Oito retratos de Moçambique. O país visto por dentro


 


 

01. Está-se a assistir à “luandização” de maputo 
Ricardo Mota
Delegado da rtp moçambique
lll Já tinha estado em Angola, Guiné e Cabo Verde. Moçambique era quase incontornável. E foi. Em sete anos, o país mudou radicalmente. “Neste momento, até poderia dizer-se que se está a assistir à ‘luandização”’ de Maputo.” Nos últimos dois anos, o metical tornou-se muito forte face ao euro e ao dólar, provocando a diminuição do poder de compra “da classe de expatriados ou emigrantes”. Moçambique passou a ser procurado sobretudo nos últimos três anos, face à conjuntura pouco favorável na Europa, a contrastar com o potencial trazido pela exploração de recursos naturais do país, que levou a uma “avalancha de estrangeiros”. A oferta de habitação foi ultrapassada pela procura exagerada, que fez disparar preços. “Nada é barato, já tudo passou a barreira do razoável, mas os restaurantes estão cheios, todos têm carro e não há falta de nada”. A chegada do megaprojecto Vale do Rio Doce levou consigo muitos brasileiros de repente, 1200, só em Tete. “Acredito que a situação vai manter-se durante algum tempo, pois os grandes projectos são de médio e longo prazo” e vão precisar de apoio, o que levará à criação de negócios-satélite e de mão–de-obra. Para se fazer um retrato do país, uma realidade: existem 12 canais de televisão em sinal aberto, “uma barbaridade”.
 
02. A atribuição de vistos vai ser cada vez mais dificultada
António Leitão
Empresário
lll “Quando saí, em 74, Maputo era um paraíso. Quando voltei, em 97, era um inferno.” Beleza e camaradagem em conflito com falta de água e de comida, que a guerra deixou poucas opções. Hoje, fora de Maputo, as condições são outras, mas na capital “existe tudo e com qualidade, não há problemas de trânsito ou segurança, o que não acontecia no passado. E podem frequentar-se restaurantes sem problemas de diarreias por causa das comidas, águas ou gelo”. Também a “saúde melhorou substancialmente”, com a África do Sul a “um passo, para casos mais graves”. Os preços da habitação “dispararam”. Em 97, uma casa custava 700 dólares; hoje custa 4 mil e “não é difícil encontrar rendas de 8 mil ou 9 mil por mês”. Escolas não faltam: Americana, Francesa, Internacional – por mil ou 1500 dólares/mês –, ou a Portuguesa, pública e substancialmente mais barata. “Mas estamos a falar do microcosmos que é Maputo, o resto do país ainda está a anos- -luz”. Regiões como Nacala vão sofrer uma evolução rápida, devido ao estabelecimento de negócios. Quem tem empresas tem de contar com o regime de quotas, 20 trabalhadores moçambicanos para dez estrangeiros. “Mas não basta cumprir as quotas, a atribuição de vistos vai ser cada vez mais dificultada. Os entraves são cada vez maiores para quem chega.” 
 
03. Colegas de trabalho denunciam ilegais
João Almada
Jornalista
lll “O preço de uma casa disparou quatro vezes, passou de dois mil para sete, oito mil dólares. Ninguém faz ideia de que é tão caro e acaba por acontecer serem quatro ou cinco a alugar uma casa para dividirem a renda.” Um restaurante da mesma categoria “custa 50% mais em Maputo do que em Lisboa”. O preço da saúde é “um disparate”. Existem muitos portugueses ilegais em território moçambicano e as regras vão ser ainda mais duras, com a inspecção do trabalho a apertar o cerco. “A partir de Abril será quase necessário uma carta de chamada, como no tempo colonial.” Em muitos casos, são os próprios colegas de trabalho a denunciar os ilegais às autoridades. “Hoje existe algum receio por parte dos quadros médios/superiores moçambicanos.” Têm medo de ser passados para trás. “No jornal ‘Verdade’, o único gratuito do país, só com jornalistas moçambicanos, esteve um português a dar formação. Foi denunciado às autoridades e acabou por ir embora.” O regime de quotas dita um português por cada dez moçambicanos, “mas a tendência é para piorar”. E as dificuldades diferem de profissão para profissão. “Um advogado que chegue agora não consegue inscrever-se na ordem e não pode exercer, a menos que já tenha 20 anos de actividade em Moçambique.” O conflito arrasta-se há anos e está longe de estar resolvido. São “medidas populistas”. Por exemplo: “O seguro do carro é obrigatório desde há dois anos, mas como a maior parte dos locais não tem dinheiro para o comprar, existe uma espécie de acordo implícito em que a polícia não pede o documento.” O carro pode ser comprado por mil dólares, “mas não há dinheiro para a inspecção” e para a gasolina. 
 
