Missouri. A força de uma equipa na luta contra o racismo

Missouri. A força de uma equipa na luta contra o racismo


Greve de 32 jogadores de futebol americano teve papel decisivo na luta da comunidade negra contra as tensões raciais. Tim Wolfe, o presidente, foi forçado a demitir-se.


A tensão racial tem sido um grande problema dos Estados Unidos. O número de mortes está a aumentar e, por muito que Barack Obama apele à mudança, tem sido impossível travar ou abrandar a repetição de episódios. Neste campo, o Missouri não só está no coração do país como é o epicentro dos incidentes. Quando Michael Brown foi morto por um polícia em Ferguson, a 9 de Agosto de 2014, a situação descontrolou-se. Houve manifestações, confrontos com as forças policiais e o nascimento de um movimento em defesa do valor da vida dos negros: Black Lives Matter.

A tensão voltou a aumentar sete meses depois, quando o Departamento da Justiça norte-americano anunciou que o polícia Darren Wilson não seria culpado de homicídio. “Não houve prova encontrada que desmentisse o testemunho de que [o polícia] tinha agido em legítima defesa”, pode ler-se, estranhando-se também os relatos de que Michael Brown teria levantado os braços antes do disparo. “A informação é pouco rigorosa e não está de acordo com as provas físicas e forenses”, continuava.

O campus da Universidade do Missouri fica a apenas duas horas de viagem de Ferguson. Foi lá que se verificou um novo sismo nas tensões raciais, numa faculdade com uma minoria negra de 12% (no estado é ainda mais pequena – 8%). O relato dos episódios começou em Setembro quando Payton Head, presidente de uma organização de estudantes, se queixou de que tinha sido vitima de insultos raciais por parte de gente que circulava dentro de uma carrinha de caixa aberta. No mês seguinte, um grupo de estudantes revelou que tinha sido vítima do mesmo, mas por parte de um universitário bêbedo.

A repetição de casos levou a que a situação fosse reportada à universidade, numa iniciativa que deu início às críticas à actuação de Timothy Wolfe, o presidente da instituição. A sua crescente passividade foi posta na linha de mira e nem o bloqueio da viatura à saída de uma parada serviu para garantir uma posição oficial. Os manifestantes foram retirados da estrada pelas forças policiais sem que Wolfe saísse do carro. Depois surgiu a gota que ajudou a fazer transbordar o copo, quando uma cruz suástica foi desenhada com fezes na casa de banho de um dos dormitórios.

A resposta oficial nunca satisfez os manifestantes que lutavam por igualdade. A escola anunciou planos para começar acções de promoção de diversidade em Janeiro de 2016 e na sexta-feira o administrador principal do campus, Richard Bowen Loftin, condenou o episódio da suástica. Não foi suficiente. Por essa altura já Jonathan Butler tinha optado por extremar posições e iniciar uma greve de fome que só seria interrompida quando Wolfe abandonasse o cargo. “É nojento e vil perceber o sítio em que estamos”, criticou a 2 de Novembro, justificando a acção.

O sábado marcou um ponto de viragem. Pela primeira vez na história do desporto universitário nos Estados Unidos, uma equipa juntou-se e fez valer a sua força quando 32 jogadores negros fizeram questão de se juntar à luta e garantir que não voltariam a treinar enquanto Timothy Wolfe não se demitisse ou fosse removido do cargo “devido à negligência mostrada a lidar com as experiências que marginalizavam estudantes”.

A acção foi apoiada pelo treinador, Gary Pinkel, e pelo próprio departamento desportivo. “Estamos ao corrente da decisão tomada por muitos dos nossos estudantes-atletas. Devemos estar todos juntos para fazer frente a estes difíceis desafios e apoiamos os nossos atletas neste direito”, anunciaram em comunicado. Nesse mesmo dia, Wolfe comentou a instabilidade da situação e a greve de fome de Butler: “Estou muito preocupado com a sua saúde. A sua voz a reclamar justiça social é importante e poderosa. Ele está a ser ouvido, eu estou a ouvi-lo. Estou agradecido à sua capacidade de liderar outros estudantes no processo de consciencialização dos problemas de racismo, injustiça e intolerância.” Sobre a equipa de futebol americano nada disse.

O problema de racismo é transversal aos Estados Unidos mas o caso só ganhou destaque quando o grupo de jogadores agiu e tomou uma posição pública, que depressa se espalhou nas redes sociais. Jay Nixon, governador democrata do Missouri desde Janeiro de 2009, sublinhou a ideia de que “o racismo e a intolerância não têm espaço na universidade nem noutro lugar qualquer do estado”. “Deve ser um local onde todos os estudantes possam perseguir os seus sonhos num ambiente de respeito, tolerância e inclusão”, reforçou.

O início do princípio do fim A ameaça de parte da equipa era real e poderia ter repercussões graves. Se não houvesse jogo no próximo sábado, a universidade seria obrigada a pagar um milhão de dólares.
Não chegou a esse ponto. Timothy Wolfe não resistiu à pressão e anunciou a demissão na segunda-feira. “Ponderei muito este assunto. Creio que a minha saída é o passo certo. A frustração e raiva que vejo é real e não duvido dela por um segundo. Assumo total responsabilidade pelas acções que ocorreram. Pedi a toda a gente que use a minha demissão como forma de cura. Temos de nos concentrar na mudança que podemos fazer hoje e amanhã, não no que não se pode mudar no passado. É necessária mudança e está a ser preparado um plano para promover a diversidade e a tolerância.”

A reacção de Wolfe foi bem vista em vários quadrantes. Jonathan Butler decidiu pôr fim à greve de fome e a equipa emitiu um comunicado, ainda antes de ter regressado ontem aos treinos. “Quisemos apenas usar esta plataforma para apoiar um colega, havia uma vida em risco. Tendo em conta o fim da greve de fome, vamos suspender a nossa greve de solidariedade e voltar à rotina. […] Através desta experiência, começámos realmente a fazer uma ponte na separação entre o ‘estudante’ e o ‘atleta’ na expressão ‘estudante-atleta’. Vamos continuar a estreitar ligações com a comunidade e apoiar a mudança positiva no campus. Apesar de não passarmos pelo mesmo que um estudante normal passa e as nossas dificuldades parecerem por vezes diferentes, somos todos ‘ConcernedStudent1950’”, pode ler-se na nota, em referência ao movimento que liderou as acções e as exigências de mudanças no campus.

Caixa de pandora A iniciativa dos Missouri Tigers estabeleceu um precedente que poderá vir a mudar a face do desporto universitário. Charles Harris, um dos jogadores que assinaram o comunicado, espera que “esta lição permita a todos os atletas espalhados pelo país perceber que têm força”.
Para Shaun Harper, director-executivo dos Estudos de Raça e Igualdade na Educação da Universidade da Pensilvânia, é de saudar o facto de os jogadores negros da equipa “terem percebido que têm poder”. “Isso é muito raro. Nunca na história moderna vimos estudantes negros juntaram-se e demonstrarem a sua força”, acrescentou à Fox Sports.
O impacto no futuro não se limita a questões raciais. O desporto universitário é uma enorme fonte de rendimento das instituições – seja através das transmissões televisivas seja dos resultados obtidos –, mas os jogadores continuam a não ser pagos. Há muito que se prevê um movimento colectivo a médio prazo para alterar o desequilíbrio de rendimentos e a demonstração no Missouri poderá precipitar o início de uma nova era, em que os elementos recebam de acordo com a receita que, quase exclusivamente, têm a responsabilidade de gerar. É considerada uma questão de tempo.