Opinião. A estratégia do desespero


O PS vive tempos dramáticos a lembrar um peronismo recalcado. É um tempo do vale tudo. 


© Miguel A. Lopes/Lusa

No actual contexto, só alguém que nunca governou pode acreditar nesta aliança à esquerda, ou alguém que governou e que só o faça por desespero. Ainda quero acreditar que tudo não passa de mais um dos típicos ziguezagues e indecisões que caracterizam a falta de rumo e estratégia de António Costa, mas que no fim o bom senso prevalecerá. O PS deve reafirmar o seu papel de oposição responsável e viabilizar o governo de quem efectivamente venceu as eleições. 

Ou será que alguém acha que o país está em condições para entrar numa discussão sobre a sua permanência na União Europeia, ou de colocar em causa a trajectória que, quer concordemos ou não, levou a que Portugal tenha ganho credibilidade junto de quem nos empresta dinheiro e desse modo melhorando as condições de acesso ao crédito por parte do Estado e do nosso sector financeiro e empresarial, o que constitui o factor mais decisivo para a criação de emprego e riqueza?  

Não viram o que aconteceu na Grécia? Qual é a parte que não percebem? Não vale pena continuar a não enfrentar a realidade. O PS perdeu as eleições e os portugueses demonstraram não confiar no PS.

E é o descrédito total ver os mesmos que na vitória curta de António José Seguro, nas Europeias, liam falta de mobilização e confiança dos portugueses, vejam agora na derrota clara de Costa razões para continuar e que até seja o próximo primeiro-ministro.

Tudo em nome da sobrevivência política de uma oligarquia agarrada a Costa como bóia de salvação por algum naco de poder, seja presidente da Assembleia da República, um lugar no Conselho de Estado, num hipotético governo, ou numa outra colocação qualquer, nem que para isso, até confundam PS com Bloco de Esquerda, no que pode vir a constituir a causa da destruição e cisão do PS tal como o conhecemos.

O PS vive tempos dramáticos a lembrar um peronismo recalcado. É um tempo do vale tudo. De quem, num dia, diz que se revê em Manuela Ferreira Leite e, noutro dia, negoceia com o Bloco e PCP as bases programáticas de um futuro governo numa espécie de aliança negativa que ainda na noite das eleições era negada. 

Quem pode confiar ou perceber uma coisa assim? Parem. Pelo menos que exista um último pingo de bom senso e se salve a face do PS através da obtenção de ganhos e contrapartidas nas negociações para viabilização do governo da coligação com a dignidade exigível e vantagens concretas na melhoria das condições de vida dos portugueses.

Até porque a Coligação sabe que perdeu 700 mil votos e a maioria absoluta, e que terá que obrigatoriamente mudar e procurar consensos. Por fim, um último conselho: a vida real não pode ser confundida com séries de ficção política e não é o silêncio subserviente que pode esconder, tal como na outra fábula o que já todos perceberam, que o rei vai nu.

Consultor de Comunicação
Ex-assessor de António Guterres, José Socrates e António José Seguro