A cultura em rede


Temos a cultura em formatos vários, assumida como tutora de variadíssimos movimentos e iniciativas, abatendo o encargo dos privados, servindo de desculpa para menor acção das municipalidades.


Os agentes culturais reivindicam, amiudadas vezes, a existência de um Ministério da Cultura. Trata-se, tão-só, de uma ilusão. A existência de um ministério não acarreta nada de relevante em si, e a sua importância é muito mais agregada ao titular que à própria função.

Em Portugal, no início da década de 1980, o ministro foi Lucas Pires. Mas na verdade quem mandava era Gomes de Pinho. No início da década seguinte o país teve Santana Lopes como titular, até lhe foram entregues dois subsecretários de Estado, mas nunca se consagrou como ministro, apesar da longevidade e do histrionismo que pôs na sua acção. No final dessa mesma década, M. M. Carrilho assumiu uma formatação mesclada de António Ferro e Jack Lang. Uma cultura para um regime, uma aura para um protagonista sem partilha.

De 1959, quando De Gaulle entregou a Malraux os assuntos culturais somados a uma simbólica posição de ministro de Estado, até hoje, verificamos muitas formas de incorporar a cultura na estrutura governativa. Por norma a educação e a cultura caminharam juntas, mais recentemente, a cultura e a comunicação, ajuntando os conteúdos e os media, foram sendo autonomizadas, mesmo que os ministérios se situem em segunda ordem.  

Em Portugal o problema maior está em saber o que queremos como política, como deveremos caminhar para que possamos integrar todos os motores. Se há política que é assumida por um vasto conjunto de agentes, de entidades públicas a empresas, é a cultura. Mas a verdade é que se mantém um elevado contingente de pertencentes do orçamento, carentes de subsídios, que só se aguentam pela proximidade ao poder político. E para muitos desses há ainda a ideia de que um ministério tem mais orçamento que um subministério.

As diversas direcções centrais de serviços culturais têm vindo a ser, nas últimas legislaturas, emagrecidas. Nem sempre esse lifting se autorizou de forma cuidada, com a consciência de que importava sinergia e não interessava só a contenção de custos. Por outro lado, o Estado foi assumindo responsabilidades em instituições relevantes, em regra situadas fora de Lisboa, mas nunca deixou de ser o “maestro” na orquestra, quase sempre desafinada, de curadores. Estão nesta lista a Casa da Música e Serralves, as instituições que desenvolveram os museus do Douro e de Côa e ainda algumas outras entidades menos preeminentes mas que absorvem partilha de custos.

Assim, temos a Cultura em formatos vários, assumida como tutora de variadíssimos movimentos e iniciativas, abatendo o encargo dos privados, servindo de desculpa para menor acção das municipalidades.

A chegava, para breve, de uma nova dimensão regional, com a esperada reinvenção das comissões de coordenação e desenvolvimento regional, oferece um novo tempo para a afirmação do princípio da subsidiariedade no campo cultural. E esse processo deve ser construído com cabeça, numa ponderação do peso e da importância das autarquias.

Olhando para uma política desenvolvida em rede, interessa consagrar os campos de actuação. Deverá competir à administração central a salvaguarda da memória. Enquadra-se aqui o património, a arqueologia, os arquivos e ainda uma parte dos museus. Este é o centro de uma acção nacional integrada que deve atolar no seio da prática dos agentes políticos próximos. E quanto aos museus será muito relevante que se consagre um enredo que fixe uma nova gestão, agregada a outras ofertas e com partilha de serviços, dos que se sagrarem, depois da partilha, nacionais. Quer na capital quer em todo os restantes territórios, é urgente uma discussão sobre a transferência de tutela e recursos para as regiões e para os municípios, já que a proximidade amplia a divulgação e favorece a integração da oferta.
Deverá situar-se também no universo da governação central a política da língua, do livro e dos conteúdos. Aqui se encerram as opções conjuntas com as políticas externa e educativa. A política da língua não pode ser só para o nosso piqueno mundo; terá de se desenvolver em todo o espaço onde se fale o português.

Por último, a rede nacional de oferta especial, onde se incorporam os teatros, as orquestras e as companhias de bailado, deve ter coordenação nacional mas garantindo uma descentralização da produção e da apresentação.
Perguntam-nos o que fazer ao cinema e ao teatro. Se a política de apoio ao cinema se pode desenvolver através de parcerias plurianuais com entidades privadas e centralizadamente, já a produção teatral e a extensão cultural devem situar-se a um nível regional na consagração de incentivos. Será também o nível intermédio que deve ter a responsabilidade de “usar” a escola como centro de artes e promotor da criação.

A produção em cartaz é tão vasta que nos atropelamos em actividades que não se inserem em “centrais” de oferta. Não é raro encontrar iniciativas apoiadas que só encontram públicos no núcleo restrito dos amigos dos promotores. Pois bem, os apoios públicos devem ser compatibilizados com uma estratégia nacional integrada, adequando a oferta à realidade temporal e compatibilizando-a com iniciativas de grande vulto, em áreas territoriais coincidentes, do universo do recreio e do desporto.

A rede nacional de oferta cultural a nascer, somada a uma revisão profunda da lei do mecenato, são desafios para os próximos anos. Carecem de uma aceitação por parte de todos os agentes, dependem de uma outra organização territorial das entidades e serviços públicos.
 
