A táctica política de Passos Coelho e António Costa


Uns e outros fizeram as suas alianças contra a natureza da política portuguesa. Passos tenta conservar o poder, Costa tenta conquistá-lo. E os dois têm ao seu lado, ou na retaguarda, tropas que falam uma outra língua.


Os ciclos de interesse mediático não são necessariamente coincidentes com a importância dos assuntos. Podem coincidir, mas nem sempre acontece. Na política têm mais impacto as politiquices e os pequenos casos do que o tratamento aprofundado de estratégias. O facto vai moldando negativamente a classe política que prefere ter tempo de antena e adaptar-se a uma linguagem resumida e superficial, a única que cabe num noticiário em que o que tem de ser dito deve sê-lo em poucas palavras.

Como o tempo mediático é fulanizado, baseado em personagens que se vendem como se fossem um produto publicitário, as presidenciais ganharam relevância e espaço às legislativas – um problema dos políticos, dos jornalistas e também de quem consome informação. Parecemos todos mais preocupados com quem avança e quando para a conquista de Belém do que com as eleições legislativas que, todos estaremos de acordo, determinarão mais o nosso futuro do que a escolha do próximo Presidente da República. 

As próximas eleições estão em marcha. E há originalidades que não têm sido suficientemente realçadas. Num país em que não existe cultura de compromisso, em que os partidos não conseguem criar pontes de entendimento mínimas com quem não é da mesma cor, é um dado interessante a política de alianças e coligações dos dois partidos de poder. Tanto Passos Coelho como António Costa, por motivos e com circunstâncias diferentes ou até mesmo opostas, prepararam com cuidado a possibilidade de se coligarem com quem lhes possa garantir os deputados em falta para governarem com maioria.

O drama histórico do Partido Socialista passou sempre pela impossibilidade de entendimentos à esquerda. Costa sabia bem da dificuldade de qualquer acordo de governação com o Bloco de Esquerda ou com o PCP – uma ficção mais distante da realidade do que um contrato com os partidos de direita, o que condenava os socialistas a uma de duas hipóteses: ou maioria absoluta ou o caos de governarem com espadas de todos os lados. Nesse sentido, António Costa ajudou a “inventar” o Livre, partido de esquerda cosmopolita, com Rui Tavares e os reforços Daniel Oliveira e Ana Drago – projecto com potencialidade para poder conquistar dois ou três deputados que poderão ser decisivos para as contas finais, a ver vamos.

Tem sido uma aliança tácita: ninguém acreditará que Thomas Piketty, o economista mais popular da esquerda europeia, pudesse estar com Rui Tavares numa audiência sem um empurrão do PS (por muito inteligente que seja o líder do Livre, e é-o). Para Passos Coelho, a equação era mais óbvia e natural, o que não significa que fosse mais fácil. Aposto um mês de ordenado em como terá tentado um acordo semelhante ao de Costa com o Livre. Acabou por não ser necessário fundar um qualquer partido que se diria emanar da sociedade civil. A política tem avanços e recuos e, num casamento com Paulo Portas, nada podia (ou pode) ser dado como adquirido, mas para a história ficará o anúncio de uma coligação selada no dia 25 de Abril. 

Uns e outros fizeram as suas alianças contra a natureza da política portuguesa. Passos tenta conservar o poder, Costa tenta conquistá-lo. E os dois têm ao seu lado, ou na retaguarda, tropas que falam uma outra língua. É uma nuance surpreendente e é política no seu estado puro. Veremos o que acontece depois, infelizmente, o mais importante. É que, quando a política passa a ser a arte de usar o poder ao serviço de um projecto, quando estiver em causa a estratégia para o país, aí estará o desafio principal que aproximará os eleitores ou os afastará cada vez para mais longe. Tudo se jogará nesse lugar. O resto é importante, mas é táctica. Só a estratégia poderá mobilizar a esperança. 


A táctica política de Passos Coelho e António Costa


Uns e outros fizeram as suas alianças contra a natureza da política portuguesa. Passos tenta conservar o poder, Costa tenta conquistá-lo. E os dois têm ao seu lado, ou na retaguarda, tropas que falam uma outra língua.


Os ciclos de interesse mediático não são necessariamente coincidentes com a importância dos assuntos. Podem coincidir, mas nem sempre acontece. Na política têm mais impacto as politiquices e os pequenos casos do que o tratamento aprofundado de estratégias. O facto vai moldando negativamente a classe política que prefere ter tempo de antena e adaptar-se a uma linguagem resumida e superficial, a única que cabe num noticiário em que o que tem de ser dito deve sê-lo em poucas palavras.

Como o tempo mediático é fulanizado, baseado em personagens que se vendem como se fossem um produto publicitário, as presidenciais ganharam relevância e espaço às legislativas – um problema dos políticos, dos jornalistas e também de quem consome informação. Parecemos todos mais preocupados com quem avança e quando para a conquista de Belém do que com as eleições legislativas que, todos estaremos de acordo, determinarão mais o nosso futuro do que a escolha do próximo Presidente da República. 

As próximas eleições estão em marcha. E há originalidades que não têm sido suficientemente realçadas. Num país em que não existe cultura de compromisso, em que os partidos não conseguem criar pontes de entendimento mínimas com quem não é da mesma cor, é um dado interessante a política de alianças e coligações dos dois partidos de poder. Tanto Passos Coelho como António Costa, por motivos e com circunstâncias diferentes ou até mesmo opostas, prepararam com cuidado a possibilidade de se coligarem com quem lhes possa garantir os deputados em falta para governarem com maioria.

O drama histórico do Partido Socialista passou sempre pela impossibilidade de entendimentos à esquerda. Costa sabia bem da dificuldade de qualquer acordo de governação com o Bloco de Esquerda ou com o PCP – uma ficção mais distante da realidade do que um contrato com os partidos de direita, o que condenava os socialistas a uma de duas hipóteses: ou maioria absoluta ou o caos de governarem com espadas de todos os lados. Nesse sentido, António Costa ajudou a “inventar” o Livre, partido de esquerda cosmopolita, com Rui Tavares e os reforços Daniel Oliveira e Ana Drago – projecto com potencialidade para poder conquistar dois ou três deputados que poderão ser decisivos para as contas finais, a ver vamos.

Tem sido uma aliança tácita: ninguém acreditará que Thomas Piketty, o economista mais popular da esquerda europeia, pudesse estar com Rui Tavares numa audiência sem um empurrão do PS (por muito inteligente que seja o líder do Livre, e é-o). Para Passos Coelho, a equação era mais óbvia e natural, o que não significa que fosse mais fácil. Aposto um mês de ordenado em como terá tentado um acordo semelhante ao de Costa com o Livre. Acabou por não ser necessário fundar um qualquer partido que se diria emanar da sociedade civil. A política tem avanços e recuos e, num casamento com Paulo Portas, nada podia (ou pode) ser dado como adquirido, mas para a história ficará o anúncio de uma coligação selada no dia 25 de Abril. 

Uns e outros fizeram as suas alianças contra a natureza da política portuguesa. Passos tenta conservar o poder, Costa tenta conquistá-lo. E os dois têm ao seu lado, ou na retaguarda, tropas que falam uma outra língua. É uma nuance surpreendente e é política no seu estado puro. Veremos o que acontece depois, infelizmente, o mais importante. É que, quando a política passa a ser a arte de usar o poder ao serviço de um projecto, quando estiver em causa a estratégia para o país, aí estará o desafio principal que aproximará os eleitores ou os afastará cada vez para mais longe. Tudo se jogará nesse lugar. O resto é importante, mas é táctica. Só a estratégia poderá mobilizar a esperança.