Fato e gravata. Uma questão  de estilo ou de ideologia política?

Fato e gravata. Uma questão de estilo ou de ideologia política?


Em Espanha, as principais autarquias do país, Madrid e Barcelona, vão adoptar um estilo mais informal.


As últimas eleições autárquicas em Espanha foram palco de uma viragem política, desde a ideologia ao vestuário.  O jornal “El Mundo” analisou  as fotografias oficiais dos Ahora Madrid e  Barcelona en Cómun, e concluiu  que o estilo casual, sem gravata e fato, veio para ficar. Para o politólogo José Adelino Maltez, é impossível comparar os dois países, porque “não temos os costumes dos castelhanos, não existe um padrão de classe alta”.

E justifica-se falando do discurso de derrota do primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que afirmou existir um problema de comunicação e de imagem do seu partido, o PP. “Isto só  acontece porque, em Madrid, a revista cor-de-rosa é muito forte, e no nosso país, a nível autárquico, os vereadores são pouco conhecidos.” Será assim em Portugal na hora de fazer política?

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Francisco Moita Flores, ex-presidente da Câmara de Santarém, contou ao i que ficou conhecido por “não ligar a essas formalidades, só quando recebíamos visitas estrangeiras. Aí colocava uma gravata azul-escura”. Essa característica deu-lhe a alcunha de “presidente atípico”, confessa, e não era para menos: “Eu andava de bicicleta, vestia-me como queria.” Mas essa opção foi feita quando era mais pequeno. “No Alentejo, quando era miúdo tínhamos de usar gravata no colégio, com muito calor. Assim que saí da escola, livrei-me dela”, concluiu. Para Moita Flores, o poder “parece estar sempre de luto antecipado”, referindo-se aos vidros fumados dos carros e ao estilo mais formal do governo. Mas admite que “nunca celebraria o 10 de Junho de t-shirt”. 

Já Carlos Encarnação, ex-presidente da Câmara de Coimbra, revela que a importância política do uso deste vestuário é nula. “Não tem importância nenhuma para mim, uso porque me sinto bem.” Apesar de ser adepto desta tira de tecido, considera que “nunca foi uma imposição política”, e sempre que o incómodo aperta o pescoço em dias de calor, a gravata fica na gaveta lá de casa.  

Para estes ex-autarcas, tudo depende do gosto pessoal, uma opinião que vai ao encontro das regras internas de algumas das principais câmaras municipais portuguesas. A conclusão é que autarcas e funcionários podem vestir-se como bem entendem, excepção feita para cerimónias especiais.

Em Faro, segundo o chefe de gabinete da presidência, Henrique Ascenso Gomes, existe mesmo “uma prática de bom senso entre os autarcas e os seus colaboradores”. Em Santarém, o hábito é o uso do traje formal mas, não sendo uma política definida, acaba por ficar à escolha de cada um. Só mais ao centro, em Oeiras, é que encontramos uma câmara municipal com algo diferente, o “Casual Friday”, em que os trabalhadores podem largar as formalidades à sexta–feira. Segundo fonte ligada à presidência, “adoptamos esta ideia há dois anos, e o nosso presidente costuma vir mais desportivo”. Adelino Maltez vê de forma natural estas práticas autárquicas. “Portugal é mais de modas do que padrões, existe muita liberdade de costumes na nossa política.” 

E NO PARLAMENTO? Viajando até à Assembleia da República, é mais fácil a esquerda resistir à utilização de gravata do que a direita. No CDS, por exemplo, é usual o uso de gravata entre os deputados, enquanto no Bloco de Esquerda sempre foi prática o vestuário mais casual. 

Essa questão mais íntima foi, para Alberto Arons de Carvalho, fundador do PS e deputado durante mais de 20 anos, algo que variou com o tempo. “Lembro-me que, na minha primeira intervenção na Assembleia Constituinte, em 1975, estava de casaco de malha e camisa.”A Revolução dos Cravos, para o antigo dirigente socialista, originou uma ruptura com o formalismo, e se hoje visse uma fotografia de um plenário do parlamento, “estariam deputados com gravata e outros sem”. Mas antes do 25 de Abril era mesmo necessário levá-la para a universidade: “Tinha de vestir uma para os exames. Só na altura em que fui para a Juventude Socialista é que optei por um estilo mais irreverente, sem casaco ou gravata, como eles usavam.” Hoje, o actual vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) raramente usa esta peça, exceptuando, claro, nas alturas em que a ERC vai ao parlamento, ou simplesmente “quando está mais frio”, confessa com humor. 

A sua intuição diz-lhe que é a direita quem opta pelas vestimentas formais e o BE quem figura o tal estilo irreverente. “O fato e a gravata foram caindo nos deputados. Hoje escolhe–se mais o Casual Friday para se marcar uma diferença com o passado”, afirma. Esta diferença entre a direita e a esquerda, para Isabel Moreira, deputada do PS, justifica-se pela “ diferença geracional entre políticos mais velhos e mais novos”. Conhecida pela sua tatuagem, que nunca escondeu, e pelo piercing na orelha, Isabel Moreira aceita que o seu estilo seja “pouco convencional”, mas reitera: “Não vou para a Assembleia desarranjada, como não ia para a universidade. Sinto um dever de respeito, só que  não mudo o meu estilo.”

Os costumes parecem estar a mudar ao ritmo de quem faz política. Em Espanha, a mudança já faz manchetes. Resta saber se nas próximas fotografias oficiais do novo governo português se fará o nó da gravata antes do clique da máquina. Veremos.