La Chapelle à portuguesa

La Chapelle à portuguesa


Tal como o fotógrafo norte-americano, a dupla madeirense Diamantino Jesus e Zé Diogo reinterpreta a mitologia e a iconografia cristã com irreverência. 


s suas criações são uma espécie de cruzamento entre o inferno descrito por Dante, o universo destrutivo--futurista de “Mad Max” e a sumptuosidade provocadora das festas retratadas por Sorrentino em “La Grande Bellezza”. Há uma carga sexual transversal a todos os seus trabalhos, um lado provocador e irónico que, na biblioteca mental de referências visuais, nos transporta automaticamente para o trabalho de David LaChapelle, o fotógrafo norte-americano conhecido pelo seu cunho provocador. “Há quem nos compare com LaChapelle, e é de facto um artista que muito admiramos. A qualidade do seu trabalho, a par da possibilidade logística e dos retratos de personalidades mundialmente famosas, fizeram dele uma referência”, explica Zé Diogo, que, com Diamantino Jesus, forma os DDiarte.

Tal como LaChapelle, a dupla de fotógrafos gosta de reinterpretar a história da arte, e fá-lo com humor, ironia, sátira e excentricidade. “As nossas reinterpretações são assumidamente influenciadas pelo surrealismo neobarroco, por vezes com assédio à pop art e ao Kitsch. Mas em termos formais há uma nítida inspiração na mitologia e no profano, e também na iconografia cristã. A pintura clássica e o seu ideal de beleza e proporção do corpo, assim como o dinamismo, o movimento e a luz barroca são fontes de referência”, afirmam, acrescentando que o seu trabalho tem frequentemente uma mensagem social.

Este fascínio pelo corpo e pelo seu poder erótico fica claro em praticamente todas suas fotografias, onde os nus são constantes. Um critério que, nos primeiros anos de trabalho, levantou problemas à dupla madeirense. “Nos primeiros tempos poucas pessoas estavam disponíveis para trabalhos com os DDiArte, e ainda menos para posar nuas para uma câmara com dois fotógrafos desconhecidos, numa ilha onde não era prática fazer nu artístico. Nesse período servíamos de modelos de nós próprios. Hoje aparecemos com menos frequência nas nossas imagens, mas ficou o gosto de posar, que fazemos quando testamos algo novo e também, sabendo que apreciam os nossos auto-retratos, em obras de grande produção com dezenas de personagens”.

Cada vez mais dedicados a estas grandes produções, os DDiarte chegam a despender meses a concluir um trabalho. A mais recente, por exemplo, “Falling Paris”, criada para os tectos do Petit Palais, o novo restaurante do empresário Olivier, precisou de quatro meses para ser concluída. E foi das obras mais rápidas. “Uma das nossas obras mais premiadas, ‘Cupidos Playground’, levou dois anos a concluir. Foi uma obra que foi crescendo com o tempo, até a considerarmos perfeita. Neste momento estamos a concluir outro grande projecto, intitulado ‘Juízo Final’, com centenas de personagens, que foi iniciada há mais de cinco anos. Mas é claro que não trabalhamos todos os dias na mesma obra, temos por hábito desenvolver vários projectos em simultâneo.”

A insularidade nunca impôs limites a Zé Diogo nem a Diamantino Jesus. Ambos madeirenses com uma paixão comum pelo desenho e pela pintura realista, cruzaram-se pela primeira vez num concurso de pintura na Madeira, em que ambos participaram. Confrontados com as similaridades do seu trabalho e uma visão comum da arte, depressa concluíram que fazia sentido juntarem esforços.

Assim, em 1999 resolveram transformar este gosto em algo concreto: um ateliê de pintura. Daí ao nome foi simples. Bastou pegarem nas primeiras duas letras dos seus nomes, Diogo e Diamantino, e juntar arte. Para trás ficava, no caso de Zé Diogo, um percurso ligado à engenharia química no ramo de biotecnologia e dez anos de trabalho numa agência de energia e ambiente. Já Diamantino Jesus, depois de uma licenciatura em Arte e Design e uma especialização em Arte Sacra, trocou o ensino de Educação Visual pelos DDiarte.

Depois de uns primeiros anos em que a pintura foi efectivamente o epicentro do seu trabalho, 2003 foi “o ano da mudança”, em que os DDiarte passaram a dedicar-se em exclusivo à fotografia. “O Diamantino comprou um computador que trazia como brinde uma câmara digital de 3Mpix e um Photoshop instalado e começámos com experiências com aqueles dois brindes. Foram muitas horas em claro a descobrir um novo mundo. O facto de não possuirmos as luzes convencionais de estúdio obrigou-nos a ser igualmente criativos em termos técnicos”, explicou Zé Diogo ao i. Apesar do carácter autodidacta e algo experimental do seu trabalho, ao fim de seis meses a imagem “Liberdade do Telefone Fixo” recebeu o prémio da revista francesa “Photo”, uma espécie de Bíblia dos amantes de fotografia. “Foi a imagem que mudou a nossa vida. Foi devido ao êxito desta imagem, que pertence hoje à Colecção Berardo, que decidimos apostar na fotografia e abandonar a pintura.”

Uma aposta ganha também graças ao apoio de Joe Berardo. “O Comendador Berardo foi o nosso primeiro grande cliente. Viu o nosso trabalho numa revista e, sendo nós conterrâneos, ficou curioso de nos conhecer. Fascinado pelos nossos trabalhos, adquiriu algumas peças, lançando ainda o desafio de criarmos outras obras, num total de 25. Estas peças têm participado em várias exposições nacionais e internacionais e abriram-nos as portas de outra grande colecção de arte: a Colecção Würth. Sentimos uma enorme honra e orgulhosos em ver as nossas obras expostas ao lado de Picasso, Dalí, Mondrian ou Andy Warhol.”

Actualmente com um vasto currículo de prémios internacionais – em que se incluem o Grand Prix de Trierenberg Super Circuit Photography, o prémio para Fotógrafos Profissionais Europeus do Ano, pela Federação Europeia FEP, a Taça do Mundo da Fotografia, na categoria Arte Digital/Ilustrativa e Fotógrafo Europeu do Ano em Fine Art – e uma carteira de clientes, na sua esmagadora maioria, estrangeiros, a dupla que nunca se queixou da insularidade começa a ponderar sair da Madeira. E até de Portugal.