Júlia Pereira. “Já me foram recusados trabalhos por ser transexual”

Júlia Pereira. “Já me foram recusados trabalhos por ser transexual”


Aos 25 anos, pode vir fazer história em Portugal. Caso seja eleita, vai ser a primeira deputada transexual no parlamento.


Júlia Pereira quer combater a discriminação e a falta de informação sobre a transexualidade que existe num país “conservador” como Portugal. Concorre em segundo lugar nas listas do Bloco de Esquerda pelo distrito de Setúbal e, caso seja eleita, pretende ser a voz das minorias na Assembleia da República. 

Portugal ainda é um país muito conservador? 
Sim. Centrando-me nas questões de género, temos legislação avançada, mas práticas bastante recuadas. As minorias sexuais são muito vulneráveis no nosso país e ainda há muita recusa em encarar as suas realidades de frente e combater a discriminação.

Quais as mudanças mais prementes que ainda temos de concretizar no que diz respeito às minorias? 
É preciso inverter a actual situação de invisibilidade. É preciso ouvir os cidadãos na primeira pessoa, saber o que têm a dizer. No campo legislativo, é necessário construir leis que correspondam às verdadeiras necessidades de cada um. Às pessoas transexuais falta reconhecimento e respeito. Precisamos de alterar a Lei de identidade de género, de forma a garantir o direito à autodeterminação, e que o policiamento das identidades, baseado num diagnóstico de saúde mental, termine.

Sentiu a discriminação na pele? Quais os maiores problemas que teve de enfrentar?
Senti e continuo a sentir a discriminação. Antes de alterar o nome e a menção ao sexo nos documentos era pior. Mas continuo a ser discriminada, no acesso a vários serviços, nomeadamente cuidados de saúde e, sobretudo, no acesso a trabalho. Já me foram recusados trabalhos por ser transexual.

O seu trabalho como activista é conhecido a nível europeu. Porque decidiu envolver-se na política?
O meu activismo foi sempre político, não me estou a envolver só agora. Os direitos das pessoas transexuais são a minha maior preocupação, por serem os que primeiro me tocaram a pele. A cidadania plena ainda nos é negada e por isso acredito tanto na importância de estar visível e disponível para falar com todo o tipo de pessoas. É onde esta candidatura se insere mas os meus interesses políticos são mais vastos. Preocupa-me por exemplo, a precariedade que atinge a minha geração. Eu própria, à semelhança de tantos jovens em Portugal, sou uma pessoa altamente qualificada, fiz vários cursos, e não consigo encontrar oportunidades de trabalho na minha área.

Pode fazer história como a primeira deputada transexual no parlamento. Como se sente nessa pele? 
Eu sinto-me bem na minha pele. Ainda há muito poucas pessoas transexuais na política. Isto em termos globais. No entanto, cada vez mais os direitos trans são discutidos entre os decisores políticos. Têm de nos ser dado o direito a uma voz e a participar nas decisões que estão a ser tomadas. Queremos estar na linha da frente, a representar-nos a nós próprios, cada vez que se fala da nossa causa.

Como pensa que os portugueses vêem esta possibilidade?
Até este momento, avalio o impacto geral da minha candidatura como positivo. Acredito que há espaço em Portugal para que uma pessoa transexual desempenhe um cargo político.

Ainda há muita falta de informação sobre a transexualidade?
Sem dúvida. Prefiro dizer que falamos sobre questões trans, abrangendo um debate alargado sobre diversidade de género e as normas que restringem as pessoas a categorias polarizadas de masculino e feminino. É preciso quebrar estereótipos e combater a discriminação.

O seu eventual mandato na Assembleia vai ser focado na chamada de atenção para as questões das minorias? 
É claro que serei uma voz para as minorias na Assembleia da República, sobretudo para as pessoas transexuais. No entanto, como já referi, estou capacitada, profissional e academicamente, para fazer mais.

Que causas quer colocar primeiro na agenda?
A revisão da Lei de identidade de género, garantido o reconhecimento à autodeterminação e eliminando desta lei requisitos abusivos, como é a exigência de um diagnóstico na área da saúde mental, é uma prioridade. Mas também são prioridades combater os retrocessos relativos à interrupção voluntária da gravidez, garantir a igualdade no acesso à procriação medicamente assistida ou eliminar a discriminação contra casais do mesmo sexo no acesso à adopção.