Berlim. A migração dos ursos entre o Irão e a América Latina


O tempo escasseia e os transportes públicos colectivos estão em greve geral. Resta-lhe a hipótese táxi. Levanta o braço, fecha a porta e indica a morada, um novo mundo de possibilidades acabou de arrancar em direcção ao lugar que definiu. Tentaremos resumir essas variáveis em duas. A primeira é a do taxista falador, que há…


O tempo escasseia e os transportes públicos colectivos estão em greve geral. Resta-lhe a hipótese táxi. Levanta o braço, fecha a porta e indica a morada, um novo mundo de possibilidades acabou de arrancar em direcção ao lugar que definiu. Tentaremos resumir essas variáveis em duas. A primeira é a do taxista falador, que há trinta anos conduz o mesmo carro, pelas mesmas ruas, e que, com certeza, não lhe faltam assuntos de algibeira para a viagem parecer mais curta. A segunda é a do jovem que herdou o Mercedes do pai ou do avô e que se aventura por códigos postais à alta velocidade, sem muito tecido para desfiar. E se existisse uma terceira hipótese? Um taxista-realizador, em plena capital iraniana, de nome Jafar Panahi. O mesmo que foi impedido pelo governo do Irão de assinar qualquer tipo de criação artística durante 20 anos por ter criticado o regime em filmes anteriores. Se é dos que aceitaria de bom grado uma viagem com Panahi no lugar de condutor, felicite-se. É que “Taxi”, o resultado dessas filmagens, uma espécie de falso documentário, venceu o Urso de Ouro para melhor filme na 65.a edição do Festival de Cinema de Berlim.

Curiosamente, é uma das passageiras a receber o galardão em palco, na cerimónia de sábado, na capital alemã. É que Hana Saeidi, sobrinha do realizador, surge na fita quando Panahi a vai buscar à escola. Envolto em secretismo, levado para fora da Teerão com todo o cuidado, “Taxi” é assim uma golpada na ideologia do governo iraniano, como o presidente do júri e realizador, Darren Aronofsky, confirmou: “Panahi criou uma carta de amor para o cinema, em vez de permitir que o seu espírito fosse esmagado.”

América latina Leste Europeu O Grande Prémio do Júri e o prémio Alfred Bauer – que distingue novo sangue e perspectivas no cinema – obrigam-nos a mudar de localização. O primeiro foi atribuído a Pablo Larraín com a fita “El Club”, onde o chileno aborda a ditadura lado a lado com a Igreja Católica e como os nativos – assim como a população urbanizada – é alvo de repressões no Chile. O segundo foi para o natural da Guatelama, Jayro Bustamante, com “Ixcanul”, onde as comunidades tradicionais também são protagonistas. Maria é a personagem principal e tenta a fuga da população Maia, que vive marginalizada na Guatemala.

Depois das duas provas que o cinema na América Latina está bem e recomenda-se, falemos dos restantes prémios e, consequentemente, dos filmes e personagens em questão. O Urso de Prata para melhor realização deixou o júri com água pela barba, ao ponto de se ter decidido por uma atribuição ex aequo entre “Aferim”, um filme a preto e branco da romena Radu Judes, e “Body”, da polaca Malgorzata Szumows. Com o leste europeu a sair de Berlim com uma vitória moral que tem parecenças com aquela alcançada pela América Latina.

Por fim, os actores. Charlotte Rampling e Tom Courtenay arrecadaram o Urso de Prata para melhor actriz e melhor actor com o filme “45 Years” de Andrew Haighs, sobre a dificuldade de chegar ao 45.o ano de casamento.