Isabel Cruz Almeida. “Há uma memória doida nestas paredes”

Isabel Cruz Almeida. “Há uma memória doida nestas paredes”


Já perdeu a conta ao número de reis e presidentes a quem fez visitas guiadas. Desde 1984 que dirige o monumento mais visitado do país, o Mosteiro dos Jerónimos.


O gabinete de Isabel Cruz Almeida fica no piso superior do claustro dos Jerónimos, no mesmo lugar onde outrora pernoitaram os reis D. Manuel I e Filipe II. Nas paredes há estantes com livros sobre o mosteiro e catálogos de exposições, mas também recordações de viagens.
E até uma colecção de rinocerontes em miniatura. “Dediquei uma exposição ao rinoceronte que está esculpido na Torre de Belém”, explica a directora do monumento, que desde 1985 tem também sob a sua alçada a torre. “E foi uma bola de neve. As pessoas passaram a achar que eu adorava estes animais e todos me ofereciam rinocerontes.”

Ao longo do seu consulado, Isabel Cruz Almeida conseguiu um aumento exponencial do número de visitantes. Em 2014, o mosteiro recebeu mais de 800 mil (em 1994 recebeu 300 mil), e a Torre de Belém mais de 600 mil. Além disso, fez importantes obras de restauro: do claustro, da capela-mor (cujas pinturas ganharam uma nova vida), do refeitório e do exterior da torre. Mas a sua função passa também por receber chefes de Estado em visita oficial ao nosso país. As gavetas da sua secretária estão cheias de fotografias em que aparece ao lado de algumas das mais influentes figuras das últimas décadas, como Ronald Reagan, o rei Juan Carlos de Espanha, o Papa Bento XVI, Hillary Clinton, Bill Gates ou José Eduardo dos Santos.

Aqui no seu gabinete ouve-se o som de gaivotas. Dizia-me há pouco que um dos grandes problemas com que tem de lidar são as aves.

Quando vim para aqui, a fachada era atingidíssima pelos pombos. Agora temos um sistema de rede que produz um choque – aqueles estalidos eléctricos que se ouve quando passamos à frente do mosteiro. Mas os pombos começaram a entrar por debaixo da porta da igreja e daí passaram para o claustro. A câmara ajudou-
-nos a montar umas gaiolas grandes, em que eles não morriam, ficavam presos, e a câmara levava-os. Mas não os matava.

E as gaivotas, de onde vêm?

Depois dos pombos aparece a colónia de gaivotas, que começam a matar os pombos. Tinham aqui uma situação ideal: uns terraços belíssimos onde podiam andar completamente à vontade e iam beber ao tanque. Por isso tirámos a água do tanque e começámos a estudar o problema. Foi-nos transmitido que nas marinas usavam uns sons para as afugentar. Um deles é uma espécie de grito que a gaivota faz ao sofrer o ataque de uma ave de rapina.

Esses sons são emitidos por altifalantes?

Sim. Estão colocados na cobertura e o público não ouve. Também pusemos uns bufos de plástico. Com o vento, as asas ficam cheias e isso assusta as gaivotas. Mas elas vão-se habituando e começam a perceber que não são atacadas.

As aves estragam a pedra?

E não só. Também se colocam questões de saúde. Há imensas associações protectoras das pombas e quando aparece uma pomba no chão pensam que alguém a matou. Até já tivemos funcionários chamados a depor na polícia. Mas não é nada disso. Caem porque estão doentes.

Esta parte do mosteiro que tem entrada paga é gerida por si [Direcção-Geral do Património], enquanto o espaço da igreja é gerido pela paróquia. Já houve conflitos por causa disso?

