O tamanho importa


O protesto de um ministro zimbabuano por causa de preservativos poderia só fazer sorrir, não fosse um de muitos exemplos de como a ajuda internacional se esquece de pensar em quem ajuda


Em 1992, o realizador guineense Flora Gomes estreou um filme chamado “Os Olhos Azuis de Yonta”, em que uma jovem recebe cartas de amor de um pretendente. É de um verso de um poema singelo que lhe é enviado por esse apaixonado que o filme recebe o nome: “os teus olhos azuis, Yonta”. Só que nem Yonta tem olhos azuis, nem o poema é original; o jovem, arredio de inspiração, copia as frases do manual escolar enviado pela cooperação sueca para os guineenses estudarem.

Os olhos azuis servem aqui como pequena alegoria para aquilo que ao longo das décadas tem sido a ajuda internacional humanitária e económica a África, algo pensado fora do continente, com pouca ou nenhuma participação dos próprios, dos destinatários da ajuda, e centrada mais no descansar de consciência do doador ou no valor económico a retirar da ajuda no país de origem do que nas necessidades de desenvolvimento dos africanos.

O protesto, esta semana, do ministro da Saúde zimbabuano, David Parirenyatwa, sobre o tamanho dos preservativos enviados pela China para ajudar no combate à disseminação do VIH/sida é apenas um exemplo caricato do exposto atrás. O Zimbabué tem 1,3 milhões de pessoas infetadas com VIH e 13,5% de prevalência da doença nos adultos, com 30 mil mortos por ano, de acordo com a ONU. O país não produz preservativos, mas estes são um dos fatores mais importantes para diminuir o número de 40 mil novos infetados com VIH por ano, e em 2016 foram distribuídos gratuitamente 109 milhões, uma média de 33 por cada indivíduo.

Só que, para se ser eficaz na luta contra a sida, devem os preservativos adequar-se às necessidades de quem os recebe; no entanto, a empresa chinesa que os fabrica nem sequer tinha pensado nisso. Diz agora que vai fazê-lo.
Em “Jerry Maguire”, o agente desportivo interpretado por Tom Cruise está sempre a dizer para o único atleta que conseguiu trazer com ele da empresa de onde se despediu, interpretado por Cuba Gooding Jr.: “Ajuda-me a ajudar-te.” Na verdade, Jerry Maguire não está realmente a querer que o recetor da sua ajuda o elucide verdadeiramente sobre quais são as necessidades que pretende ver satisfeitas, quer apenas que o outro aceite ser o que lhe exigem que seja para ambos poderem beneficiar economicamente da relação.

Seja a ajuda internacional humanitária, sejam os empréstimos em troca de matérias-primas ou os investimentos em infraestruturas, quem dá dá sem que o destinatário dessa dádiva tenha muita influência naquilo que vai receber.
A ajuda internacional tornou-se um negócio que move milhares de milhões de dólares em benefício mais daqueles que dão do que daqueles que recebem. Em 2014, dos 165 mil milhões de dólares de ajuda dada aos países mais pobres, apenas 9,5 mil milhões de dólares foram entregues aos governos dos países destinatários da ajuda para serem geridos por eles próprios. Isto é, só 6% do valor total da ajuda foram decididos pelo ajudado; os restantes foram decididos a milhares de quilómetros das pessoas que supostamente beneficiam dessa ajuda.

Em 2016, a “Los Angeles Review of Books” publicou um artigo sobre um encontro em Liverpool para promover as exportações das empresas britânicas. Um dos oradores, Nigel Peters, diretor do Aid-Funded Business Service da UK Trade and Investment (organismo do governo britânico para a promoção das exportações das empresas britânicas), falava de um negócio de 70 mil milhões a 100 mil milhões de dólares anuais pronto a agarrar. “Os negócios da ajuda humanitária e do desenvolvimento são negócios significativos e nós estamos aqui para ajudá-los a ganhar parte deles”, dizia Peters.

