Dalai Lama. Sexo, drogas, rock n’roll & uma lágrima pelo Tibete

Dalai Lama. Sexo, drogas, rock n’roll & uma lágrima pelo Tibete


O líder budista tibetano celebra os 80 anos na Califórnia.


A festa de anos do Dalai Lama começou no domingo e acaba hoje, em Anaheim, na Califórnia: 18 mil pessoas encheram um centro de congressos. Para terem direito a um lugar no recinto os simpatizantes e activistas pagaram entre 31 e 163 euros. O evento chama-se “cimeira mundial da compaixão”, tendo passado ontem para a Universidade da Califórnia em Irvine, com os ingressos mais caros a descerem para os 84 euros.

O líder espiritual celebrou o seu 80.o aniversário. Está de boa saúde e confiante de que não entrou na recta final. Numa entrevista dada o ano passado ao jornal alemão “Welt am Sonntag” disse que os médicos lhe tinham dado esperança de viver até aos 100, e ele adiantou que nos seus sonhos se vê a viver até aos 113. Mas esses são os anos do corpo, porque para os monges tibetanos, o seu líder – que vai na 14.a reencarnação – celebrou o seu verdadeiro aniversário o mês passado. Segundo o calendário lunar tibetano, a grande data é 21 de Junho. A celebração decorreu em Dharamsala, no Norte da Índia, onde fica a sede do governo tibetano no exílio. Uma semana depois, o Dalai Lama subiu ao palco do Festival de Glastonbury (Inglaterra) e ao lado de Patti Smith ouviu as 100 mil pessoas na audiência cantarem-lhe os parabéns. Depois foi a sua vez de, com o sereno carisma que fez dele uma estrela mundial, oferecer a mensagem de amor, perdão e tolerância como simetria do grito rebelde sexo, drogas e rock n’roll.

O homem que insiste que não passa de um simples monge budista é há muito uma das coqueluches de um activismo que vai de mão dada com as grandes manifestações da boa conciência dos países desenvolvidos, dos festivais de rock à corrente do budismo que apanhou boleia dos fenómenos de auto-ajuda –, com muitos a encararem o Dalai Lama como mais um guru dos buffets do novo espiritualismo. Galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 1989, é o grande anátema das autoridades chinesas, que o acusam de ser “um lobo na pele de um cordeiro”. A discórdia nasceu da ocupação pelas tropas chinesas de um território algo inóspito onde vivem hoje três milhões de pessoas e que se estende por uma área 14 vezes maior que Portugal. O Tibete é, segundo o governo chinês, uma região que há séculos integra o seu território, mas quando Lhamo Döndrub (o Dalai Lama) nasceu na aldeia de Taktser, em 1935, o território era para todos os efeitos uma nação independente. O decadente império Qing não tinha qualquer controlo sobre a região.

O estatuto lendário do líder, conhecido pelo seu povo como “Kundun” – que significa “presença” –, nasce da profunda ligação que mantém com os tibetanos, tanto com a comunidade exilada como com os que permanecem no território ocupado. Após a fuga a cavalo através das montanhas dos Himalaias para a Índia, na sequência de uma rebelião frustrada contra a administração chinesa, há 56 anos, tem vivido dedicado ao singular propósito de afirmar os mais nobres valores da cultura tibetana, assumindo preeminência no cenário mundial como defensor dos direitos humanos e da mensagem de esperança, não só para o seu povo como para todos os que vivem sob o jugo de regimes opressivos.

A história do Tibete sob ocupação chinesa é a história de um povo barbaramente subjugado, através do constante assédio, da demolição dos seus lugares de culto, das prisões e da tortura brutal. Bastariam os crimes cometidos contra os tibetanos para fazer de Pequim a principal ameaça que o futuro representa para os direitos humanos. Desde 2008 a situação piorou e mais de 140 tibetanos deram a vida imolando-se em protesto contra a opressão do Partido Comunista Chinês e a campanha deste para desacreditar o seu líder religioso. Também conhecido como “o refugiado do mundo”, o Dalai Lama tornou-se uma figura imensamente popular, e se muitas vezes surge ao lado de vedetas inócuas que tossem apelos à paz, o grande sucesso do líder tibetano é não ter permitido que a tragédia do seu povo fosse esquecida.