Ana Paula Figueiredo. “A mulher é o motor da economia moçambicana”


 


 

É advogada e filha de pai português. Veio para Portugal ainda pequena e regressou a Moçambique por força das circunstâncias. Mas redescobriu a Pérola do Índico e não foi capaz de voltar para trás. O convite para presidir ao LIDE Mulher em Moçambique deu-lhe a oportunidade de reforçar ainda mais os laços entre as duas nações. Veio a Lisboa contar a sua história a uma plateia cheia de gente com vontade de a ouvir e voltou para Maputo cheia de vontade de contar a sua história.

 

Como teve conhecimento do projecto LIDE – Grupo de Líderes Empresariais?

Foi através do presidente-executivo do LIDE Portugal, Miguel Henrique, que é advogado como eu e com quem já trabalhei em diversos projectos. Penso que acreditou que teria perfil para liderar o LIDE Mulher Moçambique, por ser uma mulher empreendedora. E convidou-me.

A sua vida tem-se dividido entre Moçambique e Portugal…

Fui para Moçambique à aventura, ainda muito nova. Nasci em Maputo, antiga Lourenço Marques, mas saí de lá com os meus pais na altura da revolução. Quando voltei, pensei que ia encontrar tudo igual, porque falávamos a mesma língua. Mas senti um grande choque cultural.

Como encontrou Maputo?

Após a independência tudo se tornou diferente. O mundo empresarial era muito difícil, dominado por homens. Não foi fácil. Nos primeiros meses tive de estudar os mercados, fiquei quatro ou cinco meses sem trabalho, sem saber se ficaria ou não. Acabei por me apaixonar por aquilo e decidir ficar.

O que a levou a Moçambique?

Fui a Maputo devido à morte de um familiar. Costumo dizer que nem sequer fechei as janelas da minha casa. Ia por 15 dias e acabei por ficar dois anos e só então voltei a Portugal, aí sim, para fechar as janelas.

Vivia em Aveiro e foi sem planos, sem trabalho. Como é que se tornou empresária?

Comecei a tentar ver quais eram as carências. No fundo havia falta de tudo. Estava grávida do meu segundo filho e fui mãe lá. As crianças que eram amamentadas tudo bem, mas os mais crescidos não tinham leite, por causa da guerra. Então descobri que havia uma fazenda a 50 ou 60 quilómetros de Maputo onde se produzia leite, que não era escoado para a cidade por causa dos ataques dos grupos armados. Percebi que aconteciam às 9 ou 10 da manhã, mas entre as 6 e as 8 horas não acontecia nada. Comecei a acordar às cinco da manhã e a ir numa carrinha cheia de bidões abastecer-me de leite. Pouco depois estava a entrar na cidade e fui arranjando um leque de clientes pelos quais distribuía o leite. Sei que ganhava mil por cento e rapidamente comprei o meu primeiro carro, um BMW.

Mas foi desenvolvendo outros negócios, até de família…

Sim. As mulheres moçambicanas são muito vaidosas, mas não havia cabeleireiros, roupa, etc. Por isso tive um ateliê e abri uma boutique de roupa. Também abri um pequeno spa e cabeleireiro. Havia mercado, as pessoas estavam lá, mas não havia know-how. Seis anos depois decidi abrir um pub de música ao vivo.

Tudo sozinha?

Uma coisa eu descobri muito cedo em Moçambique, o espírito de entreajuda. Havia muita pobreza, guerra, órfãos e isso ensina muito às pessoas. E eu tinha um grande apoio lá, a  minha irmã Maria do Céu, que era dona do maior complexo hoteleiro, o minigolfe, actual Coconuts. Deve ser genética, esta coisa do empreendedorismo, somos mulheres de negócios. Também trabalhei numa empresa de cerâmica e depois numa de soalhos, do meu avô, já velhinho. Era contabilista e gestora e decidi que tinha de fazer algo mais pelo meu país. Como as faculdades de Direito estavam fechadas naqueles anos, decidi voltar a Portugal para estudar e  seguir uma profissão que me desse oportunidade de ajudar.

E voltou a Portugal.

Fiz o curso de Direito e ainda fiquei um tempo, mas já não me adaptei. Pedi muita desculpa aos meus pais, que queriam que eu ficasse, e voltei para Moçambique, onde exerço advocacia e sou empresária.

Hoje faço sobretudo direito comercial e societário.

Fazer negócios em Moçambique é fácil?

Em termos de legislação, sim. Há 25 anos, quando fui para Moçambique, não era. Hoje o país está estruturado, organizado, há separação de poder entre o poder político, económico e judicial. Isso significa que a democracia está bem instalada. Só isso torna o ambiente mais propício aos negócios.

Qual é a condição sine qua non do_êxito?

Moçambique tem muito potencial, mas é um país para quem quer trabalhar. Tenho observado casos de fracasso de pessoas que decidem mudar de vida e acham que, porque se fala a mesma língua, é sucesso garantido. E não é. Quem vai à procura de dinheiro fácil não se vai dar bem. Moçambique é um bom país para quem quer trabalhar e tem força e energia para ser empreendedor.

Quais são as áreas de actividade com maior potencial de negócio?

A agricultura é uma área muito, muito necessitada. Em Moçambique a terra não é vendável, mas é concessionada pelo governo mediante a atribuição de licenças de exploração. Mas para ter direito à terra um estrangeiro tem de constituir uma empresa de direito moçambicano, não importa a nacionalidade dos sócios. Mas há outras áreas carenciadas, como a da formação profissional; por causa da guerra, desenvolvemos quadros superiores muito rapidamente, mas faltam os intermédios. Mas há mais: a área têxtil (do estilismo à costura), a do jornalismo e media, da estética… É isto que convido as empresárias a fazer e que me parecem boas apostas.

É casada com o vice-ministro da Juventude e Desportos. Mas a mulher moçambicana é valorizada?

Culturalmente, por causa da guerra, quem gere a casa é a mulher. Ainda hoje, nas zonas rurais, os homens vão trabalhar para fora, para as minas, e enviam o dinheiro para a mulher. É ela que move Moçambique. Aliás, 20% do governo moçambicano é constituído por mulheres, que ocupam pastas estratégicas, como a da Justiça, a dos Recursos Minerais, a do Trabalho… Até há poucos anos a primeira-ministra era mulher. Os homens que me perdoem, mas as mulheres são o motor de Moçambique!

Quais os seus objectivos para o Lide Mulher Moçambique?

Acabei de chegar, mas já estou a pensar na forma como vou fazer algumas parcerias com o Lide Portugal e com o Lide Brasil. Estamos muito voltados para a lusofonia. O meu primeiro passo vai ser mobilizar as empresárias moçambicanas e sensibilizá-las para este projecto e para recebermos as mulheres portuguesas. Moçambique tem o potencial, mas às vezes falta-lhe liquidez por causa dos juros de 20%. Portugal tem know-how e financiamento da SOFID. Acho que podemos fazer grandes parcerias e crescer.