Em 2012, o Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund criou um vídeo irónico que rapidamente se tornou popular na internet. Chamaram-lhe “Radi-Aid: Africa for Norway”. É um vídeo de ajuda às crianças da Noruega, feito por africanos, destinado a conseguir radiadores para combater o frio que as famílias têm de suportar nos longos invernos. É, logicamente, uma campanha de angariação falsa, mas destinada a sublinhar esse lado de inadequação à realidade, fruto muitas vezes da ignorância, com que a ajuda humanitária a África se foi desenvolvendo.
A ideia acabou transformada em prémios anuais para as piores e melhores campanhas de angariação de fundos, entregando radiadores ferrugentos e dourados. O prémio de pior campanha de 2017 foi para o vídeo do cantor Ed Sheeran na Libéria que se intitula “Ed Sheeran Meets a Little Boy Who Lives on the Streets”.

O júri internacional que o escolheu prefere chamar-lhe “literalmente turismo da pobreza”. Centrado no cantor e não nos problemas, o vídeo mostra o bom coração do protagonista ao invés de chamar a atenção para um problema real: o da pobreza na Libéria.

Durante os anos 1980 e 1990, o Live Aid de Bob Geldof e as ações de Bono, o líder dos U2, tornaram o negócio da ajuda humanitária em algo glamoroso para as estrelas internacionais, que mostravam assim a sua generosidade, ao mesmo tempo que contribuíam para melhorar a sua imagem. Aquilo que nunca conseguiram, por mais altruístas que pudessem ser as suas intenções e gestos, foi contribuir para alterar realmente o estado das coisas.

A ideia por trás de fabricar preservativos para serem distribuídos gratuitamente no Zimbabué é, na sua essência, um gesto importante para travar uma epidemia que continua a ter um enorme impacto social e económico naquele país. O facto de ninguém ter pensado sequer em indagar junto dos próprios qual o tamanho adequado dos preservativos é uma história que até podia ser para rir, não fosse um sinal de que os anos passam e tudo continua igual.


O tamanho importa


O protesto de um ministro zimbabuano por causa de preservativos poderia só fazer sorrir, não fosse um de muitos exemplos de como a ajuda internacional se esquece de pensar em quem ajuda


Em 1992, o realizador guineense Flora Gomes estreou um filme chamado “Os Olhos Azuis de Yonta”, em que uma jovem recebe cartas de amor de um pretendente. É de um verso de um poema singelo que lhe é enviado por esse apaixonado que o filme recebe o nome: “os teus olhos azuis, Yonta”. Só que nem Yonta tem olhos azuis, nem o poema é original; o jovem, arredio de inspiração, copia as frases do manual escolar enviado pela cooperação sueca para os guineenses estudarem.

Os olhos azuis servem aqui como pequena alegoria para aquilo que ao longo das décadas tem sido a ajuda internacional humanitária e económica a África, algo pensado fora do continente, com pouca ou nenhuma participação dos próprios, dos destinatários da ajuda, e centrada mais no descansar de consciência do doador ou no valor económico a retirar da ajuda no país de origem do que nas necessidades de desenvolvimento dos africanos.

O protesto, esta semana, do ministro da Saúde zimbabuano, David Parirenyatwa, sobre o tamanho dos preservativos enviados pela China para ajudar no combate à disseminação do VIH/sida é apenas um exemplo caricato do exposto atrás. O Zimbabué tem 1,3 milhões de pessoas infetadas com VIH e 13,5% de prevalência da doença nos adultos, com 30 mil mortos por ano, de acordo com a ONU. O país não produz preservativos, mas estes são um dos fatores mais importantes para diminuir o número de 40 mil novos infetados com VIH por ano, e em 2016 foram distribuídos gratuitamente 109 milhões, uma média de 33 por cada indivíduo.

