Je suis classe média


Depois do país ter vivido um assalto dos radicais de extrema-esquerda e da populaça ululante de faca na boca contra os pobres ricos que distribuem riqueza e emprego, é altura de acordarmos.


Estes últimos dias ficaram bastante mais ricos pela divulgação de dois factos: um imaginário e outro real, mas como as pessoas sabem, as mentiras repetidas até ao infinito têm a força na realidade que têm os calhaus maiores.

Comecemos pela parte bufa, ficamos a saber pela televisão que 500 mil portugueses tinham casas com um valor fiscal superior a meio milhão de euros. É verdade que quando apareceram os números reais, aqueles que os nossos especialistas televisivos não sabem, esse número baixou para 43 888 contribuintes com propriedades no valor de meio milhão de euros e 8618 com propriedades de um milhão, mas andamos toda a semana a ouvir especialistas a perorarem sobre o “assalto à classe média” e a sovietização do país. Para essa gente não interessa que sejamos um dos países da Europa mais desiguais e em que os ricos pagam menos impostos, trata-se de manter os seus privilégios, como recordava José Vítor Malheiros na sua crónica no “Público”: “Numa famosa entrevista na televisão no final do ano passado, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária José Azevedo Pereira revelou que as 900 famílias mais ricas de Portugal, com património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões, representavam uma percentagem irrisória da receita de IRS, da ordem dos 0,5 por cento, quando seria de esperar, de acordo com a lei, que pagassem 50 vezes mais. (…) Esta sensação de que existem na sociedade portuguesa dois grupos de pessoas, umas que tudo podem mas que nada devem e outras que pouco podem mas que devem tudo, a sensação de viver numa sociedade não só injusta mas profundamente corrompida, a sensação de impotência perante este estado de coisas, desacredita a democracia, destrói a participação cívica e corrói a sociedade. (…) Os ricos que paguem a crise? Não. Os ricos que paguem o que devem. Apenas isso”.

O segundo facto que enriqueceu a nossa vida nestes últimos dias foi a publicação do estudo sobre “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal”, coordenado pelo professor Carlos Farinha Rodrigues e publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos conclui que nos anos de austeridade quem pagou grande parte da crise foram os mais pobres e que a desigualdade cresceu durante os anos da troika. O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FMS) conclui que as famílias mais pobres foram as que mais sofreram com a crise desde 2009 a 2014. Durante este período os portugueses perderam em média 116 euros mensais, uma quebra que afetou especialmente as famílias mais pobres, com quase um terço dos trabalhadores por conta de outrem a ganhar menos de 700 euros mensais. Estes dados indicam, sem margem para dúvida, que foram os pobres os mais atingidos pela crise e pelas medidas da troika. Dizem os números da Fundação Francisco Manuel dos Santos que em Portugal, em 2009, os 5% mais pobres recebiam 15 vezes menos do que os 5% mais ricos; em 2014, os 5% mais pobres recebiam 19 vezes menos do que os mais ricos.

Houve, como disse um ministro das Finanças do PSD Vítor Gaspar, um “brutal aumento de impostos”, mas esse brutal aumento de impostos, e os cortes sociais, incidiram sobretudo sobre os mais pobres. As conclusões desse estudo FMS são cruéis para os mitos da propaganda, tantas vezes repetidas pelos comentadores de serviço: nem as políticas de austeridade pouparam os mais desfavorecidos, nem a classe médias foi a principal vítima da crise: foram mesmo os mais pobres que pagaram a crise.

A conceção que os mais ricos e os seus papagaios têm da classe média é meramente instrumental e não corresponde a realidade social nenhuma. Os ricos inventaram uma classe que ganha como quem trabalha mas é suposto defender os interesses de quem explora. A classe média transformou-se numa justificação de mau pagador, serve para isentar quem tem uma riqueza muito superior a pagar os devidos impostos. Nós que trabalhamos temos que pagar altíssimas taxas de impostos para que eles possam não pagar nada. E caso os seus bancos vão à falência, cá estamos nós, que nunca recebemos os dividendos deles, para pagar novamente. Como notava a jornalista Elisabete Miranda do “Jornal de Negócios”, citando um ex-diretor geral de impostos, “em qualquer país que leva os impostos a sério, este grupo de privilegiados garante habitualmente cerca de 25% da receita do IRS do ano (palavras de Azevedo Pereira). Por cá, os nossos multimilionários apenas asseguravam 0,5% do total de imposto pessoal. Ou seja, (conclusão nossa), como estamos em Portugal, onde estas coisas da igualdade perante a lei e a equidade tributária são aplicadas com alguma flexibilidade, os “multimilionários” pagam 500 vezes menos do que seria suposto”.

A mais extraordinária lição destes últimos dias é que mostraram, mais uma vez, que para haver um política económica mais justa é preciso o poder político e o poder mediático estar justamente distribuído. Só assim se entende quando 99% da população é esmifrada, os media dominantes justifiquem todas essas medidas, e quando menos de 1% da população pode ser afetada por um imposto sobre a riqueza, parece que vivemos numa situação de calamidade social. É mesmo um caso de voz do dono. 