04. Moçambicanos conhecem melhor os seus direitos
Lurdes Tavares
Funcionária pública
lll Esteve em Maputo entre 2007 e 2009. Regressou em 2010 e lá continua. O custo de vida “aumentou brutalmente”. Como recebia em euros, “ir a um restaurante ou a um supermercado era mais barato do que Portugal”. Mas o euro desvalorizou e os preços continuaram a subir, em alguns casos 100%. Uma renda que custava 1000 dólares pode agora custar 4 mil, numa zona segura e com qualidade. “Vejo muitos portugueses virem para cá e, se não vêm com nada garantido, não sei como se aguentam.” Nos moçambicanos nota uma atitude um pouco diferente; “Não diria que as pessoas estão mais agressivas, mas mais exigentes, mais reivindicativas. Têm mais consciência dos seus problemas e dos seus direitos.” Apesar de tudo estar concentrado em Maputo, Tete está em expansão “por causa das reservas de gás natural. Nampula e Beira, a norte, também”. Falta, mesmo, só da família e dos amigos. “E as mulheres têm pouca oferta de pronto-a-vestir e essas coisas de que gostamos.” Para isso é preciso ir à África do Sul, a 200 quilómetros. “Cinquenta euros em gasolina, ir e vir, e só em viatura própria.” Os transportes não são bons e é preciso escolher o fim-de-semana certo, “porque o início do mês é muito concorrido e espera-se horas na fronteira”. Para os que querem ir para Moçambique, uma reflexão: “Muitas pessoas não têm a noção do custo de vida e da dificuldade de um estrangeiro arranjar emprego. Mas se vem com emprego garantido, é óptimo.” 
 
05. Um bom carro pode custar 5 a 10 mil dólares
Ricardo Franco
Professor
lll “Adoro viver em Moçambique.” Chegou há três anos e não lhe falta nada do que tinha em Lisboa, “os hábitos conseguem manter-se”. Emprego, casa, carro. “Os carros são todos importados do Japão e considero o parque automóvel moçambicano bom. Por cinco a dez mil dólares já se compra um carro razoável, até um jipe.” O sistema de saúde “está cada vez melhor”. Escolas “há muitas” e a pública “custa 100 euros por mês e tem piscina, ginásios e 1500 alunos”. É a Escola Portuguesa. Quando chegou, não encontrava mais de quatro carros no percurso para o emprego. Hoje, são mais de 30. Em compensação, “em mais de dois mil quilómetros de estradas, apenas 80 estão em mau estado”. Maputo, hoje, é igual a “uma cidade europeia. Fora, é mato”. Mas está a desenvolver-se e vêem-se muitos brasileiros à volta do projecto do Vale. “Gostam de bares, churrasco e forró.” Em Maputo há sempre o que fazer. “A lista da embaixada com actividades culturais é monstra: espectáculos, cinema, curtas, teatro, bares.” Mora na periferia “e neste momento estou a ouvir um homem que passa e grita: ‘Couves, couves!’ É um bairro muito característico. É bom viver cá”.
 
