O real nunca existiu. O quixotismo de Michel Onfray

O real nunca existiu. O quixotismo de Michel Onfray


Quando se celebram os 400 anos de publicação do livro de Cervantes, a tradução portuguesa de “O Real Nunca Existiu. O Princípio de Dom Quixote” é uma excelente oportunidade para revisitar o quixotismo e repensar a sua atualidade.


Em 1615, dez anos após o primeiro, Miguel de Cervantes publicou o segundo volume de “Dom Quixote”. 400 anos mais tarde, chega-nos, em edição da Cavalo de Ferro, e tradução de Manuela Torres, “O Real Nunca Existiu. O Princípio de Dom Quixote”, de Michel Onfray, ensaio literário-filosófico que, formando parte da sua “Contra-história da Literatura”, engendra uma leitura particular da obra cervantina. Esta obra, publicada em França em 2014, não conquistou a difusão animada pela polémica de outros títulos da série, como “Freud. O Crepúsculo de um Ídolo” ou “A Ordem Libertária. A Via Filosófica de Albert Camus”, mas afina pelo diapasão pessoalíssimo da filosofia do autor, apoderando-se da célebre personagem do cavaleiro da triste figura e de quantos alimentam o seu sentido (Sancho Pança, Dulcineia de Toboso, Rocinante, Maritornes) para fazer vingar o seu pensamento hedonista e libertário.

Inscreve-se assim na longa linhagem, que parte de modo consolidado dos idealistas alemães do século XVIII, dos que se revelam interessados na modulação do Quixote cervantino à sua própria medida, isto é, daqueles que professam, mais do que a devoção ao exercício filológico de decifração do texto, uma filosofia do quixotismo que atualiza a obra cervantina para a compreensão do mundo contemporâneo, recordando que o herói de Cervantes é “mais do que ele próprio: ultrapassa a sua definição física e moral para adquirir um sentido lendário, simultaneamente mitológico, filosófico e emblemático”.

A sobrevivência do romance

O quixotismo moderno tem sido marcado por uma visão dualista amiúde simplista, mas na qual radica, afinal, a fertilidade da sobrevivência do romance. A configuração de uma dicotomia entre o realismo/materialismo do escudeiro Sancho Pança, em dialética com o idealismo delirante e livresco do seu cavaleiro, Dom Quixote, esteve na base das mais diversas opções interpretativas que em torno da obra cervantina se tomaram, desde Garrett a Pascoaes, de Unamuno a Kafka, entre tantos outros, opções essas que resultam na verdade do mencionado quixotismo como princípio filosófico crítico e criativo, mais do que do estrito estudo académico do sentido do texto original. É na medida deste exercício de apropriação que se revela o interesse deste ensaio, no qual é fácil descortinar a tentação de fazer do universo de “Dom Quixote” uma transparência da filosofia do autor francês, através de personagens-tipos que, na tradicional lógica dicotómica dos quixotismos modernos, articulam um cosmos de exegese autoral. 

Não é pois propriamente pela novidade interpretativa do universo desse quixotismo, que se centra na relação ambígua entre uma duplicidade de acesso ao real, entre idealismo e realismo, entre o Quixote para quem “o real nunca existiu” e o Sancho “materialista” e “pragmático”, que encontramos o principal interesse desta obra. Encontrá-lo-emos, isso sim, numa curiosa e incomum afinidade vital de Onfray com o “princípio de Dom Quixote”, que segundo o autor é o de uma denegação idealista moderada pelo pragmatismo do escudeiro. De facto, a biografia de Onfray ajuda-nos a situar o seu interesse pela obra cervantina, não ignorando o assumido peso do biografismo na sua própria obra filosófica, segundo a qual os problemas que são motivo de reflexão resultam de angústias pessoais que vão arquitetando um sentido ético e práxico para a existência individual. 

O orfanato Recordemos apenas que Onfray, filho de camponeses, a partir dos 10 anos de idade passou a viver num orfanato salesiano, dadas as carências financeiras daqueles, numa experiência que, segundo narra o próprio, lhe revelou o princípio da violência, física e psicológica, exercida com o fim de cristalizar uma hierarquia assente na submissão voluntária, da qual se terá libertado, como afinal Quixote de um real que ao longo do romance é sistematicamente acusado de severas injustiças, pelo vicioso imaginário das leituras. 