Je suis classe média


Depois do país ter vivido um assalto dos radicais de extrema-esquerda e da populaça ululante de faca na boca contra os pobres ricos que distribuem riqueza e emprego, é altura de acordarmos.


Estes últimos dias ficaram bastante mais ricos pela divulgação de dois factos: um imaginário e outro real, mas como as pessoas sabem, as mentiras repetidas até ao infinito têm a força na realidade que têm os calhaus maiores.

Comecemos pela parte bufa, ficamos a saber pela televisão que 500 mil portugueses tinham casas com um valor fiscal superior a meio milhão de euros. É verdade que quando apareceram os números reais, aqueles que os nossos especialistas televisivos não sabem, esse número baixou para 43 888 contribuintes com propriedades no valor de meio milhão de euros e 8618 com propriedades de um milhão, mas andamos toda a semana a ouvir especialistas a perorarem sobre o “assalto à classe média” e a sovietização do país. Para essa gente não interessa que sejamos um dos países da Europa mais desiguais e em que os ricos pagam menos impostos, trata-se de manter os seus privilégios, como recordava José Vítor Malheiros na sua crónica no “Público”: “Numa famosa entrevista na televisão no final do ano passado, o ex-diretor-geral da Autoridade Tributária José Azevedo Pereira revelou que as 900 famílias mais ricas de Portugal, com património superior a 25 milhões de euros ou rendimento médio anual acima de 5 milhões, representavam uma percentagem irrisória da receita de IRS, da ordem dos 0,5 por cento, quando seria de esperar, de acordo com a lei, que pagassem 50 vezes mais. (…) Esta sensação de que existem na sociedade portuguesa dois grupos de pessoas, umas que tudo podem mas que nada devem e outras que pouco podem mas que devem tudo, a sensação de viver numa sociedade não só injusta mas profundamente corrompida, a sensação de impotência perante este estado de coisas, desacredita a democracia, destrói a participação cívica e corrói a sociedade. (…) Os ricos que paguem a crise? Não. Os ricos que paguem o que devem. Apenas isso”.

O segundo facto que enriqueceu a nossa vida nestes últimos dias foi a publicação do estudo sobre “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal”, coordenado pelo professor Carlos Farinha Rodrigues e publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos conclui que nos anos de austeridade quem pagou grande parte da crise foram os mais pobres e que a desigualdade cresceu durante os anos da troika. O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FMS) conclui que as famílias mais pobres foram as que mais sofreram com a crise desde 2009 a 2014. Durante este período os portugueses perderam em média 116 euros mensais, uma quebra que afetou especialmente as famílias mais pobres, com quase um terço dos trabalhadores por conta de outrem a ganhar menos de 700 euros mensais. Estes dados indicam, sem margem para dúvida, que foram os pobres os mais atingidos pela crise e pelas medidas da troika. Dizem os números da Fundação Francisco Manuel dos Santos que em Portugal, em 2009, os 5% mais pobres recebiam 15 vezes menos do que os 5% mais ricos; em 2014, os 5% mais pobres recebiam 19 vezes menos do que os mais ricos.

Houve, como disse um ministro das Finanças do PSD Vítor Gaspar, um “brutal aumento de impostos”, mas esse brutal aumento de impostos, e os cortes sociais, incidiram sobretudo sobre os mais pobres. As conclusões desse estudo FMS são cruéis para os mitos da propaganda, tantas vezes repetidas pelos comentadores de serviço: nem as políticas de austeridade pouparam os mais desfavorecidos, nem a classe médias foi a principal vítima da crise: foram mesmo os mais pobres que pagaram a crise.

A conceção que os mais ricos e os seus papagaios têm da classe média é meramente instrumental e não corresponde a realidade social nenhuma. Os ricos inventaram uma classe que ganha como quem trabalha mas é suposto defender os interesses de quem explora. A classe média transformou-se numa justificação de mau pagador, serve para isentar quem tem uma riqueza muito superior a pagar os devidos impostos. Nós que trabalhamos temos que pagar altíssimas taxas de impostos para que eles possam não pagar nada. E caso os seus bancos vão à falência, cá estamos nós, que nunca recebemos os dividendos deles, para pagar novamente. Como notava a jornalista Elisabete Miranda do “Jornal de Negócios”, citando um ex-diretor geral de impostos, “em qualquer país que leva os impostos a sério, este grupo de privilegiados garante habitualmente cerca de 25% da receita do IRS do ano (palavras de Azevedo Pereira). Por cá, os nossos multimilionários apenas asseguravam 0,5% do total de imposto pessoal. Ou seja, (conclusão nossa), como estamos em Portugal, onde estas coisas da igualdade perante a lei e a equidade tributária são aplicadas com alguma flexibilidade, os “multimilionários” pagam 500 vezes menos do que seria suposto”.

A mais extraordinária lição destes últimos dias é que mostraram, mais uma vez, que para haver um política económica mais justa é preciso o poder político e o poder mediático estar justamente distribuído. Só assim se entende quando 99% da população é esmifrada, os media dominantes justifiquem todas essas medidas, e quando menos de 1% da população pode ser afetada por um imposto sobre a riqueza, parece que vivemos numa situação de calamidade social. É mesmo um caso de voz do dono.