Há histórias engraçadíssimas, como a do crucifixo do coro alto. Era uma peça muito boa – aliás, nem chegou a sair para a Europália [grande exposição sobre cultura portuguesa em Bruxelas, em 1991], tal era a responsabilidade. Acontece que o padre da altura, o padre Canas, queria ter o crucifixo voltado para ele enquanto dava a missa. Mas eu achava isso uma pena, então fui perguntando a vários padres se, a nível litúrgico, era um erro grave virar o crucifixo para o público.
E todos me diziam que não. Um dia entro no Museu de Arqueologia e o senhor cónego – um homem alto, forte, que usava uma capa púrpura – avança por ali adiante e vai fazer queixa de mim porque eu tinha virado o crucifixo.

Teve de voltar atrás?

Não. Nesse mesmo ano, em 1985, o sr. cardeal-patriarca, D. António Ribeiro, presidiu a uma cerimónia da Universidade Católica aqui no mosteiro, no refeitório. Quando eu vou cumprimentá-lo, ele diz-me: “Dra. Isabel, finalmente temos o crucifixo no sítio certo.” E ficou resolvido.

Este local onde nos encontramos era a hospedaria real. Quem ficava aqui hospedado?

Por vezes, os próprios reis.

Em que época?

No século XVI. D. Manuel I, por exemplo, ficava na hospedaria. Este foi o grande projecto da sua vida. Já D. João III não deu tanta atenção. Reza a história que ele não teria perdoado ao pai o facto de ter casado com a mulher que lhe era [a D. João III] destinada. Por isso, D. João III desvia a vintena da pimenta [importante imposto que rendia 70 kg de ouro anuais] para Tomar. Voltando à hospedaria, Filipe II também aqui ficou. Aliás, temos testemunhos muito engraçados, porque ele escreveu várias cartas aqui, nomeadamente às filhas.

E como podemos imaginar o dia-a-dia dos monges?

Regiam-se pela ordem agostiniana. Passavam uma grande parte do seu dia no coro alto e tinham um tempo de oração bastante prolongado [os monges rezavam sete vezes por dia].

Também trabalhavam? Cultivavam?

Eram mais ligados à parte da reflexão, da oração. Mas tinham aqui áreas enormes de cultivo. A maneira como era organizada a produção, os pomares, os grandes tanques de rega, tudo isso foi depois aproveitado pela Casa Pia, que chegou a ter uma escola de agricultura.

Quando foi o mosteiro entregue à Casa Pia?

Depois da extinção das ordens religiosas. Havia aqui salas de aulas, dormitórios de miúdos. Aliás, temos fotografias fantásticas dos jovens casapianos a terem aulas de ginástica nos claustros, ainda no século XIX. Foram as primeiras aulas de ginástica em Portugal. Depois, quando veio a Primeira Guerra, instalaram-
-se aqui aquartelamentos. E até já antes, nas invasões napoleónicas, isto tinha servido para aquartelamento das tropas inglesas. Há uma memória doida nestas paredes.

Licenciou-se em História. Havia tradição de historiadores na família?

É um gosto que vem desde pequenina. Em miúda, um dos livros que eu lia e relia era o “Deuses, Túmulos e Sábios” [de C. Walter Ceram], sobre as grandes escavações. Tinha o sonho de seguir Arqueologia e no final do curso ainda cheguei a estar em várias escavações. Adorei. Ao mesmo tempo, a área dos museus também me interessava, talvez por causa dos meus pais. Ao fim da manhã de domingo íamos à missa e a seguir íamos sempre a um museu. “Hoje vamos descobrir esta peça.” Isso ficou sempre na minha memória como algo de muito bonito e muito empolgante.

O que faziam os seus pais?

O meu pai fez a carreira toda da magistratura. A minha mãe, não. Deixou os estudos, como era tão frequente naquela altura.

Como era o ambiente familiar?

Muito harmonioso. Tivemos uma juventude muito boa e ainda hoje somos muito amigos. O meu pai não podia estar tão presente. Mesmo assim, cultivava muito as conversas à mesa e que a seguir ao jantar lêssemos poesia. Fazíamos até concursos de poesia entre nós.

Não tinham televisão?

Tínhamos, mas era para ser usada com parcimónia.

