Os testes da esquerda


Os diferentes caminhos de BE e PCP na relação com o governo ditarão muito do seu futuro eleitoral imediato.


Aparentemente a estratégia é simples e não se desvanece. O apoio do BE ao governo minoritário faz-se de preconceitos e desagravos, de provocações no parlamento e testes à resistência no que toca ao entendimento preordenado antes da tomada de posse. Será este o método, num desafio permanente e periódico, que não é mais surpresa.

Assim sendo, a prova maior do acordo entre PS, BE e PCP será essencialmente a dimensão do “abuso da minoria” do BE. O último desses “abusos” é o projecto de modificação do “cartão de cidadão”, feito para eliminar uma alegada discriminação entre sexo que essa fórmula encerra sem mais. Daí ao ataque das reformas simplificadoras do governo de Sócrates na sede da relação dos “cidadãos” com a Administração Pública vai um pequeno passo, que pouco faltará para ser dado. Todavia, o que conta é a linha estratégica cimeira: provocar – na exigência da educação, nas “flexibilidades” do regime laboral, no Banco de Portugal e nos bancos, etc. – até cansar, desgastar até falir, em nome das “causas” e dos “princípios” que intelectualmente suportam as classes dirigentes do BE.

Comprovar até onde é o limite da submissão do PS às suas “propostas”, como conduta imprescindível à manutenção do apoio. Depois, aproveitar no momento certo a erosão interna que certas personalidades governamentais (excessivamente esquecidas de aprender o processo de tomada de decisão política) não se cansam de estimular. Aqui chegados, começa a surgir a percepção: talvez (mas só ainda talvez) os dirigentes do BE, mais do que a oposição declarada e formal, sejam os mais interessados em acelerar as razões para um desentendimento e a queda do governo. Talvez pensem que serão os mais beneficiados com uma nova contagem dos votos e esse mote baseie a actuação. Enquanto isso, capitalizam a bonomia (tantas vezes acrítica) que se enraizou nas audições das propostas do BE. E assim caminham.

Há quem possa ver no método um avanço do BE relativamente à estratégia do PCP. Não creio. A ortodoxia doutrinal, a vinculação às suas ideias carismáticas e a necessidade de prender as bolsas sociais de suporte levam os dirigentes comunistas a serem muito mais cautelosos na sua relação com o governo. Mais consensuais e nunca provocadores. Mais exigentes no carácter estrutural das suas exigências. A interessarem-se mais pela reconquista a curto-prazo do seu poder social (e eleitoral) do que propriamente em fazer passar frases e medidas provocatórias. No fundo, o PCP está a decidir uma vez mais a sua sobrevivência, num jogo duplo – contra o PS e o BE – e complexo – feito de diferença e autonomia.

Quanto a isso, estamos conversados. Jerónimo Sousa e os seus mais leais sabem (igualmente bem) a sua cartilha e não se vão desviar dela. Vejo-os a pedir satisfações sobre a reacção do governo aos fracos desempenhos económicos ou sobre uma possível subida do IVA ou, acima de tudo, sobre a subordinação a uma nova austeridade pedida por Bruxelas e nunca a pedir, como se fossem uma associação de estudantes iniciática, novos “bilhetes de identidade”. Sem prescindir de, no momento certo, pedir contas ao falhanço do governo que suportam até falhar. E então fazer as contas.
Este é ponto: será este caminho mais credível e mais genuíno do que o caminho do BE? 

Em suma: ganhará mais o BE do que o PCP quando insiste em encostar o PS a uma mera retórica de fiabilidade política? Veremos. Mas talvez não sejam em vão as cãs orgulhosas de Jerónimo.

Professor de Direito da Universidadede Coimbra. Jurisconsulto
Escreve à quinta-feira


Os testes da esquerda


Os diferentes caminhos de BE e PCP na relação com o governo ditarão muito do seu futuro eleitoral imediato.


Aparentemente a estratégia é simples e não se desvanece. O apoio do BE ao governo minoritário faz-se de preconceitos e desagravos, de provocações no parlamento e testes à resistência no que toca ao entendimento preordenado antes da tomada de posse. Será este o método, num desafio permanente e periódico, que não é mais surpresa.

Assim sendo, a prova maior do acordo entre PS, BE e PCP será essencialmente a dimensão do “abuso da minoria” do BE. O último desses “abusos” é o projecto de modificação do “cartão de cidadão”, feito para eliminar uma alegada discriminação entre sexo que essa fórmula encerra sem mais. Daí ao ataque das reformas simplificadoras do governo de Sócrates na sede da relação dos “cidadãos” com a Administração Pública vai um pequeno passo, que pouco faltará para ser dado. Todavia, o que conta é a linha estratégica cimeira: provocar – na exigência da educação, nas “flexibilidades” do regime laboral, no Banco de Portugal e nos bancos, etc. – até cansar, desgastar até falir, em nome das “causas” e dos “princípios” que intelectualmente suportam as classes dirigentes do BE.

Comprovar até onde é o limite da submissão do PS às suas “propostas”, como conduta imprescindível à manutenção do apoio. Depois, aproveitar no momento certo a erosão interna que certas personalidades governamentais (excessivamente esquecidas de aprender o processo de tomada de decisão política) não se cansam de estimular. Aqui chegados, começa a surgir a percepção: talvez (mas só ainda talvez) os dirigentes do BE, mais do que a oposição declarada e formal, sejam os mais interessados em acelerar as razões para um desentendimento e a queda do governo. Talvez pensem que serão os mais beneficiados com uma nova contagem dos votos e esse mote baseie a actuação. Enquanto isso, capitalizam a bonomia (tantas vezes acrítica) que se enraizou nas audições das propostas do BE. E assim caminham.

Há quem possa ver no método um avanço do BE relativamente à estratégia do PCP. Não creio. A ortodoxia doutrinal, a vinculação às suas ideias carismáticas e a necessidade de prender as bolsas sociais de suporte levam os dirigentes comunistas a serem muito mais cautelosos na sua relação com o governo. Mais consensuais e nunca provocadores. Mais exigentes no carácter estrutural das suas exigências. A interessarem-se mais pela reconquista a curto-prazo do seu poder social (e eleitoral) do que propriamente em fazer passar frases e medidas provocatórias. No fundo, o PCP está a decidir uma vez mais a sua sobrevivência, num jogo duplo – contra o PS e o BE – e complexo – feito de diferença e autonomia.

Quanto a isso, estamos conversados. Jerónimo Sousa e os seus mais leais sabem (igualmente bem) a sua cartilha e não se vão desviar dela. Vejo-os a pedir satisfações sobre a reacção do governo aos fracos desempenhos económicos ou sobre uma possível subida do IVA ou, acima de tudo, sobre a subordinação a uma nova austeridade pedida por Bruxelas e nunca a pedir, como se fossem uma associação de estudantes iniciática, novos “bilhetes de identidade”. Sem prescindir de, no momento certo, pedir contas ao falhanço do governo que suportam até falhar. E então fazer as contas.
Este é ponto: será este caminho mais credível e mais genuíno do que o caminho do BE? 

Em suma: ganhará mais o BE do que o PCP quando insiste em encostar o PS a uma mera retórica de fiabilidade política? Veremos. Mas talvez não sejam em vão as cãs orgulhosas de Jerónimo.

Professor de Direito da Universidadede Coimbra. Jurisconsulto
Escreve à quinta-feira