Por meio destas – mais a mais com a posterior formação filosófica nutrida por textos de Marx, Nietzsche, Stirner, Bakunin, Proudhon ou Krotopkin – terá conquistado um espírito de rebeldia que tem atravessado grande parte da sua posição pública, quer no juvenil enfrentamento pessoal com a lógica despersonalizadora da indústria queijeira em que se empregou como operário aos 18 anos, enfrentando um capataz e recusando ele próprio o lenitivo de ser promovido à dita função pelo despotismo distribuído em recursos paliativos do proprietário, ou demitindo-se mais tarde do Lycée de Caen, recusando a ordem burocrática da “filosofia educativa” reinante, servida em formulários e currículos totalmente alinhados com o servilismo acrítico ao serviço da profissionalização integral do humano.

Foi então que lançou o incómodo “Antimanual de Filosofia” (2001), propositadamente mordaz e não-académico (pejado de perguntas como “Ainda resta em vós muito de chimpanzé?”, “Porque não se masturbam no pátio da escola?”, “O que é que faz a Gioconda na sala de jantar dos vossos avós?”, “Porque é que a vossa escola está construída como uma prisão?”) e fundou, no ano seguinte, a Universidade Popular de Caen, onde o ensejo de democratização do conhecimento se vincula à eleição de três princípios palpáveis: gratuitidade, liberdade de frequência e a agora tão na ordem do dia eliminação dos exames.

Este sumário ajuda-nos, por um lado, a esclarecer o sentido e o contexto desta contra-história da filosofia, com o ensejo de revisitar autores e textos silenciados, ou ainda de questionar as versões interpretativas dominantes; com efeito, os textos que se reúnem na referida série resultam da sua atividade docente, e por eles passaram já o cínico Diógenes, “o Cão”, que arremetia contra os bons costumes, o Montaigne hedonista, o pagão e dionisíaco Cyrano de Bergerac, o antropocentrista radical D’Holbach, entre tantos outros, assim como visaram já o vivaz protesto contra as propostas e as interpretações dominantes de Freud ou de Sartre. Esta atitude polemista tem-lhe valido, é certo, um cruzamento vital com uma série de ironias: o sucesso comercial da sua obra é avassalador, tendo em conta a realidade do mercado do texto filosófico, e a sua presença mediática é enorme, em grande medida em virtude justamente da sua veia polemista de propalação contracultural que é bem um modo de encetar um caminho dependente de uma lógica canónica instalada e de que afinal se serve, como revela a proliferação de prefixos de negação e oposição nos seus títulos.

A ordem libertária de Quixote

Talvez por isso acabe frequentemente por se ficar por um meio-termo de que a defesa de uma “ordem libertária” é bem a expressão. Essa ordem libertária, mais até do que em Proudhon, fá-la radicar na figura de Dom Quixote – ou no quixotismo como princípio, mas um quixotismo afinal moderado pelo elogio do materialismo que erroneamente não encontra no cavaleiro, numa reincidência do dualismo já mencionado. Esse quixotismo surge como princípio de voluntarismo e de fé (como fora já para Unamuno) de horizonte ético: contra um mundo desprovido de sentido, em que os exemplos de injustiças se multiplicam, um delirante pseudo-cavaleiro de fraca figura reivindica a honra, a renúncia, a degradação e o horror, num agonismo perpétuo de um autêntico exilado, como o descreve Onfray, como aquele que se sente perpetuamente estrangeiro perante uma realidade repulsiva, excitado de leituras

Onfray revisita o texto cervantino descortinando nele o princípio de uma “religião do ideal”, a “paixão furiosa pelas ideias em detrimento da realidade”, com certo humor e um muito pouco académico estilo prenhe de assertividade, revelando a admiração pela modernidade de uma figura em denegação, incapaz de reconhecer a verdade dos outros.

Embora aborde esse individualismo heróico (dele falara já Ortega y Gasset e também Unamuno, sublinhando, como o francês, aquele “Eu sei quem sou!” do cavaleiro), Onfray denuncia não ser insensível à visão depreciativa associada ao quixotismo, tão comum atualmente, não levando nunca a cabo uma apropriação tão radical como aquela que subjaz ao quixotismo de um Miguel de Unamuno, que bem mereceria uma revisitação, no quadro atual. Nele descobriríamos, naturalmente com mais assertividade do que em Onfray, a defesa do idealismo espanhol (que Pascoaes, influenciado por Unamuno, associava ao nosso Saudosismo) contra o racionalismo europeu, o elogio da afinalidade do prazer e da luta, animados em si mesmos por uma força vital, a postulação da arbitrariedade da imaginação ao serviço da realização do indivíduo, acima de toda e qualquer outra coisa, a extraordinária aventura do quixotismo como inabalável fé no impreciso, no não matemático, no não dado, como força do criado, transformando pouco a pouco o mundo apenas por, como Alonso Quijano, levar a leitura a sério, viver como se fosse nos livros.