Onde viviam?

O meu pai, na magistratura, passou muito de terra para terra. O meu irmão mais velho ainda esteve em Reguengos de Monsaraz, eu já nasci na Lousã. Depois o meu pai foi para Viseu, aí foi procurador-geral da República, depois Leiria, depois Coimbra.

Ao mudar tanto de terra para terra não sentia que ia perdendo os seus amigos?

Não muito. Eu fui aquela que esteve mais tempo sem grandes mudanças, mas os meus irmãos ainda hoje mantêm amizades desses tempos.

Chegou aqui ao mosteiro em 1984.
A entrada na altura já era paga?

Sim, mas era um preço simbólico. Talvez um escudo e meio, não tenho a certeza.

Lembra-se do primeiro dia de trabalho?

Lembro. Tudo isto precisava imenso de intervenção, tínhamos uns orçamentos magríssimos, não havia pessoal. Era preciso arregaçar as mangas e limpar, limpar, limpar. Depois delineei um plano.

O que previa esse plano?

Por um lado, abrir à investigação: fiz um convite às universidades para virem aqui, para estudarem. Por outro, abrir ao público, à comunidade, às escolas. Chegava a vir à noite fazer visitas às pessoas de Belém, que tinham casado aqui e baptizaram aqui os filhos, mas não eram frequentadoras. Achavam que era para personagens mais importantes.

Que também recebia aqui…

Sim. Era muito novita e até punha vestidos escuros para ver se ficava com um ar mais maduro. Mesmo assim, lembro–me de, numa recepção aos embaixadores, eles comentarem: “Aqui em Portugal os directores são muito novos.” [risos]

Logo em 1985 foi assinada no claustro a adesão de Portugal à União Europeia. Ajudou a preparar a cerimónia?

Muito. O primeiro desafio foi fazer uma cobertura num sítio que era património mundial, para estarmos salvaguardados se chovesse. O dr. Mário Soares esteve aqui várias vezes a acompanhar a preparação para que não falhasse nada.
E eu aproveitei para lhe pedir ajuda para abrir uma escadaria que era usada pelos monges. Tinha lixo de mais de 100 anos. O Dr. Soares perguntou-me do que precisava, eu lá lhe expliquei e ele diz-me: “Então vai ter isso.” Soares criava-nos muito esse espírito de confiança. Outro aspecto muito importante: casas de banho. Antes da assinatura do tratado de adesão não tínhamos casa de banho. E as que foram instaladas nessa altura funcionaram plenamente até há poucos anos.

Como foi o dia da assinatura?

A cerimónia começou de manhã, perto da torre de Belém, onde era servida alguma coisa, porque os chefes de Estado começaram a chegar muito cedo a Lisboa. Fizeram fotografias “de família” e vieram para os Jerónimos. Depois da cerimónia, tomou-se um drink e o almoço foi servido aqui no piso superior do claustro.

Normalmente, nestes casos há sempre alguma coisa que corre mal. Houve percalços?

Estava tudo tão afinado que não houve percalços. A única coisa que aconteceu foi que, de repente, as portas dos Jerónimos se abrem para os chefes de Estado saírem, porque ao fim do dia era a assinatura em Madrid, e de repente sinto a solidão imensa. Depois de 12 dias e 12 noites a trabalhar com aquela equipa excelente, que era como uma família, senti esse vazio.

O seu cargo passa também por fazer o papel de anfitriã do monumento, não é verdade?

Isso começou em 1984. Na visita da rainha da Dinamarca, o general Ramalho Eanes quis colocar a tribuna de honra em frente dos Jerónimos. A rainha gostou tanto da visita que lhe fiz que no dia seguinte o marido voltou acompanhado dos filhos. Passado pouquíssimo tempo sai em Diário da República que todas as visitas deviam ter a cerimónia aqui nos Jerónimos, seguida da tal visita.

Como prepara essas visitas aos chefes de Estado?

