Copenhaga. (En)canto da mulher-peixe


O centenário do Nobel da Química de Curie serve de pretexto à exposição e levou-me a comprar a biografia escrita por Eve Curie, a filha mais nova de Marie e Pierre e a única que não seguiu a carreira científica. Para mostrar o quão especial é esta família, diga-se que o marido de Eve, Henry…


O centenário do Nobel da Química de Curie serve de pretexto à exposição e levou-me a comprar a biografia escrita por Eve Curie, a filha mais nova de Marie e Pierre e a única que não seguiu a carreira científica. Para mostrar o quão especial é esta família, diga-se que o marido de Eve, Henry Labouisse, recebeu em 1965 o Nobel da Paz pela Unicef. Em duas gerações tiveram quatro distinções – duas para Marie Curie, uma para a sua filha e genro e, por fim, Labouisse.

“Madame Curie”, editado pela primeira vez em 1937, conta uma vida que vai muito além da descoberta de elementos radioactivos. Marie Curie (1867/1934) tinha um espírito revolucionário. Nasceu em Varsóvia, em pleno império russo, e durante a adolescência teve de lidar com a humilhação de declamar aos inspectores a história e hierarquia do império por ser a melhor da turma a falar russo, a melhor a decorar, a melhor a representar. Nunca lhe reconheceram o génio, mas a exposição fala pouco de tudo isto. A razão é simples, explica Eve: Manya Sklodowska (o nome polaco de Marie) e os três irmãos receberam todos a medalha de ouro quando terminaram o liceu. Era normal ser-se muito bom numa casa onde, no final do século XIX, havia uma grande biblioteca e um pai professor empenhado.

Marie ajudou primeiro a irmã a pagar a viagem para Paris para estudar Medicina na Sorbonne e só depois emigrou para estudar Física. Com 19 anos, trabalhou como governanta para uma família de Szczuki, no interior da Polónia. Farta da sua “conduta exemplar” e da alienação das crianças e jovens da terra, decidiu pôr em prática as “ideias progressistas” que a elite teimava em guardar, fugindo para França. Criou um curso secreto para ensinar polaco, sob pena de ser deportada para a Sibéria. Hélène Langevin-Joliot, a neta hoje com 84 anos e uma carreira longa na física nuclear, responde-me ao email enviado através da União Racionalista francesa, a que preside, com a notícia de que uma dor ciática a deixa demasiado cansada para dar entrevistas. Peço-lhe só uma pergunta. Já disse outras vezes que tem poucas memórias da infância. Que os pais – os laureados Irène e Frédéric Joliot–Curie, pelas descobertas que permitiram o uso de radioterapia em medicina – não lhe falavam da avó famosa. Esta vontade de Marie Curie de combater a ignorância inspirou-a? “A minha mãe em particular dizia sempre que a ciência é uma obra colectiva, que os conhecimentos que adquirimos fazem parte do património comum da humanidade. Que devemos usá-los no interesse de todos.”