Escreve à segunda-feira

A cultura em rede


Temos a cultura em formatos vários, assumida como tutora de variadíssimos movimentos e iniciativas, abatendo o encargo dos privados, servindo de desculpa para menor acção das municipalidades.


Os agentes culturais reivindicam, amiudadas vezes, a existência de um Ministério da Cultura. Trata-se, tão-só, de uma ilusão. A existência de um ministério não acarreta nada de relevante em si, e a sua importância é muito mais agregada ao titular que à própria função.

Em Portugal, no início da década de 1980, o ministro foi Lucas Pires. Mas na verdade quem mandava era Gomes de Pinho. No início da década seguinte o país teve Santana Lopes como titular, até lhe foram entregues dois subsecretários de Estado, mas nunca se consagrou como ministro, apesar da longevidade e do histrionismo que pôs na sua acção. No final dessa mesma década, M. M. Carrilho assumiu uma formatação mesclada de António Ferro e Jack Lang. Uma cultura para um regime, uma aura para um protagonista sem partilha.

De 1959, quando De Gaulle entregou a Malraux os assuntos culturais somados a uma simbólica posição de ministro de Estado, até hoje, verificamos muitas formas de incorporar a cultura na estrutura governativa. Por norma a educação e a cultura caminharam juntas, mais recentemente, a cultura e a comunicação, ajuntando os conteúdos e os media, foram sendo autonomizadas, mesmo que os ministérios se situem em segunda ordem.  

Em Portugal o problema maior está em saber o que queremos como política, como deveremos caminhar para que possamos integrar todos os motores. Se há política que é assumida por um vasto conjunto de agentes, de entidades públicas a empresas, é a cultura. Mas a verdade é que se mantém um elevado contingente de pertencentes do orçamento, carentes de subsídios, que só se aguentam pela proximidade ao poder político. E para muitos desses há ainda a ideia de que um ministério tem mais orçamento que um subministério.

As diversas direcções centrais de serviços culturais têm vindo a ser, nas últimas legislaturas, emagrecidas. Nem sempre esse lifting se autorizou de forma cuidada, com a consciência de que importava sinergia e não interessava só a contenção de custos. Por outro lado, o Estado foi assumindo responsabilidades em instituições relevantes, em regra situadas fora de Lisboa, mas nunca deixou de ser o “maestro” na orquestra, quase sempre desafinada, de curadores. Estão nesta lista a Casa da Música e Serralves, as instituições que desenvolveram os museus do Douro e de Côa e ainda algumas outras entidades menos preeminentes mas que absorvem partilha de custos.

Assim, temos a Cultura em formatos vários, assumida como tutora de variadíssimos movimentos e iniciativas, abatendo o encargo dos privados, servindo de desculpa para menor acção das municipalidades.

A chegava, para breve, de uma nova dimensão regional, com a esperada reinvenção das comissões de coordenação e desenvolvimento regional, oferece um novo tempo para a afirmação do princípio da subsidiariedade no campo cultural. E esse processo deve ser construído com cabeça, numa ponderação do peso e da importância das autarquias.

Olhando para uma política desenvolvida em rede, interessa consagrar os campos de actuação. Deverá competir à administração central a salvaguarda da memória. Enquadra-se aqui o património, a arqueologia, os arquivos e ainda uma parte dos museus. Este é o centro de uma acção nacional integrada que deve atolar no seio da prática dos agentes políticos próximos. E quanto aos museus será muito relevante que se consagre um enredo que fixe uma nova gestão, agregada a outras ofertas e com partilha de serviços, dos que se sagrarem, depois da partilha, nacionais. Quer na capital quer em todo os restantes territórios, é urgente uma discussão sobre a transferência de tutela e recursos para as regiões e para os municípios, já que a proximidade amplia a divulgação e favorece a integração da oferta.
Deverá situar-se também no universo da governação central a política da língua, do livro e dos conteúdos. Aqui se encerram as opções conjuntas com as políticas externa e educativa. A política da língua não pode ser só para o nosso piqueno mundo; terá de se desenvolver em todo o espaço onde se fale o português.

Por último, a rede nacional de oferta especial, onde se incorporam os teatros, as orquestras e as companhias de bailado, deve ter coordenação nacional mas garantindo uma descentralização da produção e da apresentação.
Perguntam-nos o que fazer ao cinema e ao teatro. Se a política de apoio ao cinema se pode desenvolver através de parcerias plurianuais com entidades privadas e centralizadamente, já a produção teatral e a extensão cultural devem situar-se a um nível regional na consagração de incentivos. Será também o nível intermédio que deve ter a responsabilidade de “usar” a escola como centro de artes e promotor da criação.

A produção em cartaz é tão vasta que nos atropelamos em actividades que não se inserem em “centrais” de oferta. Não é raro encontrar iniciativas apoiadas que só encontram públicos no núcleo restrito dos amigos dos promotores. Pois bem, os apoios públicos devem ser compatibilizados com uma estratégia nacional integrada, adequando a oferta à realidade temporal e compatibilizando-a com iniciativas de grande vulto, em áreas territoriais coincidentes, do universo do recreio e do desporto.

A rede nacional de oferta cultural a nascer, somada a uma revisão profunda da lei do mecenato, são desafios para os próximos anos. Carecem de uma aceitação por parte de todos os agentes, dependem de uma outra organização territorial das entidades e serviços públicos.
 
Escreve à segunda-feira