Tento estudar antes, para estar bem preparada sobre a cultura, saber quais os locais de referência desse país. Quantos mais laços conseguirmos estabelecer, mais fácil se torna. Na primeira visita a um presidente americano, que foi ao Reagan, fiz uma apresentação um bocadinho à americana. Ele vinha acompanhado pelo Ford, que também foi presidente, e o Ford gostou tanto que não havia nenhuma visita a Portugal em que ele não viesse aqui. Às vezes, eu era chamada dos sítios mais incríveis porque ele tinha aparecido. Curiosamente, na altura trabalhava cá um rapazinho que falava inglês e com quem simpatizaram. Quando acabou o 12.o ano, pagaram-lhe um curso de Relações Internacionais em Washington.

Também recebeu aqui o Papa Bento XVI. É católica?

Sou.

Calculo que essa visita tenha sido um momento alto.

Não só pelo que ele representa para os cristãos, mas também pela sua personalidade. Bento XVI é uma pessoa extremamente culta, por isso foi muito fácil estabelecer ligações. A imagem que eu fazia dele era de uma pessoa distante, fria, até por causa daqueles olhos muito azuis que se vêem nas fotografias. Mas de perto tem um olhar cúmplice, vibrante. E sentido de humor. Deixou-se fotografar com os nossos funcionários todos. Às tantas, aquela guarda suíça começa a dizer que são horas de ir embora e ele diz: “Calma, há tempo.”

Nesses casos, a segurança começa a ser preparada com muita antecedência?

Sim. Até há uma história engraçadíssima que se passa com o Clinton. A cerimónia começava na Torre de Belém e então seguiam para os Jerónimos. Depois de os cães já terem farejado aquilo tudo, abrem a porta da igreja para celebrarem uma missa. A responsável americana pela segurança tem uma fúria, vira-se para mim e diz-me: “O meu presidente, nestas circunstâncias, não pode vir.”
E eu, que já estava com dias e dias de segurança, digo-lhe: “Olhe, o meu pode.”

Mas Clinton veio na mesma?

Veio. E com a segurança toda montada, estava ele diante do túmulo de Camões e diz que precisa de ir à casa de banho. O único sítio onde eles não tinham pensado na segurança! [risos]

Nessas visitas houve alguma mais complicada?

Talvez Mitterrand. Entrou na igreja e mostrou-me que já sabia tudo, tinha lido no avião. Eu já estava desanimada, porque estava a ser difícil montar a conversa. Quando chegamos à Sala do Capítulo, começo a falar-lhe sobre o movimento liberal, a República e a I Guerra Mundial, e aí ele começa a entusiasmar-se. Era outra pessoa. No fim, vários jornalistas vieram perguntar-me: “O que havia na Sala do Capítulo que era tão interessante?” Foi uma visita muito engraçada e ele até voltou cá. Mas ao princípio estava a sentir dificuldades.

Mas acabou por correr bem. E que corresse mal do princípio ao fim?

Talvez o expoente máximo de uma visita que correu mal tenha sido a do coronel Khadafi. Até tinha preparado coisas que podiam interessar-lhe, mas ele só falava com as pessoas da sua comitiva. Não estava nem aí. Senti que não valia a pena, não estava ali a fazer nada, por isso foi só andar para a frente.

A partir de 1985 ficou também com a responsabilidade da Torre de Belém.

Sim, antes estava sob a alçada do Porto de Lisboa. Foi praticamente trabalhar do zero. Preparámos várias exposições, nomeadamente uma que teve imenso impacto, sobre a guitarra portuguesa, que abriu com um concerto do Carlos Paredes.

Conheceu-o de perto?

