Dolores Redondo. “Sinto que fui alvo de todo o género de pulhices no meio editorial”

Dolores Redondo. “Sinto que fui alvo de todo o género de pulhices no meio editorial”


A escritora vive há três anos no centro de um fenómeno que pode estar só na infância de uma saga de sucesso mundial 


A clareza é a paixão deste tempo. A Era da Técnica não tem paciência para as velhas lendas e superstições. Das mitologias usa a casca como adereço. Está mais interessada em dividir o átomo do que beliscar a superfície da alma humana. Ou sentir esse tendão que a avizinha desse universo metido entre as frinchas dos nossos cinco sentidos. Se hoje a ciência parece deter o monopólio dos grandes milagres, a muitos o futuro parece-lhes um território inóspito e frio. Como proscritos, há entre nós um número crescente de pessoas para quem a lógica racional e os dados empíricos não deixam de fazer sentido, mas sabem a pouco. Dolores Redondo, a autora da Trilogia de Baztán – que inclui os volumes “O Guardião Invisível”, “Legado nos Ossos” e “Oferenda à Tempestade” (todos editados em Portugal pela Planeta) -, cresceu a ouvir da avó as histórias que nos ligam à terra, e a origens míticas. A escritora atribui a esse universo intersticial habitado por fantasmas e criaturas mágicas muito do que veio a fazer dela uma escritora que triunfou ao estabelecer um compromisso entre a técnica e o oculto. Acaba de publicar “Tudo Isto Te Darei”, um livro isolado, e que venceu o Prémio Planeta em 2016 – prémio que, com os 601 mil euros, só fica atrás do Nobel em valor monetário -, e esta conversa que podia ter ido por tantos caminhos, andou pelo antes e depois de se ter tornado uma escritora de êxito que ameaça tornar-se um fenómeno global.

Quando começa a escrita a impor-se entre os seus hábitos pessoais?

Muito cedo. Com 14 anos já escrevia alguns contos. Sou a mais velha de quatro irmãos, e sempre me pediram que lhes contasse histórias. Não levou muito para que, de os inventar, passasse a querer guardá-los, escrevendo-os. O primeiro romance escrevi-o já adulta, com mais de 18 anos pelo menos.

Tem um episódio trágico na sua infância – a morte de uma irmã. Tinha quatro anos?

Sim, quando ela morreu.

E ela?

Tinha três. Adoeceu… tinha um cancro. Sem dúvida perder um irmão quando estás muito próximo dele, e quando és tão pequeno, marca-te muito. Foi muito impactante porque em pouco tempo a família sofreu uma série de perdas. Num período de três anos morreu também um primo muito jovem, morreu o meu tio. Isto lançou a família num luto que durou bastantes anos, e não é que tenha influído no facto de me tornado escritora, mas despertou o meu gosto pela leitura. Porque em minha casa fazíamos os possíveis para não fazer barulho. Havia esta sensação de dor no ar, e eu encontrei na leitura um refúgio e uma forma de evasão, algo que me permitia sair daquela tristeza. Mesmo que os meus pais tentassem que os filhos tivessem uma vida feliz, estando tão tristes não conseguiam evitar que o sentíssemos.

Sentiu isso como uma maldição familiar?

É inevitável, quando uma família vive uma série de calamidades, desde logo inexplicáveis – não pela circunstância em si, mas pelo inesperado… Sabíamos que a minha irmã tinha morrido de uma doença, o meu primo de um acidente, o meu tio também vítima de doença… Mas isto provoca a sensação de que se foi marcado pelo destino, como se houvesse algo em ti que atrai coisas negativas.

Escolheu Jim Hawkins, o protagonista de “A Ilha do Tesouro”, como pseudónimo ao concorrer ao Prémio Planeta com “Tudo Isto Te Darei”. Foi uma homenagem aos livros que leu na sua infância?

