O desejo manifestado pelo Bloco de Esquerda de ser governo foi recebido com cautela pelos socialistas. A menos de um ano das eleições legislativas, o PS prefere deixar todos os cenários em aberto, mas não falta quem assuma que dificilmente haverá condições para uma coligação de governo.
António Costa já manifestou, pelo menos duas vezes, muitas reservas a uma eventual coligação de governo. Ficou célebre a frase, em entrevista à “TVI”, no início de outubro, de que “dá para sermos amigos, mas não dá para casar”. O primeiro-ministro admitiu mesmo que não é de prever “um grau de compromisso mais elevado”. Um ano antes, o líder do PS já atinha afirmado, em entrevista à rádio “Renascença”, que existem diferenças “profundas” entre o PS e os partidos à sua esquerda. “Eu acho que estamos bem assim”.
Os socialistas ouvidos pelo i alinham com António Costa e assumem que não é fácil transformar a geringonça numa coligação de governo. “O Bloco tem sido um parceiro solidário, mas o PS é que tem assumido as decisões mais difíceis. Para o Bloco entrar no governo é preciso que esteja disponível para tomar medidas impopulares e tenho dúvidas que estejam disponíveis para isso”, diz ao i André Pinotes Batista, deputado do PS.
Vítor Ramalho, ex-dirigente socialista, também acha que “muito difícil, para não dizer quase impossível”, que uma coligação de governo seja possível. O ex-governante considera que “ainda vai correr muita água debaixo das pontes” até às legislativas e que não podemos deixar de ter em conta “o rumo da União Europeia” e a possibilidade da situação económica se agravar. Ramalho considera indispensável que os militantes sejam ouvidos no caso de o PS fazer uma coligação de governo. “A haver qualquer participação no governo, seja de quem for, o PS deve fazer um referendo interno”, diz.
Ascenso Simões, deputado do PS, prefere não fechar a porta a nenhum cenário: “O PS é o grande partido do centro e que tem condições para fazer acordos constitucionais à direita e contratos sociais e civilizacionais à esquerda”.
A possibilidade de o Bloco de Esquerda ir para o governo não é alheia à vontade do PCP. Alguns socialistas só admitem uma coligação que envolva os três partidos e o próprio Bloco de Esquerda teria dificuldade em deixar ao PCP o monopólio da oposição à esquerda.
No PS há, porém, quem assuma que o próximo passo deve ser uma coligação de governo após um acordo inédito entre os partidos de esquerda. João Soares defendeu, em declarações ao semanário “SOL”, em setembro, que “depois de uma experiência tão rica e tão boa para o país é desejável que haja uma representação indicada – mesmo que não sejam militantes destacados – pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Vai depender muito dos resultados que tiverem”.
Ao i, José Junqueiro também defende que, se o PS não atingir a maioria absoluta, os partidos que apoiaram esta solução política “deveriam assumir um compromisso mais ousado e, portanto, integrar o governo”. O ex-deputado socialista lembra que esteve contra a aliança à esquerda por não “acreditar na fiabilidade dos parceiros”, mas a realidade mostrou o contrário e não existe “nenhuma desvantagem, pelo contrário, em que os partidos que apoiam a solução governativa possam integrar o governo”.
Bloco quer governar Do lado do Bloco de Esquerda, existe a vontade de governar. E isso foi notório na XI Convenção Nacional do partido, que aconteceu no último fim de semana e teve como mote “Agora, a Esquerda”. Na sua intervenção no encontro, o líder parlamentar Pedro Filipe Soares afirmou que está na hora do “sonho” subir “ao poder”. “Agora, o Bloco de Esquerda a governar”, aclamou o bloquista. Também a deputada Mariana Mortágua garantiu que o Bloco de Esquerda está “pronto” para integrar o governo, classificando o partido como uma “força capaz”. E o deputado José Soeiro afirmou que o Bloco quer ganhar e está preparado para isso. Já Catarina Martins foi mais contida e defendeu, no discurso que encerrou a convenção, que o Bloco de Esquerda estará no governo “quando o povo quiser”. Com Beatriz Martinho