Doze anos depois, sociais-democratas regressam ao Coliseu


Doze anos depois, o PSD vai regressar esta semana ao Coliseu dos Recreios de Lisboa, um recinto emblemático onde já tiveram lugar congressos sociais-democratas em 1986, 1988, 1995, 1996 e 2002. Entre palmas e vaias, a sala de espetáculos da Rua das Portas de Santo Antão foi cenário de momentos históricos da vida do PSD,…


Doze anos depois, o PSD vai regressar esta semana ao Coliseu dos Recreios de Lisboa, um recinto emblemático onde já tiveram lugar congressos sociais-democratas em 1986, 1988, 1995, 1996 e 2002.

Entre palmas e vaias, a sala de espetáculos da Rua das Portas de Santo Antão foi cenário de momentos históricos da vida do PSD, mas de apenas uma disputa de liderança, entre Fernando Nogueira e Durão Barroso, quando Cavaco Silva deixou a liderança do partido.

Reeleito, sem adversários, nas diretas de 25 de janeiro, Pedro Passos Coelho será o sexto líder dos sociais-democratas a pisar o palco do Coliseu de Lisboa, que entre sexta-feira e domingo vai receber o XXXV Congresso Nacional do PSD.

Segue-se um resumo dos congressos do PSD realizados no Coliseu dos Recreios de Lisboa:

 

+++ XIII Congresso Nacional do PSD, 30 e 31 de maio e 1 de junho de 1986 +++

 

Os sociais-democratas reuniram-se pela primeira vez no Coliseu de Lisboa a meio de 1986. Iniciava-se um novo ciclo interno, sem discussão sobre a presidência do partido, com o PSD sozinho à frente de um Governo minoritário.

Há um ano como presidente do PSD, Aníbal Cavaco Silva tinha, entretanto, posto fim ao Bloco Central com o PS, vencera as legislativas de 6 de novembro de 1985 e era primeiro-ministro há seis meses.

No Coliseu, foi reeleito sem opositores e sustentou que o PSD tinha “grande espaço para crescer”, incluindo para o campo “tradicionalmente” definido como estando à sua esquerda – o que viria a confirmar-se com as maiorias absolutas obtidas em 1987 e 1991.

A questão da estabilidade governativa esteve em destaque. Com Mário Soares recém-chegado a Belém, após ganhar a segunda volta das presidenciais contra Freitas do Amaral, Cavaco Silva afirmou na sua moção que o PSD pretendia cumprir o seu mandato governativo, mas não temia eleições, nem permitiria o incumprimento do seu programa.

 

+++ XIV Congresso Nacional do PSD, 17, 18 e 19 de junho de 1988 +++

 

Os congressos do PSD passaram de anuais a bianuais e, dois anos depois, Cavaco Silva voltou ao Coliseu de Lisboa, reforçado com a vitória do PSD com maioria absoluta nas legislativas antecipadas de 19 de julho de 1987.

O discurso do então primeiro-ministro centrou-se nas privatizações e reformas, entre as quais a da legislação laboral.

Cavaco Silva apelou a um “consenso aceitável” com o PS sobre a revisão da Constituição e prometeu pôr termo à “estatização herdada de um período revolucionário e de dez anos de incapacidade política para a contrariar eficazmente”.

No encerramento dos trabalhos, acusou a oposição ao seu Governo de ser “cega na crítica, obstrucionista por sistema, radical e maledicente”. Na altura, Vítor Constâncio liderava o PS e Álvaro Cunhal o PCP.

 

+++ XVII Congresso Nacional do PSD, 17, 18 e 19 de fevereiro de 1995 +++

 

O Congresso mais marcante do PSD no Coliseu dos Recreios de Lisboa aconteceu quando chegava ao fim a chamada década do “cavaquismo” e os sociais-democratas se dividiram na escolha do novo presidente do partido.

Com Cavaco Silva equidistante, sem declarar apoio a nenhum dos candidatos e abstendo-se de votar, a liderança do PSD foi disputada por José Manuel Durão Barroso e por Fernando Nogueira, que venceu por 33 votos.

Pedro Santana Lopes animou o Congresso com um discurso contra a governamentalização do partido, mas acabou por não ir a votos, concorrendo apenas ao Conselho Nacional do PSD.

Foi nesta reunião magna que Luís Filipe Menezes fez a polémica afirmação de que a vitória de Durão Barroso seria o triunfo de um “eixo sulista, elitista e liberal” contrário à identidade do PSD.

Muitos congressistas apuparam-no e, na sequência desse episódio, Menezes renunciou à vice-presidência do partido que lhe tinha sido proposta por Fernando Nogueira.

Cavaco Silva despediu-se da liderança do PSD sob apelos para que se candidatasse às eleições presidenciais do ano seguinte, o que acabaria por se concretizar.

 

+++ XIX Congresso Nacional do PSD, 4, 5 e 6 de outubro de 1996 +++

 

O PSD perdeu as legislativas de 1 de outubro de 1995, perdeu as presidenciais de 14 de janeiro de 1996 e mudou de líder em março desse ano, elegendo Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi numa conjuntura de oposição ao PS que os sociais-democratas voltaram ao Coliseu de Lisboa, para um Congresso extraordinário.

Marcelo Rebelo de Sousa reforçou a sua liderança, com a aprovação de uma reforma estatutária com 77,5% dos votos, superando os dois terços que tinha pedido.

Na abertura dos trabalhos, o presidente do PSD prometeu retirar “todas as consequências” do resultado dessa votação, exigindo que o Congresso fosse “claro” no apoio à sua liderança e à sua estratégia para as autárquicas de 1997, e desafiou quem o contestava a assumir-se.

“Quem estiver de boa-fé que avance agora. Se não avançar, vá trabalhar. Numa carreira, se a tiver. No partido, se conseguir ser humilde e solidário, ao menos durante catorze meses. Noutro partido, se a imagem que tem de si mesmo o impede de ser outra coisa que não líder, mesmo sem adeptos”, declarou Marcelo, que diria depois estar a falar para uma “oposição sem rosto”.

Pedro Santana Lopes, o seu principal opositor, prometeu ficar calado até às autárquicas, mas recusou colaborar com a direção nacional do partido: “Se você, Marcelo, precisar de colaboração sem abrir a boca, isso eu não lhe empresto”.

 

+++ XXIV Congresso Nacional do PSD, 12, 13 e 14 de julho de 2002 +++

 

Quando, seis anos mais tarde, o PSD voltou ao Coliseu de Lisboa, era liderado por Durão Barroso e o ciclo da governação socialista tinha terminado, na sequência da demissão de António Guterres.

Durão Barroso era primeiro-ministro há quatro meses, chefiando um Governo PSD/CDS-PP, após ter vencido as legislativas antecipadas de 17 de março de 2002 contra um PS liderado por Eduardo Ferro Rodrigues.

No Coliseu, foi reeleito presidente do PSD, sem opositores. A separação entre Governo e partido esteve em debate e os anteriores governos socialistas foram um alvo comum.

Durão Barroso falava em “recuperar os estragos e o tempo perdido”, enquanto a ministra de Estado e das Finanças, Manuela Ferreira Leite, comparava a situação do país a “uma casa a arder”, perante a qual o Governo atirava água ao fogo, com a consciência que iria “estragar alguns móveis e carpetes”.

*Artigo escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela agência Lusa