Foi uma grande amizade que é bom recordar. Tínhamos formado um grupo para tocar música da época manuelina e a certa altura houve uma falha, não ia ser possível fazer um espectáculo que estava marcado para a Capelinha dos Jerónimos. E eu, através de pessoas amigas, obtenho o contacto do Carlos Paredes e ligo-lhe. “Gostava de tocar naquele sítio?” E ele responde: “Que desafio bonito!” Quando as pessoas viram que era o Carlos Paredes, a surpresa foi enorme. Depois aprofundei imenso esse contacto. Já doente, ele quis visitar a torre. Tinha acabado de ser restaurada, e ele comentou: “Ah, mas está tão branca!”

Cumprem-se agora 500 anos da construção da Torre de Belém. O que está previsto para a celebração?

Tivemos uma festa em que o Cubo – a empresa que fez as projecções no Terreiro do Paço – preparou uma narrativa. Só que foi uma confusão no final e demorámos uma hora e meia para sair de lá. Além disso, há uma exposição sobre a Torre no refeitório dos Jerónimos e em Outubro vamos fazer um grande congresso no CCB, o Sphera Mundi. Também vai haver um concerto com vários artistas portugueses [3 e 4 de Julho], mas passaram para o Terreiro do Paço porque não se pode fazer fogo-de-artifício junto da torre.

Porquê?

Qualquer sítio que tenha pólvora pode explodir. Mas já nem vamos por aí.
A vibração é brutal. Mesmo com vidro rochedo [temperado], aquilo parte.

Regressando ao mosteiro: em 1998 recebeu uma das exposições com maior sucesso, o Codex Leicester, de Leonardo da Vinci.

Era para ser na Expo, mas viu-se que não havia condições. E então a Microsoft fez muita pressão para ser aqui. Como o Codex é um tratado sobre a água e o mosteiro simboliza as grandes navegações, isso pesou na decisão do Bill Gates. Quando ele chega aqui, começa a ver: quando Leonardo estava a fazer a “Virgem dos Rochedos”, estes senhores já estavam a descobrir isto, isto e aquilo. Fica fascinado ao perceber que a Bíblia dos Jerónimos, do final do século XV, representa o mundo de uma forma muito semelhante à de hoje. Aí tem um clique e diz: “Mas vocês já sabiam isto?!” Estava cá o ministro da Educação, o Mariano Gago, e o eng.o Guterres, e ele fazia-
-lhes perguntas. Quase dava pulos de entusiasmo.

Sei que depois houve um jantar em que nem tudo correu como esperado…

Vou contar. À boa maneira do protocolo, havia uma mesa principal, com o Bill Gates e o dr. Balsemão, e um presidente para cada uma das outras mesas. Mas, na entrada, as pessoas começaram a perceber que iam ficar separadas dos maridos. Quando cheguei, a confusão já era total. Havia mesas de dez pessoas que já tinham 12 e 14, todas umas em cima das outras, enquanto outras estavam completamente vazias. Jorge Sampaio foi parar à última mesa. Um desatino. Porquê? Porque todos queriam ficar perto dos maridos e das mulheres.

Como resolveu esse problema?

Resolveu-se… As pessoas não queriam sair daquelas mesas e eu tinha de dar atenção a outras coisas. Era uma sala em que estavam quase 300 pessoas sentadas, por isso deixei estar, senão a confusão ainda ia ser maior.

Ao longo do tempo foi fazendo exposições e concertos para atrair público. Hoje tem o problema contrário: excesso de visitas.

A primeira pessoa que me falou disso de uma forma muito acutilante foi a Simone de Beauvoir, numa visita em que esteve praticamente sozinha comigo, talvez em 85. Eu falei-lhe no número de visitantes e ela diz-me: “Olhe, Isabel, tem é de preservar para que não aumente muito.” Via-se que já tinha reflectido muito sobre o assunto. Só mais tarde é que percebi o que queria dizer.

Quantas pessoas visitam o Mosteiro dos Jerónimos por dia?