É bom notar que vivia numa importante cidade portuária, o meu pai é marinheiro, tal como muitos homens da minha família, e da janela da minha casa tinha vista sobre o porto. É normal também que tivesse interesse pelo que fazia o meu pai e por tudo o que tinha a ver com navegação. Daí o fascínio por Jim Hawkins e a “A Ilha do Tesouro”, como por tudo o que tivesse a ver com aventuras no mar, os livros do Emilio Salgari… Creio que é algo comum à infância da maioria das pessoas, mas no meu caso era vivido com maior intensidade. Ter tido familiares que navegaram por todos os mares, que estiveram em muitos lugares do mundo, que viveram desde ataques piratas a naufrágios, tudo isto enche a imaginação de uma criança. Portanto, não era só o que lia, eram relatos que me chegavam e que me davam a noção de que a realidade era também ela muito aventurosa. Depois havia o facto de na zona onde eu vivia estas histórias serem comuns: os naufrágios, os desaparecimentos no mar de tripulações, e é normal, portanto, que isso tenha ajudado a celebrar este pacto entre a vida e a literatura.

Lembra-se de algum acontecimento na sua vida que tenha sido marcante e ao qual esteja sempre a regressar enquanto escritora?

Creio que tive uma vida cheia de acontecimentos fortes, intensa a nível humano. É claro que para uma vida ser interessante isso só depende da intensidade que pões em cada coisa, mas creio que há também esse lado das experiências sentidas na pele e das quais um autor não deve expor demasiado à luz. Mesmo sendo uma das fontes onde vais buscar inspiração, tal como é o cinema, a literatura, a música… Mas em relação à minha própria experiência de vida guardo-a para destilá-la a conta-gotas para os meus leitores. Acredito, de resto, que o leitor intuitivamente percebe quando o autor lhe está a contar a sua verdade, ainda que o faça por meio de uma ficção. Está dotado de uma espécie de radar para descobrir quais são os elementos reais que estão espalhados pelas ficções. O melhor das ficções é quando, depois de lermos a última página, estas prosseguem em nós – imaginamos um futuro para aquelas personagens. Isso é sinal de que o escritor pôs a dose suficiente de honestidade na sua obra para que esta estabelecesse uma ponte com a realidade.

Quando publica o primeiro livro da trilogia Baztán, que viria a ser de um enorme sucesso de vendas, tinha já toda uma outra vida: uma família, um restaurante… Como foi ao longo dos anos contemplando esta vida paralela, a de uma autora de livros de sucesso?

É difícil dizer como isso nos ocorre. Por um lado nunca tive a certeza se isto me levaria a algum lado, mas havia uma razão qualquer, e bastante poderosa, que não me deixava abandonar a escrita. É claro que, tendo começado a escrever com 14 anos, ao longo da vida fui-me dedicando a outras coisas, e até com bastante êxito em algumas. No seu tempo, cada uma dessas atividades ou trabalhos foram compensadores, e tiveram tudo de mim, ao ponto de supor que seriam o meu destino.

Pode dar alguns exemplos dessas coisas a que se dedicou totalmente?

Quase tudo o que fiz, desde os estudos, quando andei no curso de Direito… Depois este curso deixou de me satisfazer, e sendo oriunda de San Sebastián, no País Basco, onde temos muitíssimos cozinheiros de renome, uma série de restaurantes com estrelas Michelin – onde vivo a gastronomia tem uma importância enorme -, sentia-me muito atraída por esse universo. Tive formação na área de restauração, estudei para dirigir uma cozinha e dediquei-me a isso durante anos, sendo ainda hoje uma das coisas que mais gosto de fazer no mundo: cozinhar.

No seu restaurante estava à frente da cozinha?

Sim, trabalhei para muitos restaurantes, mas a certa altura cheguei a ter o meu próprio. Com apenas 24 anos, e durante dois anos, estive à frente do meu restaurante, o que foi uma experiência que me ensinou muitas coisas. E foi, naquele momento, a grande paixão da minha vida. Não é que não tenha sido feliz ou me tenha sentido realizada nas outras ocupações que tive, mas o que sinto é que se tornou absolutamente inevitável manter a escrita como algo em aberto. Sempre que me deparava com um concurso literário, ou, cada ano, quando assistia à cerimónia da entrega do Prémio Planeta na televisão, ou ao ler um escritor de quem gostava muito, sentia de novo essa espécie de chamamento, algo que me dizia que tinha que tentar de novo. Era uma luz que nunca se apagava mesmo quando todas as outras desapareciam. Cheguei a estar anos sem escrever nada, mas depois o desejo regressava. Quando o desejo é assim, quando se revela uma pulsão, algo que azucrina a partir do interior, sabes que chegará um momento em que terás de lhe dar resposta. São esses momentos em que parece que tudo te serve inspiração, e então não podes escapar.