Só que, para se ser eficaz na luta contra a sida, devem os preservativos adequar-se às necessidades de quem os recebe; no entanto, a empresa chinesa que os fabrica nem sequer tinha pensado nisso. Diz agora que vai fazê-lo.
Em “Jerry Maguire”, o agente desportivo interpretado por Tom Cruise está sempre a dizer para o único atleta que conseguiu trazer com ele da empresa de onde se despediu, interpretado por Cuba Gooding Jr.: “Ajuda-me a ajudar-te.” Na verdade, Jerry Maguire não está realmente a querer que o recetor da sua ajuda o elucide verdadeiramente sobre quais são as necessidades que pretende ver satisfeitas, quer apenas que o outro aceite ser o que lhe exigem que seja para ambos poderem beneficiar economicamente da relação.

Seja a ajuda internacional humanitária, sejam os empréstimos em troca de matérias-primas ou os investimentos em infraestruturas, quem dá dá sem que o destinatário dessa dádiva tenha muita influência naquilo que vai receber.
A ajuda internacional tornou-se um negócio que move milhares de milhões de dólares em benefício mais daqueles que dão do que daqueles que recebem. Em 2014, dos 165 mil milhões de dólares de ajuda dada aos países mais pobres, apenas 9,5 mil milhões de dólares foram entregues aos governos dos países destinatários da ajuda para serem geridos por eles próprios. Isto é, só 6% do valor total da ajuda foram decididos pelo ajudado; os restantes foram decididos a milhares de quilómetros das pessoas que supostamente beneficiam dessa ajuda.

Em 2016, a “Los Angeles Review of Books” publicou um artigo sobre um encontro em Liverpool para promover as exportações das empresas britânicas. Um dos oradores, Nigel Peters, diretor do Aid-Funded Business Service da UK Trade and Investment (organismo do governo britânico para a promoção das exportações das empresas britânicas), falava de um negócio de 70 mil milhões a 100 mil milhões de dólares anuais pronto a agarrar. “Os negócios da ajuda humanitária e do desenvolvimento são negócios significativos e nós estamos aqui para ajudá-los a ganhar parte deles”, dizia Peters.

Em 2012, o Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund criou um vídeo irónico que rapidamente se tornou popular na internet. Chamaram-lhe “Radi-Aid: Africa for Norway”. É um vídeo de ajuda às crianças da Noruega, feito por africanos, destinado a conseguir radiadores para combater o frio que as famílias têm de suportar nos longos invernos. É, logicamente, uma campanha de angariação falsa, mas destinada a sublinhar esse lado de inadequação à realidade, fruto muitas vezes da ignorância, com que a ajuda humanitária a África se foi desenvolvendo.
A ideia acabou transformada em prémios anuais para as piores e melhores campanhas de angariação de fundos, entregando radiadores ferrugentos e dourados. O prémio de pior campanha de 2017 foi para o vídeo do cantor Ed Sheeran na Libéria que se intitula “Ed Sheeran Meets a Little Boy Who Lives on the Streets”.

O júri internacional que o escolheu prefere chamar-lhe “literalmente turismo da pobreza”. Centrado no cantor e não nos problemas, o vídeo mostra o bom coração do protagonista ao invés de chamar a atenção para um problema real: o da pobreza na Libéria.

Durante os anos 1980 e 1990, o Live Aid de Bob Geldof e as ações de Bono, o líder dos U2, tornaram o negócio da ajuda humanitária em algo glamoroso para as estrelas internacionais, que mostravam assim a sua generosidade, ao mesmo tempo que contribuíam para melhorar a sua imagem. Aquilo que nunca conseguiram, por mais altruístas que pudessem ser as suas intenções e gestos, foi contribuir para alterar realmente o estado das coisas.

A ideia por trás de fabricar preservativos para serem distribuídos gratuitamente no Zimbabué é, na sua essência, um gesto importante para travar uma epidemia que continua a ter um enorme impacto social e económico naquele país. O facto de ninguém ter pensado sequer em indagar junto dos próprios qual o tamanho adequado dos preservativos é uma história que até podia ser para rir, não fosse um sinal de que os anos passam e tudo continua igual.