As agências [de turismo] concentram numa manhã a visita ao Castelo [de S. Jorge] e aquilo a que chamam a rota das descobertas, que é o mosteiro e a Torre de Belém. Por isso chegamos a ter manhãs com mais de 15 mil pessoas. As filas contornam os Jerónimos e estendem-se para a Praça do Império. Isso preocupa-nos muito. Chegámos a encomendar um estudo feito por pessoas do Técnico, outras ligadas à Via Verde e até ao tráfego na ponte, e viu-se que era possível – mesmo sem colocar coisas visualmente muito impositivas – fazer a contagem para ver o máximo de pessoas que pode ter a igreja e, a partir daí, impedir a entrada.

Mas as coisas vão funcionando sem acidentes.

Mal. Cada vez o serviço público é pior. Damos com cada vez menos qualidade. Nem sequer temos o sistema dos QER codes e só temos 40 audioguias. Na primeira meia hora esgota-se tudo. Gerir todo este fluxo com uma porta de um metro e meio é muito complicado.

Os guardas queixam-se do stresse?

Muito stresse. Chegam ao fim do dia esgotados. E são pessoas que vêm do mercado social de emprego, em grande rotação.

E na Torre de Belém?

Na torre ainda é pior. Estamos a falar de cerca de 600 mil visitantes por ano. As pessoas não respeitam as indicações e em termos de segurança é grave, sobretudo no pico do Verão. Há pessoas que têm falta de ar, pessoas que sofrem do coração, crianças…

Têm muitas reclamações?

Curiosamente, não. A percentagem de reclamações, apesar de tudo, é baixíssima. No ano passado tivemos 30 e tal, em 600 mil.

E quando esteve na torre a intervenção da Joana Vasconcelos, um enorme colar feito de bóias?

Do ponto de vista das reclamações foi infernal. A certa altura já tínhamos uma resposta preparada para acalmar os ânimos. E depois houve a situação da Maitê Proença a cuspir naquele famoso vídeo. Também nos fartámos de receber cartas de todo o lado, de pessoas revoltadas.

Essa obra da Joana Vasconcelos passou por vocês?

Foi na sequência das sete maravilhas.
A EDP quis associar-se e escolheu sete artistas e sete concertos. Só tivemos a parte logística. Exigimos a participação de um engenheiro de estruturas, e aí houve um belíssimo acompanhamento.

No Mosteiro dos Jerónimos houve uma intervenção de Cabrita Reis chamada “Amarração”, que consistia numa estrutura metálica com pneus pendurados.

Fartei-me de lhe dizer que era muito difícil ele conseguir concretizar o projecto inicial, que era pôr um raio de luz vertical para rebentar com esta horizontalidade. Vieram vários estruturalistas e acabaram por dizer que não era exequível. Aquilo de que ele andava há meses a falar e que defendeu até à última, depois mudou em dois dias. Acho que a obra não teve impacto e confesso que não encontrei qualquer diálogo com o monumento.

O mosteiro já foi vítima de vandalismo?

Os graffiti no exterior são uma praga. Fazer a remoção é muito difícil e fica muito caro, na medida em que estamos a tratar uma pedra com valor histórico. O exterior da capela-mor é um sítio preferencial para porem graffiti.

E cá dentro?

A nível de interior, não sinto que alguém queira fazer mal ou estragar alguma coisa. Quando vim para cá recebíamos as visitas de casapianos que aqui tinham estado. E era engraçadíssimo, diziam-
-me: “Quer ver? Está aqui o meu A, de Armando.” O cadeiral – mas é um caso diferente – servia para os miúdos dos escuteiros fazerem pinturas. Os assentos a que se chama misericórdias serviam para terem os baldes de tinta…

E as pastilhas elásticas, também são um problema?

Pastilhas elásticas é dose. Já proibimos as pessoas de comerem cá dentro, mesmo os pequenitos. Avisamos os professores para não trazerem comida. Mas com as pastilhas é fatídico. Aquelas manchinhas pretas que se vê no chão, para remover aquilo é dificílimo. Agora, a câmara já usa uma espécie de aspiradores, mas aqui dentro não podemos porque estraga a pedra.