Como foi que retomou a escrita?

Quando deixei os negócios de restauração e hotelaria, quando os meus filhos eram já nascidos… Houve, aliás, um período em que tive uma gravidez de grande risco que me obrigou a passar os nove meses imobilizada, para que o bebé pudesse nascer. Correu tudo bem, e a criança nasceu de perfeita saúde, mas assim que soube que estava grávida fui avisada do enorme perigo de aborto espontâneo e que a única forma de ter o filho seria ficar de cama. É claro que, estando imobilizada, dei por mim muito entediada, e a leitura empurrou-me de volta para a escrita. Foi esse o momento decisivo de regresso. Depois ainda tive uma outra gravidez com o mesmo risco e a mesma coisa que já tinha sucedido repetiu-se. Nesta segunda gravidez escrevi o primeiro romance que vi publicado.

Em que ano foi?

A minha filha nasceu em 2005, mas só consegui publicar o romance em 2009, e tive de andar, para trás e para a frente, a bater à porta de uma série de editoras… A minha trajetória é a de um escritor que começa realmente do zero, alguém que não tinha qualquer contacto no mundo editorial, ninguém que o apadrinhasse ou lhe apontasse um caminho. E estamos a falar de um período em que não era como hoje, com a internet, em que podes ir ao site, consultar o catálogo das editoras e enviar o teu manuscrito para o email daquelas cujos interesses se alinhem com aquilo que tu escreves. Tudo isto se passou num período em que era preciso fazer fotocópias e enviá-las pelo correio. Para uma pessoa sem posses, ainda jovem, isto podia arruinar-nos. Nem lhe conto como era participar em concursos literários. Da primeira vez que concorri ao Prémio Planeta, gastei um dinheirão para mandar as cinco cópias que pediam. E havia concursos que pediam mais, até 10 cópias. Imagine dez cópias de um romance de centenas de páginas… Só em fotocópias gastei fortunas.

E como publicou o primeiro romance?

Foi numa editora [Editorial Eunate] com a qual vim a ter uma série de problemas, ao ponto de o romance estar neste momento fora de catálogo. O romance chama-se “Los Privilégios del Ángel”. 

O que se passou?

Quando começou a crise em Espanha, a editora disse-me que tinham cancelado quase todas as edições que tinham previstas para os dois anos seguintes, entre elas o meu romance. Consegui então, na localidade onde vivo, em Navarra, recorrer a um sistema que temos ligado às contas de aforro… Estas estão obrigadas a entregar uma parte dos seus lucros a projetos de beneficência social ou cultural. Sendo possível a cada aforrador eleger a iniciativa a que entrega a parte que lhe diz respeito, na minha comunidade apresentei como projeto a publicação do meu romance. Foi assim que o meu romance acabou por ser publicado, com a comunidade a envolver-se na campanha para que a edição fosse para a frente. Mesmo assim tive uma péssima experiência com a editora. Não me trataram bem nem ao livro, não foram cuidadosos ao preparar a edição nem depois ao distribuí-la, e quando o livro esgotou não o voltaram a reeditar. E a coisa ficou assim, sem eles revelarem o menor interesse pelo livro até ter chegado o êxito com “O Guardião Invisível” e com os livros seguintes da trilogia Baztán. Quando aí se mostraram interessados na reedição, fui eu que perdi o interesse em manter o vínculo com esta editora. Preferi esperar que caduque o período de vigência do contrato, para entregá-lo a outra editora dentro de dois anos.

Tem alertado em relação a este género de oportunismo que hoje grassa no meio editorial.