06. Contratos de arrendamento arbitrários
Dina Trigo de Mira
Quadro superior
lll Foi em comissão de serviço, tem vínculo à função pública portuguesa. Chegou a Maputo no final de Janeiro de há cinco anos e, neste tempo, “a diferença é muito grande”. Mais automóveis na rua, mais casas em construção, mais empresas de nacionalidades tão diversas com portuguesa, brasileira ou chinesa. Vêem-se obras da Soares da Costa ou da Mota--Engil. A vida está muito cara, sobretudo as rendas de casa. “Não há normativos a balizar os arrendamentos” e, se os há, são ignorados. “O que é válido hoje, já não é amanhã.” Sentiu isto na pele e teve de levar a senhoria a tribunal. Um dia, sem aviso, a proprietária intimou-a a deixar a casa, porque tinha encontrado alguém disposto a pagar mais pela renda. Mas existe um contrato… “A lei é a da oferta e da procura!”, terá respondido a senhoria. Por sorte encontrou uma casa melhor e mais barata, mas mesmo assim teve direito a indemnização, imposta pelo tribunal. De resto, “nota-se um enorme esforço para melhorar infra-estruturas, embora haja ainda muito a fazer”. Na rede de transportes públicos há os machimbombos [autocarros], e também muitos “chapas” e carrinhas de caixa aberta a transportar pessoas. “As estradas estão muito melhores.” Na saúde existem já muitas clínicas privadas, até portuguesas. Quanto ao resto, o que é preciso “é entrar no ritmo, que é diferente. E não se pode vir à aventura”. Sobre a vida social, “o que vejo é portugueses conviverem com portugueses e apenas alguns moçambicanos, não muitos. Eu convivo com toda a gente, penso que o entrecruzar de culturas é uma mais–valia agradável e importante”. 
 
07. Governo elabora novas leis para empresas
Taciana Peao Lopes
Advogada
lll “Todos os dias chegam a Maputo aviões cheios de pessoas. São horríveis, e penso que Moçambique devia abrir o espaço aéreo e a TAP devia prestar melhor serviço, que é muito mau, no número de voos, nos horários e nas condições que oferece.” Esta é a principal crítica. Especializada nas áreas da energia e infra-estruturas, trabalha num escritório que já conta com 49 advogados. “Fazemos de tudo um pouco, mas o maior movimento são contratos: arrendamentos, financeiros, franchising… O que notamos é que a sociedade deixou de aconselhar só individuais para passar a actuar mais na área de empresas.” Nasceu em Moçambique, de onde saiu com três anos para regressar aos 28. “O povo moçambicano é muito aberto a toda a gente. Se a imigração for bem feita, a integração nos locais de trabalho é acolhedora”. O país é “politicamente estável” e seguro. “Joanesburgo ou Rio de Janeiro são mil vezes pior.” Para quem quer estabelecer um negócio, “se o investimento for estruturado e a empresa vier bem organizada, tem tudo para ser bem sucedida”.
 
08. Tudo tem um preço, até a ajuda
Paulo Rivera
Empresário
lll “A vida é muito dura” e a lei do fiscal fala mais forte. “Ainda há dois minutos a polícia me mandou parar. Tenho tudo em ordem, mas paguei.” O preço foi baixo: “Três euros, para não ter de ficar pendurado umas horas.” Moçambique é bom para ganhar dinheiro, mas exige muito trabalho. Está em Maputo desde 2000, tem três estabelecimentos abertos ao público e factura cerca de 1 milhão de euros. Já lhe aconteceu de tudo: “Dificuldade na obtenção de licenças, inundações, obras falhadas, roubos, desfalques…” Dois anos só para o arranque do negócio. O problema é que “eu não conhecia a realidade. É complicado e bizarro”. Exagero? Não. “Em Moçambique, a palavra ajuda significa pagamento. É regra. Fiscal, polícia, quem quer que seja, não ajuda, vende um serviço.” É um mundo “em que se faz muita ginástica”. Pode acontecer “cortarem-lhe a luz no dia de Natal, mesmo tendo pago a factura. A solução é pagar outra vez”. A segurança é outro problema. “Não tenho um amigo que não tenha sido assaltado. A prova são as casas com portas duplas, janelas com gradeamentos, guarda-costas, motoristas, arame farpado à volta do jardim e cães.” As discrepâncias entre ricos e pobres, entre uma minoria com poder de compra e 95% a viver na pobreza, sem comida, sem água e “a fazer as necessidades numa latrina”. Uma cidade com 4 milhões de habitantes. “No bairro da minha empregada, todos os dias morrem duas ou três pessoas e não aparecem nas estatísticas.” As viagens podem ser uma sorte “porque alguém, que pagou mais dinheiro, pode ficar com o lugar já reservado”. Outra questão é a saída de divisas do país: “Não se pode transferir dinheiro, é preciso recorrer a mecanismos informais.” Mas também tem um lado positivo: “Praias deliciosas, bons restaurantes, boa vida nocturna.”