Manifestações. “A contestação está a passar por aqui?”


A partir de hoje os portugueses vão conhecer com mais detalhe a austeridade no Orçamento do Estado do próximo ano, que será entregue até ao final do dia na Assembleia da República. A partir desta semana, a contestação está de volta às ruas e não faltam motivos para a justificar, ou não trouxesse este Orçamento…


A partir de hoje os portugueses vão conhecer com mais detalhe a austeridade no Orçamento do Estado do próximo ano, que será entregue até ao final do dia na Assembleia da República. A partir desta semana, a contestação está de volta às ruas e não faltam motivos para a justificar, ou não trouxesse este Orçamento mais cortes para os funcionários públicos e pensionistas, sem se prever nenhum alívio nos impostos dos portugueses.

Depois de um período em que os protestos abrandaram, a primeira grande manifestação está marcada para este sábado. Na semana em que se conhecem as medidas com que o governo pretende puxar o défice de 2014 para os 4%, a CGTP convocou um protesto para Lisboa – que pretende atravessar a Ponte 25 de Abril -, com foco direccionado para as críticas ao desemprego, a perda do poder de compra, os cortes nas prestações sociais e outras consequências da aplicação das medidas de austeridade. A manifestação de Lisboa ocorre em simultâneo com outro protesto promovido pela central sindical no Porto.

Uma semana depois, novo protesto na agenda, desta vez promovido pelo mesmo grupo, que já em dois momentos levou centenas de milhares de pessoas a contestar na rua as políticas do governo – o movimento Que se Lixe a Troika (QSLT).

Fora a intervenção dos sindicatos, os últimos meses foram parcos em contestação. Depois do pico de insatisfação a que se assistiu no final do ano passado – com o cerco ao parlamento e com os confrontos entre manifestantes e a polícia, em São Bento e arredores -, a contestação social fez uma longa caminhada de abstenção. “As pessoas estão muito cansadas e quando são bombardeadas com a ideia de que só existe este caminho é normal que se acomodem, mesmo tendo a indignação a crescer dentro delas”, entende Inês Subtil, do QSLT.

No entanto, a manifestação de dia 26 – que ligará o Rossio à Assembleia da República, e cuja convocatória apresentava já cerca de 800 subscritores de diversas áreas – pretende reavivar o clima de contestação contra o governo.

Mas o protesto de dia 26, garante o movimento, será apenas o ponto de partida para outros protestos. “É necessária uma continuidade. Temos de mandar este governo embora”, diz a activista. “A ideia é continuar com o protesto para não dar este balão de oxigénio” com que o governo pôde contar nos últimos meses, e que lhe tem permitido “manter-se ligado à máquina”, acrescenta Inês Subtil.

Se a CGTP e o movimento QSLT já têm uma agenda de protestos, a UGT prefere esperar para ver. “Não está nada previsto”, diz ao i fonte da central sindical. A UGT só depois de conhecer em concreto as linhas com que se cose o Orçamento do Estado para 2014 irá analisar os passos a tomar.

O que já se sabe é suficiente para, mesmo dentro da maioria, temer que os protestos voltem a subir de tom. O deputado e líder da JSD Hugo Soares reconhece as dificuldades por que passam milhares de portugueses e admite que a pressão sobre o governo vai mesmo subir, sobretudo nos próximos meses. “O clima de contestação vai ser grande, porque as forças de esquerda e de bloqueio – nomeadamente a CGTP, com a birra da Ponte 25 de Abril – já perceberam que, se até Dezembro ou Janeiro não abalarem o governo, ele consegue levar a legislatura até ao fim”.

Essa é, até agora, uma das vitórias do governo. Apesar de os protestos terem como lema o pedido de demissão do executivo, Passos Coelho continua a resistir a todas as crises e parece estar cada vez mais perto de levar a legislatura até ao fim – um cenário que chegou a ser considerado por muitos impensável. Até lá, falta mais de um ano e meio e muitos protestos.