Ataques. A culpa é do lobo ou do homem?


Granja do Jarmelo. Nem o Google Maps sabe onde é. Fica no concelho da Guarda, e foi lá que João Martins, numa manhã de finais de Abril, encontrou cerca de 20 das suas ovelhas mortas. No último domingo, foi Pedro Roque a descobrir entre 12 e 15 ovelhas feridas, perto da aldeia de Urrós, município…


Granja do Jarmelo. Nem o Google Maps sabe onde é. Fica no concelho da Guarda, e foi lá que João Martins, numa manhã de finais de Abril, encontrou cerca de 20 das suas ovelhas mortas. No último domingo, foi Pedro Roque a descobrir entre 12 e 15 ovelhas feridas, perto da aldeia de Urrós, município de Mogadouro. No mapa, as duas povoações distam cerca de 100 quilómetros, e é a queixa de dois pastores que as aproxima: ambos estão convencidos de que os seus rebanhos foram atacados por lobos. Por enquanto, nada se confirmou, apesar de ainda se esperar a avaliação do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), entidade a que compete analisar estes casos.
Uma conclusão precipitada dirá que dois casos em menos de um mês são motivo para ter medo. Em 2013, a GNR contabilizou cinco. O ano passado foram 2702, segundo o ICNF. Estará a população do lobo-ibérico a aumentar em Portugal? Não necessariamente – responde Carlos Fonseca, ao lembrar que “os factores para estas baixas nos rebanhos” podem “ser muito diversos e nem sequer estar relacionados com lobo”. Um “nim” como resposta e as dúvidas apresentadas pelo investigador do Departamento de Biologia e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro remetem-nos para os dados oficiais. Só que nem esses ajudam a esclarecer.
 A última actualização do Censo Nacional do Lobo é de 2002/2003, altura em que o Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAMAOT) calculou “em cerca de 300” os lobos ibéricos existentes em Portugal. Um valor, explicou a tutela ao i, que deve “ser encarado apenas como a ordem de magnitude da população de lobos” no país.
Ponto de situação: a incerteza reina quando o objectivo é calcular o número de lobos em Portugal. Dúvidas que não se repercutiram nas palavras de Pedro Roque, proprietário do rebanho supostamente atacado em Urrós. “Quando fui, pela manhã, ao local onde os animais estavam estabulados, vi que a cerca estava rebentada e deparei-me com animais bastante feridos, ao que tudo indica por mordeduras de lobo”, contou à Lusa. Que indicadores são estes? O “comprimento das marcas, os locais ou tipos de dentadas”, apontou como exemplos Gonçalo Brotas, da Associação de Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico, ao entrar num campo de trabalho que arrasta o ICNF de volta à cena.
Entre as suas responsabilidades, o Instituto de Conservação da Natureza, tutelada pelo MAMAOT, além de apurar o número das populações de lobo-ibérico, deve registar todas as ocorrências associadas à espécie e “tomar conhecimento oficial” de casos como os de Guarda e de Mogadouro. Aí os afectados devem, “num prazo máximo de 48 horas”, contactar os serviços regionais do ICNF para que seja realizada “a devida vistoria, avaliação e identificação das causas, sempre que possível”, explicou Carlos Fonseca.

lei vs. morte Apesar de ainda ser necessária uma confirmação oficial do ICNF, o recente par de ataques suscitou nos pastores locais poucas, ou mesmo nenhumas, dúvidas: a culpa foi da espécie ameaçada de extinção, a única a ter “uma legislação específica pela qual é estritamente protegida”, como lembrou a tutela. Em causa está a Lei de Protecção do Lobo-Ibérico, criada em 1988 e revista em 1990, que proíbe o abate ou a captura de animais da espécie, e sobretudo prevê o “ressarcimento” da parte do Estado pelos “prejuízos causados pelo lobo” aos proprietários de gado ou rebanhos que sofram ataques (confirmados) de lupinos.
Ou seja, “paga-se uma indemnização para não se matarem lobos”, sintetizou o presidente do Grupo Lobo, associado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Se quer matar, [o proprietário] não recebe. Se recebe, não mata, e a mentalidade muda se as pessoas receberem a tempo e horas”, explicou Francisco Fonseca. Só em 2012, o governo pagou cerca de 800 mil euros em indemnizações. Nos últimos dez anos (2003-2012), o valor total cifrou-se nos 6,8 milhões de euros.

Prevenção Um ataque de lobo “não é nada de estranhar”, reconheceu Gonçalo Brotas, mas os episódios registados nas regiões da Guarda e de Mogadouro “podem também ter sido causados por cães”. Os pastores queixam-se e afinal os ataques, a serem confirmados, vêm sempre da boca do lobo. Mas a culpa até pode cair mais do lado do homem. Carlos Fonseca explicou que os ataques se devem em parte à “escassez de presas selvagens”, como o corço, o javali ou o veado. Escrito de outra forma, devido a uma falta de presas causada pela caça humana.
A outra peça deste quebra-cabeças está na “falta de implementação de medidas preventivas”, como técnicas de protecção dos rebanhos, cuja adopção o governo “tem fomentado” para garantir “uma maior protecção dos efectivos pecuários”, esclareceu a tutela. Medidas que variam entre “ter um pastor sempre presente e bons cães de gado, de raças com capacidades inatas” para a protecção de rebanhos, como o Serra da Estrela ou o Castro Laboreiro, propõe Francisco Fonseca. “E nunca deixar o gado à noite fora de um estábulo”, acrescentou.
A tudo isto, soma-se ainda uma espécie de regresso ao passado na convivência com o lobo: “As pessoas alteraram os seus hábitos e agora têm de voltar a uma situação à antiga.” E não se pense que o especialista está sozinho nesta posição. “É possível mudar mentalidades ao homem, não ao lobo. Temos de proteger os animais e perceber que o lobo está e sempre esteve presente”, sublinha ainda Gonçalo Brotas.