, não é em cima do joelho”.

O médico sublinha o facto de as urgências destes hospitais, sobretudo MAC e Santa Maria, tratarem casos de maior complexidade. São também os serviços de referência para gravidezes de risco toda a zona sul do país. “No verão há menos médicos mas não há menos grávidas”, diz. Para Miguel Guimarães, a duas semanas do problema, a única solução é os hospitais recorrerem a médicos tarefeiros para compensar as falhas nas escalas, que resultam de quadros desfalcados – a Ordem estima que faltem 150 médicos obstetras no SNS – e do período de férias. “Gasta-se mais mas as grávidas têm segurança”, diz Miguel Guimarães.

Ao final do dia, o Ministério da Saúde emitiu uma nota em que diz estar a acompanhar o trabalho preparatório que envolve ARS, INEM e hospitais de Lisboa. A tutela assegurou “que as utentes terão garantidas todas as respostas de que necessitam”.

“Eu espero que seja devidamente esclarecido, explicado, para as pessoas perceberem exatamente como vai ser e para não terem depois as preocupações que vi aparecer”