Sim. É muito comum com os escritores mais jovens depararem-se com pessoas que se servem do seu interesse e paixão pelos livros, e da vontade de publicar, levando-os a assumir vínculos com projetos que têm meios pouco claros de obter lucro. Há que ter muito cuidado com este meio, e espero que a minha experiência sirva pelo menos para alertar outros para o tipo de contratos que se fazem com estas editoras que se aproveitam do desconhecimento dos escritores novos.

Sentiu que essa experiência poderia tê-la demovido do desejo de escrever e publicar?

Custou-me muitíssimo. Sinto que fui alvo de todo o género de pulhices e que esbarrei numa série de obstáculos – tudo o que te pode acontecer de mais desmotivador na hora de veres um livro teu publicado, sinto que já passei por tudo isso, e nem isso destruiu a paixão que tinha pela escrita. Estive durante anos com esse romance encravado nos ínvios esquemas dessa editora, e às tantas a minha saída foi começar do zero, escrever outro. Quando acabei de escrever “O Guardião Invisível” sabia pelo menos os caminhos por onde não me queria meter. Percebi que não me ia sujeitar a bater à porta das editoras, a ser rejeitada e ignorada, e decidi procurar um agente literário, um representante que me ajudasse a discriminar melhor a quem podia enviar o meu livro. Contudo, devo dizer que encontrar um agente foi tão complicado como encontrar uma editora. Isto porque os agentes também recebem uma imensidade de propostas. Obtive muitas respostas negativas, mas houve um que me disse sim e é este que continua a representar-me até hoje. Foi este agente que acreditou no meu romance, que o levou à Feira do Livro de Frankfurt, em 2011, e fez dele o grande sucesso desse ano. Quando me telefonou de lá, disse-me que tinha já editora para o livro em França, Alemanha, Holanda, Itália… e em Espanha, claro.

De lá para cá, não teve mais percalços?

Na verdade ainda tive de ter uma enorme paciência e esperar, porque até 2013 a edição do livro esteve a ser preparada. Mesmo tendo sido um fenómeno em Frankfurt, para o público eu não passava de uma desconhecida. Tive de ficar na fila a aguardar a minha vez entre todas as edições já planeadas pela editora. Isto serve para dizer que subi cada um dos degraus, e conheço os aspetos luminosos do êxito como os mais obscuros.

Os seus livros têm conquistado um sucesso estrondoso em termos de vendas sem ter da crítica a rejeição natural perante os típicos fenómenos de massas, quase sempre estéreis. Dentro do género policial, os seus livros são considerados narrativas envolventes, e muito competentes no que toca aos aspetos da investigação forense. Gostava de saber quanto disto aconteceu de forma acidental e quanto é o resultado de um trabalho de estudo, de planeamento e de reescrita ou revisão?

Cada escritor tem o seu processo e tenho claro que o meu só é válido para mim. Se outra pessoa tentar fazer como eu faço o mais certo é que não se dê bem, até porque não é o mais usual ou recomendável. Confio muito da escrita do livro à intuição. Desde logo nunca senti a angústia da página em branco, porque antes de me decidir a escrever ando com o romance na cabeça cinco ou seis anos. Não há uma história que tenha escrito que não tenha trazido na cabeça durante uns seis anos. E quando vou esquissando mentalmente o romance, sinto que isso ocorre como uma decantação natural. As coisas que vou descobrindo e agregando ao romance, tanto como as coisas que acabo por afastar, acontecem durante este processo de decantação.

Não tem sequer uma estrutura ou um esqueleto dos romances?

Não sou de tomar notas, sinto que a partir do momento em que as coisas estão escritas já não consigo regressar a elas, e por isso deixo que o trabalho seja feito a nível mental. É aí que as ideias surgem e onde as descarto, e quando já tenho como claro a história que quero contar, a vida de cada personagem e aquilo a que se dedica, começo a documentar-me. Por exemplo, tanto na trilogia como neste romance que ganhou o Prémio Planeta, a eleição do cenário onde decorre a ação foi crucial. E tive de escolher não só lugares que se adequassem à trama, não só ao policial propriamente dito, mas aos antecedentes que se supõem a partir daquilo que estou a contar.

