Felicidade e democracia


Os populistas prosperam insuflando e capitalizando o medo para acederem a um poder discricionário e incondicional de esconjuradores dos temores que criam


No congresso do Partido Socialista Europeu que decorreu em Lisboa no passado fim de semana, exortei os meus camaradas a inspirarem-se na felicidade e na cidadania plena para combaterem o medo, porque, se a exploração do medo é o combustível dos populismos, a procura da felicidade e a prática cidadã têm de ser a força das democracias avançadas em geral e da social-democracia em particular.

Cresci num mundo marcado por duas grandes narrativas baseadas na detenção dos meios de produção: a narrativa capitalista e a narrativa comunista. Entre estas narrativas floresceram múltiplas combinações, entre as quais a visão social–democrata ou socialista democrática que, aceitando uma economia de mercado, ou seja, de base capitalista, contrapunha uma sociedade de direitos partilhados, ou seja, de base solidária. Foi e é essa a narrativa por que sempre me bati e bato.

Vivemos hoje um tempo indistinto, pós- -capitalista e pós-comunista, efémero, acelerado, em que os valores e os princípios não perderam validade, mas as condições para a sua aplicação são cada vez mais mutáveis e difíceis.

Numa conversa recente com jovens muito preocupados com a incerteza e com as condições de vida que os esperam no futuro, percebi uma evidência que, por ser tão clara e cristalina, por vezes nos escapa como instrumento de análise. Para a minha geração, mudança significava esperança e sonho. Para uma parte significativa das novas gerações, mudança significa incerteza e medo. A forma como as sociedades modernas souberem lidar com o medo vai determinar o seu futuro e, em particular, o futuro da democracia e da social-democracia tal como as conhecemos.

Os populistas prosperam insuflando e capitalizando o medo para acederem a um poder discricionário e incondicional de esconjuradores dos temores que criam. A resposta das forças políticas democráticas tem de se focar nas soluções para eliminar ou responder aos fatores que geram medo, dado que a incerteza é uma constante da equação na nova sociedade da aceleração digital.

A tentação de responder ao medo do futuro prometendo ao regresso ao passado, ou a certas condições do passado, mina a confiança dos eleitores e abre alas aos discursos fragmentários, nacionalistas e identitários que, nada resolvendo, provocam graves danos na democracia e nas dinâmicas sociais abrangentes e plurais.

O caminho é responder aos medos do futuro e aos capitalistas do medo com soluções de futuro e desenhadas de forma participada com quem nele quer viver com mais qualidade, equidade e felicidade. A felicidade, enquanto ausência de medo, é o grande antídoto para os vampiros políticos que dele se aproveitam para sugar as democracias.

Ser feliz é aceder às condições básicas de vida decente, ser integrado e reconhecido numa comunidade de pertença e ter um sentido para a vida.

Haverá programa mais mobilizador do que garantir uma vida decente, promover comunidades saudáveis e criar condições para que os indivíduos procurem e concretizem um projeto viável de realização pessoal?

Não serão estes os pilares da social-democracia do futuro? Ou, pelo menos, os alicerces a partir dos quais eles terão de ser reconstruídos? Eu acredito que sim.

 

Eurodeputado