Referendo. Os cenários para o “day-after” de cada resultado

Referendo. Os cenários para o “day-after” de cada resultado


Independentemente da resposta que sair vitoriosa, as perspectivas para os dias seguintes ao referendo não são animadoras e vão exigir maior espírito negocial


Assim que o referendo grego foi convocado eclodiram logo dois focos de propaganda, um do lado europeu e outro do governo grego. Os primeiros fizeram do referendo uma consulta sobre a vontade dos gregos em ficar na União Europeia e os segundos tornaram a consulta numa resposta às ameaças e ultimatos recebidos mas também num acto de defesa da democracia.

Ao longo da semana foram sendo dados vários sinais do que poderá acontecer tanto se vencer o "sim" como se vencer o "não". Eis alguns:

Ganha o “sim” ao acordo de austeridade

Yannis Varoufakis, ministro das Finanças grego, já deixou bem claro que apresentará a sua demissão já que, explicou à “Bloomberg”, recusa assinar um acordo que significa mais recessão e miséria e também que a Europa não aprendeu nada os erros dos acordos anteriores. Também Alexis Tsipras deu sinais no mesmo sentido: “Se o povo grego quer ter um primeiro-ministro humilhado, já tem muitos por onde escolher. Eu não serei”, chegou a referir numa das várias entrevistas à televisão dadas esta semana.

Em caso de demissão do governo, avançam novas eleições e aqui é que a coisa complica (mais): primeiro, pela vontade dos líderes europeus. Esta quinta-feira foi Martin Schulz quem explicou o projecto do lado europeu. Segundo o presidente do Parlamento Europeu, caso o Syriza apresente a demissão então terá que ser substituído por um governo de tecnocratas que assine o acordo com os credores de forma a que o próximo governo (já eleito) herde o novo pacote de austeridade.

Já do lado grego a situação vê-se da seguinte forma: saindo o Syriza, convocam-se eleições provavelmente para Setembro. Já para os meses entre a demissão e as eleições, caberá ao Presidente procurar um governo de transição envolvendo vários partidos, governo esse que teria que lidar com as negociações com os credores de forma a que a economia não colapse até ao novo governo entrar em funções.

Mas como encontrar um governo de transição que inclua vários partidos, quando os mais votados estão em extremos opostos e os do “arco da governação” caíram em desgraça? Os partidos pro-europeus já se ofereceram para esse papel, falamos do Potami, PASOK e da Nova Democracia, que os eleitores gregos culpam pela recessão interminável em que caiu o país com as cedências à troika. Estes três partidos, porém, são donos de apenas 106 dos 300 lugares do parlamento o que significa que para formar governo teriam sempre que procurar o apoio do Syriza ou dos Gregos Independentes, que são os partidos da actual coligação de governo – e cada um mais antiausteridade que o outro. O governo teria que ser liderado por um independente.

Por outro lado há também a hipótese do governo de Tsipras não se demitir mesmo em caso de vitória do “Sim”, pelo que caberia a este continuar as negociações com os credores. Assegurada alguma estabilidade, Tsipras poderia então demitir-se.

Outra pergunta no entanto se levanta, mais de médio-prazo: em caso de novas eleições, que governo irão os gregos escolher? Se o Syriza ganhar novamente, como fica a situação? E será que alguns eleitores voltarão para os partidos que governaram nos últimos anos? Ou os partidos da direita nacionalista e de extrema-direita ganharão mais votos? Uma incógnita.

Ganha o “não” ao acordo de austeridade

Para o governo grego, não há dúvidas: só a vitória do “não” dará mais força negocial a Atenas para negociar com Bruxelas e conter o apetite pela austeridade dos países da zona euro. Já para os líderes europeus, nada mais errado. A vitória do “Não” servirá de pouco no campo negocial, disse Jeroen Dijsselbloem, líder do Eurogrupo.

No entender dos líderes dos países do euro, o “não” grego significará mais do que a simples rejeição do novo pacote de austeridade, significará mesmo a rejeição da moeda única e do financiamento dos credores. Esta tem sido a ideia mais repetida por quase toda a Europa. Só esta sexta-feira é que Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, veio a público negar que o "não" signifique a expulsão da Grécia da moeda única.

Então o que acontece? Como temos vistos nos últimos meses (anos), nesta crise tudo pode mudar de um dia para o outro menos a austeridade. Logo, e em caso de vitória do "não" a essa mesma austeridade, as incógnitas são ainda maiores: os credores da Grécia podem, por exemplo, decidir ajustar a sua posição em função do resultado do referendo, facilitando um acordo menos recessivo para Atenas e dando espaço à economia helénica respirar.

Os credores também podem simplesmente ignorar os resultados do referendo e continuar a forçar um acordo à sua medida o que significa então que a Grécia fica (ainda mais) em risco: o sistema bancário deverá continuar fechado por opção do BCE e a economia grega entra em implosão em poucos dias. Confrontado com tal colapso, Tsipras dará por si esmagado pela pressão para chegar a um acordo a qualquer custo… ou simplesmente decidir lançar uma nova unidade monetária e iniciar o processo de saída da moeda única.