Encara o cenário como um protagonista involuntário dos seus livros?

No caso da trilogia de Baztán, julgo que além da personagem central, a Amaia Salazar, o grande interesse que têm os romances é o ter dado corpo ao seu passado familiar. A história arranca como um policial típico, em que é atribuída a uma polícia a investigação de um caso que parece ligar uma série de crimes e que a leva de volta ao lugar onde cresceu. Ao regressar ali, reencontra-se com a família. Estamos a falar de um ambiente rural, onde Amaia enfrenta o julgamento daqueles que se sentem deixados para trás, os que ficaram para levar por diante o negócio familiar… Além deste choque com a família, algo que de algum modo nos terá já ocorrido a todos, depois ressuscita um antigo demónio que ela tinha deixado enterrado ali, a memória de algo que tinha tentado esquecer quando trocou as suas origens por uma vida urbana, por um quotidiano regido pela lógica mais fria, o pragmatismo de uma vida como investigadora da polícia.

É aí que entra o apelo do sobrenatural?

Esse abandono da terra foi uma tentativa de rasurar a raiz que a une a uma terra cheia de lendas, uma terra onde, historicamente, ocorreu o maior número de condenações por bruxaria durante o reinado de terror da Inquisição espanhola. É neste contexto de crenças ligadas ao oculto e à magia, um tipo de legado que em parte tem sobrevivido mesmo após a era da técnica, que Amaia vai ter de fazer a investigação e enfrentar elementos que fogem à sua lógica, isto porque o assassino acredita nessas coisas e utiliza-as nos seus rituais. Julgo que o reavivar desta tradição mística própria de regiões rurais torna a narrativa mais densa. E as próprias paisagens têm um peso fundamental. Ao escolher um território com bosques cerrado que nos provocam arrepios, aquela zona montanhosa da fronteira entre Espanha e França, onde se realizavam os rituais de bruxaria, sabia que estava a explorar todo um continente submerso que hoje tendemos a ignorar mas que não vai deixar de ter importância na vida das pessoas.

E qual é a diferença entre a trilogia e a ação de “Tudo Isto Te Darei”?

Neste tinha como ponto de partida Manuel, um escritor de sucesso, homossexual, que vive em Madrid com o marido, um homem que morre a muitos quilómetros de casa, num lugar do qual o outro nada sabia, e onde, quando se desloca para identificar o cadáver, vem a descobrir que o marido tinha uma outra família, que pertencia a uma poderosíssima família de Ribeira Sacra (Galiza), e que não só tinha um título de nobreza como estava já à frente dos negócios da família. Neste romance o cenário volta a assumir um papel decisivo, criando um choque tremendo com a vida urbana que Manuel tem em Madrid.

O que marca essa fronteira entre campo e cidade?

Estamos a falar de uma zona onde se trabalha a terra no duro para se cultivar a vinha nas ladeiras dos rios Minho e Sil. Este homem é obrigado a tomar contacto com uma série de comportamentos e valores que lhe parecem anacrónicos. Desde logo aquele meio das famílias nobres, de uma burguesia rica que vive no campo. A escolha de um cenário não é algo tão técnico, não passa por um levantamento de informação para que as coisas batam certo na história, para que resulte é preciso que te enamores destes locais e das suas tradições. Foi isso o que me aconteceu ao escolher estes cenários.

E no que toca aos aspetos forenses nos quais se detém com bastante detalhe, como se prepara?

Recorro a quem sabe. Nestes últimos anos tenho aprendido muito na relação que tenho mantido com as forças policiais. Depois de escrever “O Guardião Invisível” recebi uma condecoração da Polícia Foral, recebi medalhas e menções de várias unidades policiais em diversas regiões, e é algo que me honra muito. Tenho aprendido muito nestes anos ao investigar estes assuntos, e sempre que dou por mim com dúvidas em questões muito técnicas e que me escapam, consulto quem sabe. Um autor não precisa de partir para um romance sendo já versado em tudo aquilo que possa vir a interessar para a história, o que tem é de estar disposto a buscar a informação e a dominá-la de modo a incorporá-la sem fazer do romance um manual de instrução.